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Cinema: Crítica – Gritos 7

Gritos 7 tenta renovar a franquia de terror com Sidney Prescott, mas perde a identidade metalinguística que marcou a saga.

Gritos 7

Em múltiplas ocasiões, informei o leitor de que existiam textos que me eram difíceis de escrever, principalmente quando falo de franquias que sigo há anos e pelas quais nutro uma espécie de admiração/amor. Gritos é um desses casos, perfeitamente justificável pelo facto de ter sido a minha porta de entrada para o cinema de terror (que depois deixei completamente escancarada). Lembro-me perfeitamente do dia em que apanhei, por acaso, um DVD de Gritos 3 e, ao olhar para a capa, pensei: “Olha, é o boneco do Scary Movie”, que tinha visto uns meses antes. Convém dizer que, nessa altura, teria por volta de 9 ou 10 anos e que, mesmo sendo o filme mais “cartoon” da franquia, a verdade é que despertou o meu interesse. Isto levou, depois, a muitas pesquisas e visionamentos dos filmes anteriores, até culminar com a chegada de Gritos 4 aos cinemas, em 2011. A partir daí, não falhei nenhuma ida ao cinema com o lançamento de Gritos (2022) e Gritos 6. Portanto, preparem-se: esta crítica vai ser longa.

No entanto, estava um pouco receoso em relação a Gritos 7. As polémicas e o conturbado processo de desenvolvimento apontavam para que pudesse correr mal. Além disso, em Gritos (2022) e Gritos 6, senti uma mudança bastante agradável ao investirem em novas personagens, mesmo que as personagens-legado continuassem a fazer aparições (aliás, devo ser das poucas pessoas que gostava de ter visto mais da série de televisão, principalmente com base nas duas primeiras temporadas, pela forma como abordavam o conceito). Também gostei sempre bastante do trabalho da Radio Silence e parecia-me que a história estava a encaminhar-se para um lugar interessante e que, de certa forma, respeitava o legado criado por Wes Craven e Kevin Williamson. Com as mudanças de realizador e os despedimentos que ocorreram, fiquei apreensivo. Sei que Kevin Williamson já realizou um filme antes e… não foi propriamente bem recebido; mas, ao mesmo tempo, é o verdadeiro criador de Gritos. Isto levou a um pequeno impasse em relação ao que poderia vir por aí e, infelizmente, Gritos 7 não correu assim tão bem.

Em Gritos 7, voltamos a encontrar Sidney Prescott-Evans (Neve Campbell), que vive longe de Woodsboro, tendo encontrado o amor e constituído família em Pine Grove, no Indiana. Eis que o passado volta a encontrá-la e, de repente, novos assassinatos começam a acontecer à sua volta, tendo como principal alvo a sua filha adolescente, Tatum(Isabel May). Poderia falar aqui dos problemas de continuidade da série, mas a verdade é que conseguiram contornar bastante bem a existência das duas crianças em Gritos (2022). Se há algo de que gostei nesta linha narrativa foi o facto de Tatum ter a mesma idade que Sidney durante os acontecimentos do Gritos original, o que cria um efeito de espelho e momentos de protecção por parte de Sidney. Também senti que era um filme de passagem de testemunho, mas que, em parte, falhou por vários motivos, que detalharei mais à frente.

Gritos 7

No que toca às prestações das personagens, vou dividir esta análise em duas frentes: os regressos e os novatos. No campo dos regressados, além de Sidney, temos também o regresso de Gale(Courteney Cox), Chad (Mason Gooding) e Mindy(Jasmin Savoy Brown). Poderia ainda falar de Stu (Matthew Lillard), cuja aparição é sugerida pelos trailers, mas prefiro deixar essa personagem de fora, para que o leitor possa ter a sua própria reacção ao que acontece. Já falei de Sidney e, na minha visão, a personagem interpretada por Neve Campbell continua a ser a principal de toda a franquia, algo ainda mais evidente neste filme, até nas interacções com o restante elenco. Por outro lado, senti Gale, Chad e Mindy muito apagados. É particularmente gritante o quanto Mindy se torna uma sombra do que foi num passado recente. A personagem que servia de elo de ligação às referências e ao alívio cómico torna-se irrelevante nos momentos em que está presente.

Falando agora das novas personagens, o destaque deveria ser dado a Tatum Evans. Deveria, porque tentam torná-la a protagonista à força toda, mas nota-se que Isabel May não é, de todo, material para isso. Há momentos em que poderia ter explorado mais a sua faceta de nova Scream Queen, mas falha redondamente, ao ponto de parecer que lhe falta voz. Para completar a família Evans, temos Mark, interpretado por Joel McHale (uma tentativa de manter a continuidade, mesmo não sendo exactamente a mesma personagem de Gritos 3), que se torna praticamente irrelevante ao longo da trama. E aqui reside um dos maiores problemas do filme, todo o elenco que não seja composto pelas duas personagens principais é, na sua maioria, irrelevante. Temos os óbvios red herrings em Lucas(Asa Germann) e Ben (Sam Rechner), sendo este último quase um Billy Loomis da era moderna, e temos o grupo de amigos, autêntica carne para canhão, composto por Hannah (Mckenna Grace) e Chloe (Celeste O’Connor). Aliás, senti quase como criminoso o pouco tempo de ecrã dado a Hannah, que poderia ter sido uma personagem interessante de desenvolver. Para completar, temos Jessica (Anna Camp), mãe de Lucas, vizinha dos Evans e a nova grande amiga de Sidney.

Sinto também necessidade de falar do Ghostface (que, felizmente, continua com a voz irónica de Roger L. Jackson) como entidade. Sempre foi uma personagem que se movia relativamente bem, com as suas trapalhadas pelo caminho. Mas transformá-lo quase numa espécie de herói de acção é um erro cometido neste filme. Gera alguns momentos de tensão, mas, ao mesmo tempo, torna o filme algo irrealista, quando a ideia original passava por ser algo que poderia acontecer a qualquer um. Parece que se perdeu a mística da personagem. Ainda assim, foi interessante vê-lo em campo aberto, algo que não acontece com tanta regularidade, já que normalmente fica confinado a espaços mais fechados.

Gostaria também de referir que, apesar de este filme se chamar Gritos 7, parece ter perdido a sua identidade. Quando Williamson escreveu o original (e as sequelas), apostou fortemente na metalinguagem, algo que aqui praticamente desaparece. De filmes recheados de referências a outras obras (curiosamente, há uma referência a Halloween, que parece impossível de evitar quando se fala do género, bem como a O Monte dos Vendavais) e de comentário ao mundo actual, passamos para um slasher convencional. Existem pequenos momentos em que se sente o meta-comentário, mas não o suficiente para que a temática vá ao encontro daquilo que se espera de uma franquia que sempre viveu disso.

Resta concluir que, infelizmente, Gritos 7 fica aquém das expectativas. Tenta passar o testemunho a uma nova personagem que, para o bem e para o mal, não tem o mesmo potencial daquela que pretende substituir. Ao mesmo tempo que sabe a Gritos e se comporta como um Gritos, falha no essencial, ser verdadeiramente um Gritos.

Nota: 5/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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