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Cinema: Crítica – Os Últimos Dias de Emanuel Raposo

No meio da vastidão de filmes, séries e documentários para visualizar, acabamos, inevitavelmente, por nos surpreender com alguma variante que destoa de tudo o que vimos até então. No caso, refiro-me a “Os Últimos Dias de Emanuel Raposo” um mockumentary, que é um tipo específico de documentário, só que com elementos fictícios, embora tente transmitir a sensação de que se trata realmente de algo factual para quem o vê.

O termo proliferou-se através da paródia musical de This Is Spinal Tap (1984) de Rob Reiner, contudo nos dias que correm, é um formato de produção comum que se expandiu pelo mundo fora, incluindo Portugal.

Os Ultimos dias de Emanuel Raposo

Os Últimos Dias de Emanuel Raposo

é um ótimo exemplo nacional de um mockumentary. Sob a realização portuguesa de Diogo Lima, a obra incide sob o recorte de vida de um apresentador ficcional açoriano, na reta final do seu programa regional de televisão. “Meia Hora com Emanuel Raposo” preenchia as noites dos açorianos enquanto espelho cultural da região açoriana, tendo sempre à frente uma das maiores vedetas da década de 1990s.

Este documentário imaginado é, sobretudo, um estudo de personagem à luz da imagem que grandes figuras de destaque, em especial no meio televisivo português têm e no quanto isso se reflete em que está à sua volta. De facto, com pouco mais do que quarenta e cinco minutos, Emanuel Raposo (Mário Roberto) é um personagem carismático e de tal forma convincente que acreditei, em vários momentos, de que realmente se tratava de alguém real.

A sua personalidade é grandemente extravasada a partir dos momentos de interação e embate verbal com os seus colegas de produção. Não é fácil lidar com o apresentador açoriano e mesmo que a obra se ambiente nos últimos dias de gravação do programa, dá para sentir que houve todo um conjunto de antecedentes com os seus companheiros, desde assuntos mal resolvidos a piadas internas. É assim que se desenrola a ação de Os Últimos Dias de Emanuel Raposo.

Televisão Regional

Tal como o próprio cineasta aponta é uma obra que transcende o mero recriar de uma era da televisão regional de há trinta anos, é acima de tudo nas temáticas de “relações de poder em relações de trabalho” e do impacto do “envelhecimento no ego masculino” que este mockumentary brilha. O que o torna especial é o cunho muito à portuguesa, todo ele presente, seja nas expressões de vocabulário das personagens às localizações de rodagem escolhidas, que nos transportam imediatamente para lá.

Além disso o documentário fictício explora abertamente os meandros das produções portuguesas, no que toca à forma como estes são filmados e todos os contratempos que sofrem antes de chegar ao espectador final.  O elenco secundário está igualmente de parabéns, isto se levarmos em conta de que grande parte não se trata de atores de carreira, o que a seu jeito pode ter contribuído para elevar a imersão da obra. Ficando o destaque pessoal para a personagem de Vamberto Pinhal (João Malaquias) que com as suas máximas tradicionais e maneirismos me cativou.

Os Últimos Dias de Emanuel Raposo é das produções portuguesas mais originais que há memória, quiçá ser mesmo sui generis. Irá captar atenção de quem viveu naquela época e até mesmo de quem procura uma experiência curta mas que entretém, daí ficar uma grande recomendação da minha parte para que a assistam.  

Poderão ver esta produção na RTP PLAY.

 

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