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Cinema: Crítica – Mr.Nobody Contra Putin

Em Mr. Nobody contra Putin, um professor do ensino básico transforma-se em denunciante num documentário-thriller arrepiante sobre propaganda, medo e resistência silenciosa na Rússia de Vladimir Putin.

Mr. Nobody contra Putin

Se em 2001 a pergunta que dominava o espaço mediático era “Onde estavas no 11 de Setembro?”, em 2022 poderíamos reformulá-la para “Onde estavas quando a Rússia invadiu a Ucrânia?”. As primeiras notícias chegaram de forma fragmentada, quase irreais, e a sensação dominante era a de incerteza absoluta quanto ao futuro. O conflito prolonga-se em 2026, e Mr. Nobody contra Putin inscreve-se nesse presente contínuo, funcionando como documento urgente sobre os mecanismos internos que sustentam a guerra.

Há documentários que observam a História, e há documentários que a fazem sair clandestinamente de um país, escondida sob um casaco de inverno. Mr. Nobody contra Putin, realizado por Pavel Talankin e David Borenstein, pertence claramente à segunda categoria. O filme é paciente, metódico e, em vários momentos, quase insuportavelmente íntimo, recusando o sensacionalismo em favor de uma acumulação rigorosa de evidências.

O cenário é Karabash, pequena cidade mineira nos Montes Urais, a cerca de 1.100 milhas de Moscovo. O lugar assemelha-se a um vestígio de ambição soviética deixado a oxidar sob camadas de pó tóxico. Ali, Talankin não era ativista nem dissidente. Era professor primário, videógrafo oficial da escola e organizador de eventos. Um não-conformista com inclinação geek e artística, porto seguro para punks e miúdos deslocados. Politicamente, definia-se como “Mr. Nobody”, apolítico à superfície, progressista e anti-guerra em privado. Gostava da cidade, dos alunos, da rotina. Filmava peças escolares e cerimónias de finalistas. A vida era pequena, mas suficiente.

Mr. Nobody contra Putin

Fevereiro de 2022 altera tudo. A invasão da Ucrânia redefine a Rússia de um dia para o outro, e essa transformação é captada não através de manchetes, mas de circulares administrativas. Chegam ordens para implementar uma nova “política de educação patriótica”. O objectivo é inequívoco: militarizar a juventude, legitimar a invasão, normalizar a retórica do sacrifício. Cerimónias obrigatórias com bandeiras, crianças a marchar em formação, professores a ler guiões redigidos pelo Estado, mercenários do Grupo Wagner a dar palestras. As aulas de História convertem-se em sessões de propaganda. A câmara não exagera, limita-se a registar, e essa contenção é mais acusatória do que qualquer narração inflamada.

O paradoxo central reside no facto de ser precisamente o papel de Talankin como videógrafo oficial que fornece ao filme o seu fio mais cortante. A sua função consistia em documentar o cumprimento das directivas, produzir provas da propaganda em acção. Durante algum tempo, fá-lo: alunos entediados a jurar lealdade, docentes a repetir argumentos sobre a Ucrânia como “regime nazi”, corredores decorados com o símbolo “Z”. Gradualmente, a lente altera-se. As imagens deixam de ser arquivo burocrático e tornam-se material clandestino.

A colaboração com Borenstein poderia figurar num romance de espionagem: comunicação esporádica, linhas encriptadas, linguagem codificada. Centenas de horas de imagens são contrabandeadas para Copenhaga, onde o filme é montado. Identidades são ocultadas ou protegidas para salvaguardar quem permanece na Rússia. O resultado revela-se trabalhado, mas não excessivamente polido, estruturado, mas ainda cru, preservando a textura de urgência.

Mr. Nobody contra Putin

O contraponto mais perturbador surge na figura de Pavel Abulmanov, professor de História e colega de Talankin. Descreve a Ucrânia como um Estado fascista e prevê o colapso iminente do Ocidente com entusiasmo inquietante. A certa altura, aponta Lavrentiy Beria como herói pessoal. Seria caricatural se não fosse documental. Acaba recompensado numa cerimónia encenada, momento grotesco que cristaliza a banalidade do mal.

Entretanto, os alunos mudam. A câmara detém-se nos cortes de cabelo progressivamente mais curtos, na roupa camuflada que substitui o vestuário casual, nos corredores que parecem mais frios a cada mês. Alguns rapazes são incorporados no exército, outros alistam-se voluntariamente, alguns não regressam. A sequência mais devastadora quase abdica da imagem: Talankin assiste ao funeral de um ex-aluno morto na Ucrânia. Incapaz de filmar em segurança, grava apenas o áudio. O ecrã permanece negro enquanto se ouve o lamento inconsolável da mãe. A opção formal é arriscada e resulta como um golpe seco.

Do ponto de vista estético, a evolução é clara. As primeiras imagens assemelham-se a registos escolares funcionais e estáticos. À medida que Talankin assume o papel de cronista em vez de funcionário, o enquadramento torna-se mais expressivo, quase pictórico. Um segundo operador de câmara, creditado como “Anonymous”, permite ver Talankin dentro da própria narrativa, a descer escadas, a discutir com colegas, a existir no sistema que documenta. O filme torna-se progressivamente mais cinematográfico à medida que o protagonista se torna mais consciente do risco.

Mr. Nobody contra Putin

O último acto assume contornos de thriller, acompanhando a fuga de Talankin no verão de 2024. A tensão não é estilizada, é concreta. Ele abandona a cidade, os alunos, a vida que conhecia. Vive agora no exílio, em local não divulgado. O filme encerra sem catarse, apenas com deslocação e perda.

Nem tudo, porém, é irrepreensível. Algumas sequências parecem ligeiramente moldadas na montagem para reforçar a fluidez dramática. A banda sonora sublinha pontualmente a emoção de forma excessiva. Mais relevante é a polémica em torno da distinção entre conscrição obrigatória e mobilização para a guerra na Ucrânia. Certas aproximações em montagem, entre despedidas de jovens para o exército e referências a mortes no front, criam associações que podem não corresponder exactamente aos casos específicos retratados. Não compromete a tese central, mas introduz uma ambiguidade num filme que denuncia precisamente a manipulação narrativa.

Mr. Nobody contra Putin

Ainda assim, o essencial permanece. Mr. Nobody contra Putin não é apenas um documentário sobre a máquina de guerra russa. É um estudo sobre a transformação silenciosa de uma sala de aula em laboratório ideológico. É a demonstração de que segurar uma câmara pode constituir um acto político. E é, acima de tudo, um filme sobre o preço de não desviar o olhar.

Nota: 8/10

 Mr. Nobody contra Putin chega às salas de cinema a 5 de Março

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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