Jogos: Carmageddon: Rogue Shift – Análise
Carmageddon: Rogue Shift é uma reinvenção curiosa de uma série historicamente associada ao caos sandbox e ao humor negro. Em vez de simplesmente repetir a fórmula clássica, o jogo adota uma estrutura roguelite baseada em progressão por runs, tentando equilibrar nostalgia com sistemas modernos de design. O resultado é uma experiência com identidade clara, mas também com algumas fricções evidentes.
Jogo: Carmageddon: Rogue Shift
Disponível para: PC, PlayStation 5, Nintendo Switch 2, Xbox Series
Versão testada: PlayStation 5
Desenvolvedora: 34BigThings
Editora: 34BigThings
A essência da série continua intacta ao nível mecânico. Corridas transformam-se rapidamente em arenas de destruição, com metralhadoras, foguetes e colisões brutais a definirem o ritmo da ação. Atropelar zombies para ganhar impulso e recursos mantém o tom irreverente característico de Carmageddon, funcionando não apenas como elemento humorístico, mas como parte de um ciclo de recursos bem integrado no loop de jogo.
A principal mudança estrutural está no modelo de progressão. Cada campanha decorre num mapa ramificado com mais de uma centena de eventos, aproximando-se da lógica de “runs” típica dos roguelites. A permadeath dá peso às decisões e introduz tensão constante, enquanto o sistema de economia dupla, créditos para uso imediato e Beatcoins para melhorias permanentes, assegura um fluxo de progressão consistente. Este equilíbrio entre risco e recompensa é um dos pontos mais bem conseguidos do design, reduzindo a frustração associada a derrotas inevitáveis.
A condução situa-se firmemente no território arcade, com física deliberadamente escorregadia e foco no espetáculo. Derrapagens frequentes e superfícies de baixa aderência exigem adaptação constante do jogador. Quando funciona, este modelo reforça a identidade caótica da série, quando falha, pode parecer impreciso ou frustrante. Essa ambivalência estende-se a outros sistemas do jogo.
A IA, por exemplo, beneficia de rubber-banding agressivo que mantém as corridas competitivas, mas por vezes artificial. Alguns adversários comportam-se mais como projéteis guiados do que como pilotos credíveis, e as unidades Enforcer revelam limitações claras de pathfinding. Estes momentos não quebram o jogo, mas expõem inconsistências sistémicas.
O design das pistas ajuda a compensar essas falhas. Ambientes pós-apocalípticos cheios de armadilhas e perigos ambientais mantêm a ação imprevisível, enquanto os confrontos com bosses tentam introduzir variedade no loop principal. Ainda assim, estes encontros funcionam mais como testes de resistência do que como desafios mecânicos profundos, interrompendo o ritmo sem o elevar significativamente.
Do ponto de vista técnico, Rogue Shift mantém um desempenho geralmente estável, embora não totalmente polido. Quebras ocasionais no ritmo de fotogramas, texturas inconsistentes e pequenos bloqueios de controlo revelam falta de otimização final. São problemas visíveis, mas raramente críticos.
No conjunto, Carmageddon: Rogue Shift consegue traduzir a identidade destrutiva da série para um enquadramento roguelite sem a perder completamente. A combinação de combate veicular, progressão persistente e condução arcade cria uma base sólida, ainda que imperfeita. Entre boas ideias de design e limitações técnicas, o jogo encontra-se num ponto intermédio: suficientemente diferente para justificar a experiência, mas não suficientemente refinado para se tornar uma referência dentro do género.
Nota: 7/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





