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Energon Universe: nostalgia com ambição e risco

O Energon Universe junta Transformers, G.I. Joe e Void Rivals num projecto ambicioso que reinventa ícones dos anos 80 com maturidade e visão coesa.

Energon Universe: nostalgia com ambição e risco

Antes de ir título a título, convém dizê-lo claramente. O Energon Universe é uma jogada perigosíssima. Misturar Transformers e G.I. Joe, duas propriedades carregadas de nostalgia dos anos 80, com uma série totalmente original como Void Rivals, podia facilmente resultar num exercício vazio de marketing. No entanto, e aqui está a surpresa, existe planeamento, um tom adulto bem definido e uma visão criativa coerente. Muito desse mérito deve-se a Robert Kirkman, que assume aqui o papel de verdadeiro arquiteto editorial deste universo partilhado.

energon universe

 Transformers para adultos

Durante décadas, Transformers sofreu de um problema crónico. Ou era demasiado infantil, ou ficava excessivamente preso a uma mitologia confusa acumulada ao longo dos anos. Daniel Warren Johnson entra em cena e resolve isso com algo simples e eficaz: emoção humana, escala épica e violência com verdadeiro peso narrativo.

Transformers

Aqui existe impacto emocional real. Este Optimus Prime não é apenas um líder, é uma figura trágica, cansada, esmagada pelo peso de uma guerra interminável. A violência nunca é gratuita. Quando um Transformer é destruído, sente-se o peso da perda. Não são brinquedos a bater uns nos outros, são personagens em conflito permanente. A arte é explosiva, com Daniel Warren Johnson em modo total, linhas agressivas, movimento constante e páginas que parecem prestes a saltar da revista. As cores garridas e vibrantes elevam ainda mais o espetáculo visual.

Não é, no entanto, uma série para todos. Quem procura o conforto do Transformers clássico pode achar esta abordagem demasiado intensa e leitores novos podem sentir-se perdidos em alguns conceitos da mitologia cybertroniana, apesar do bom trabalho de contextualização. Ainda assim, este é, sem exagero, o melhor Transformers em banda desenhada em décadas. Trata os robôs como figuras trágicas numa guerra sem fim e isso eleva a série a outro patamar.

Void Rivals: o coração secreto do universo

Se Transformers é o músculo, Void Rivals é o cérebro. Criada por Robert Kirkman e Lorenzo De Felici, é uma série que ninguém conhecia e que acabou por se revelar essencial para compreender o que o Energon Universe realmente quer ser.

void rivals

Aqui encontramos ficção científica clássica. Dois povos presos numa guerra eterna, criados para se odiarem sem saber porquê. É Asimov com ADN Image. O world building é paciente e o universo vai-se  revelando gradualmente, sem despejar lore de forma preguiçosa. As personagens estão acima do espetáculo. Darak e Solila são definidos pelas suas escolhas morais, não por explosões.

O ritmo é lento no início, o que pode afastar leitores à procura de ação constante. Não existe aqui o gancho nostálgico de Transformers ou G.I. Joe. Ainda assim, Void Rivals é a série mais madura do universo. Não grita nem pisca o olho ao leitor. Constrói. E é precisamente por isso que pode acabar por ser a mais duradoura. À medida que a história avança, surgem sequências mais espetaculares e carregadas de ação e quando chegam, são excelentes.

G.I. Joe: reconstruir o mito militar

G.I. Joe sempre viveu numa linha estranha entre sátira militar e propaganda estilizada. No Energon Universe, a abordagem é clara. Menos bonecos e mais thriller geo-político. O tom é mais sério e realista, com a guerra a ter consequências reais e decisões erradas a custar vidas.

G.I. JOE

As personagens são introduzidas de forma faseada. Cobra Commander, Duke e Baroness surgem como peças de um xadrez maior, todas com peso narrativo e grande qualidade no argumento. A integração no universo partilhado é inteligente, com a ligação à tecnologia Energon a fazer sentido narrativo, em vez de funcionar apenas como um crossover forçado. Adoro o desenho, as cores são uma maravilha e a balonagem é perfeita.

Mesmo sendo mais fã de Transformers do que de G.I. Joe, esta acabou por ser a série mais surpreendente de todo o universo. As tramas são sólidas, com plot twists eficazes, e a ação constante, explosiva e de ritmo aceleradíssimo faz fluir adrenalina e testosterona em igual medida. Trata-se de um reboot inteligente, contido e extremamente promissor. Ainda não explodiu totalmente, mas está a ser construído com cuidado, algo raro em universos partilhados modernos.

Conclusão

O Energon Universe não trata o leitor como parvo nem como nostálgico fácil. Transformers é visceral, emocional e surpreendentemente humano.

Void Rivals é ficção científica clássica bem escrita e o verdadeiro alicerce conceptual do universo.G.I. Joe aposta num realismo tenso, ainda em crescimento, mas com um potencial muito sério.

Isto não é apenas reviver marcas dos anos 80. É uma tentativa genuína de criar um universo coeso, adulto e com identidade própria, algo que muitas editoras tentam e poucas conseguem. Quem é fã não deve perder estas leituras. Quem não é, devia se atrever a descobrir.

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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