Cinema: Crítica – O Fantasma de Canterville
A adaptação para filme animado de O Fantasma de Canterville equilibra humor, encanto e ainda tem um toque macabro.
A história de fantasmas de Wilde, escrita em 1887, tem assombrado adaptações há mais de um século, mas esta versão animada de 2023 dá-lhe nova vida, e uma centelha de eletricidade, ao clássico. Realizado por Kim Burdon e Robert Chandler, este novo olhar familiar mantém viva a sátira afiada de Wilde, vestindo-a com o brilho da era eduardiana e um coração caloroso e pulsante. Não é uma revolução na animação, mas é uma narrativa cheia de alma.
A premissa mantém-se deliciosamente absurda. A família americana Otis compra Canterville Chase, uma mansão inglesa rangente que vem com um residente muito particular: o fantasma Sir Simon de Canterville (com a voz, na dobragem portuguesa, de Paulo Oom, que substitui aqui Stephen Fry). Esperando aterrorizar os seus novos inquilinos, Sir Simon depara-se antes com o seu pior pesadelo: americanos que se riem na cara do ectoplasma.
Hiram Otis, interpretado por Nelson Raposo, instala luzes elétricas, engenhocas e uma boa dose de autoconfiança, enquanto Lucretia, dobrada por Paula Pais, ocupa-se com as suas ambições sociais. Os gémeos? Autêntico caos ambulante. A única que leva Sir Simon a sério é Virginia, a filha atlética e perspicaz (com a voz de Ana Teresa Pousadas nesta dobragem), que rapidamente descobre que o fantasma não é propriamente maligno.
A partir daí, a história desenrola-se com calor e engenho, culminando numa sequência lindamente sombria no “Jardim da Morte”, talvez o momento visualmente mais arrebatador do filme.
Convém esclarecer: O Fantasma de Canterville não vai redefinir a animação. As texturas podem parecer modestas e as personagens nem sempre se movem com fluidez. Mas é um filme estilizado, de forma intencional. Há uma estética quase de livro ilustrado na iluminação dourada da mansão e nas paisagens campestres, com retrospetivas em 2D que evocam os teatros de brinquedo vitorianos.
A sequência do Jardim da Morte destaca-se porque é aqui que o filme troca o seu tom leve por algo mais terno e intemporal. Por baixo das gargalhadas, esconde-se uma reflexão surpreendentemente rica sobre redenção, amor e o choque cultural. A modernidade audaz dos americanos choca com a tradição britânica, mas o filme trata essa tensão com encanto, em vez de crítica. A sátira original de Wilde sobre a classe e as boas maneiras mantém-se, ainda que suavizada para o público familiar.
O Fantasma de Canterville não é sobre espetáculo. É sobre espírito. O seu humor é suave, os sustos ligeiros e o coração sincero. A mistura de nostalgia eduardiana com o engenho de Wilde faz deste um aconchegante filme pré-Halloween para todas as idades.
Nota: 6,5/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





