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Cinema: Crítica – Soft & Quiet (2022)

Existem obras que inesperadamente surpreendem e tomam-nos por assalto, levando-nos numa experiência intensa cinematográfica como raras vezes elas são, seja pelo tema, e as actuações do elenco. Este é o caso de Soft & Quiet, a estreia nas longas-metragens de Beth de Araújo, que já se definiu como uma das grandes estreias dos últimos tempos, que conta com o selo de produção de Jason Blum e da Blumhouse.

Contando em tempo real e num plano único, seguimos Emily (Stefanie Estes), uma professora da primária que organiza uma reunião com outras mulheres com um interesse em comum. Durante este convívio, esta encontra alguém do seu passado e uma série de eventos catapultam para algo que nunca poderão voltar a atrás.

A ambiguidade em falar deste filme é uma parte essencial para o factor surpresa, algo que nos primeiros 10 minutos da obra é estabelecido de forma inteligente e provocador. Quando damos por nós, já fomos puxados para o meio de algo que queremos muito sair, não conseguindo virar a cara. É com esse misto de mistério e provocação que a realização de Beth de Araújo faz com que este filme funcione plenamente, conseguindo tirar em 92 minutos muitas mais sensações que filmes com o dobro da sua duração, e um orçamento multiplicado.

A simplicidade directa argumento, da qual a mesma também escreve, não guarda muito espaço para invenções ou tangentes que possam ser irrelevantes. Tudo aqui, desde do primeiro minuto conta, e é importante não só para a história, mas também a percepção que temos perante estas mulheres. É uma aventura muito, muito, intensa, não recomendada para corações fracos, algo que sentimos que deveríamos ter sido avisados previamente. Mas uma que fica connosco e nos faz olhar para as pessoas doutra forma. Da mesma forma que o filme aborda um grupo muito específico de pessoas dentro da nossa sociedade, o facto de passarmos o filme inteiro a acompanhá-las torna díficil haver um momento para respirar, mas a necessidade urgente de um ritmo acelerado, onde algo tem que estar sempre a acontecer, oferece uma dinâmica única e que fica connosco.

Gravado em apenas quatro dias, Soft & Quiet é uma masterclass em suspense e como criar tensão, com uma capacidade de causar tamanho desconforto e ainda tirar prazer disso. Não são muitos os cineastas capazes de tal talento, cimentando de forma definitiva Beth de Araújo como uma das grandes novas realizadoras do cinema independente. Uma perfeita demonstração que o cinema de género está bem de saúde, e que ainda há espaço para novos criativos que querem-se estabelecer na memória permanente dos fãs de bom cinema.

Nota Final: 9/10

Soft & Quiet foi visto no âmbito da cobertura da 20ª edição do IndieLisboa.

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