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Análise Manga – Kingdom Hearts III nº1

Kingdom Hearts III nº 1 mergulha no Olimpo, no caos da lore, na desorientação Disney e explica porque este volume é claramente para fãs.

Kingdom Hearts III

Há duas verdades inegáveis neste mundo: o céu é (quase sempre) azul e explicar a lore de Kingdom Hearts é uma tarefa quase impossível. Digo isto como alguém que discute consigo próprio, um fã de longa data que passou anos a tentar (e a falhar) desembaraçar corações, memórias, viagens no tempo e chaves em forma de espada. Com isto em mente, abordar o mangá de Kingdom Hearts III é um pouco como entrar num trabalho que sabemos, à partida, que vai ser confuso, mas uma confusão familiar.

Foi por isso que fiquei genuinamente surpreendido quando a D.Q. Comics decidiu trazer Kingdom Hearts III (originalmente Kingdom Hearts III + I) para Portugal. As adaptações anteriores em mangá desta franquia nunca cá chegaram, o que faz deste lançamento, simultaneamente, um risco e uma afirmação. Não é apenas mais um livro licenciado na prateleira, é um gesto em direcção a um fandom que, historicamente, teve de importar ou improvisar. Mérito onde é devido.

Ainda assim, convém deixar algo bem claro desde cedo: se aterrares neste mangá sem qualquer conhecimento prévio de Kingdom Hearts, vais ficar perdido. Não confuso, perdido. Isto não é um manual de iniciação. Não é “Kingdom Hearts para principiantes”. É uma aventura pensada para fãs e para quem, no mínimo, já sabe quão estranho e interligado este universo é. O mangá até tenta ajudar, simplificando alguns dos conceitos mais convolutos, mas há um limite para a contenção de danos quando a base inclui guerras ancestrais de Keyblades e profecias escritas em livros misteriosos.

Kingdom Hearts III

E não, a presença de personagens da Disney não torna isto automaticamente acessível. Não te deixes enganar pelo Donald e o Pateta a acompanhar a aventura, nem por rostos familiares como a Maléfica ou o Yen Sid, saídos directamente de Fantasia. Isto não é um passeio alegre da Disney com um toque de anime. Continua a ser Kingdom Hearts, com toda a sua carga emocional, terminologia própria e drama herdado.

Cronologicamente, o mangá abre quase plano a plano com a introdução cinematográfica do jogo: o jovem Xehanort e o jovem Eraqus a discutirem a antiga Guerra das Keyblades. É uma escolha ousada, porque define imediatamente o tom. Sem aquecimento. Sem preparação. Apenas lore, directa para a corrente sanguínea. A partir daí, encontramos o Sora, que foi privado da sua força e enviado pelo Mestre Yen Sid para o Coliseu do Olimpo, com o objectivo de perguntar a Hércules como recuperar os seus poderes perdidos, nomeadamente, o elusivo “poder do despertar”.

Isso estabelece o objectivo principal, mas há uma tarefa secundária a pairar em segundo plano, encontrar três portadores de Keyblade desaparecidos. E tudo isto se desenrola inteiramente no Olimpo, nas proximidades de Tebas. Se estás à espera de visitar a Toy Box ou o Reino de Corona, vais ter de aguardar. O primeiro volume está totalmente comprometido com o território de Hércules, para o bem e para o mal.

Do lado dos antagonistas, Hades rouba completamente a cena. Está a causar o caos em Tebas, a libertar Titãs e desastres elementares, e a ser, no geral, o seu sarcasmo glorioso de sempre. A Maléfica e o Pete também andam por perto, à procura do Livro das Profecias, enquanto o Xigbar surge e desaparece, a monitorizar acontecimentos e a largar comentários enigmáticos. E, por cima de tudo, como um executivo corporativo que nunca aparece nas reuniões mas controla tudo, o Mestre Xehanort permanece como a ameaça omnipresente.

Kingdom Hearts III

Um dos maiores pontos fortes do mangá está na forma como adapta a narrativa do jogo. A lore, famosa por ser confusa, é condensada em segmentos mais digeríveis. Termos como Heartless ou conceitos ligados aos Mestres antigos são simplificados o suficiente para fazerem sentido sem perderem completamente a profundidade. Continua complexo, mas é gerível.

Visualmente, trata-se de uma criatura completamente diferente. A arte de Shiro Amano afasta-se dos modelos 3D polidos do jogo e segue um registo mais suave e delicado. As personagens são mais esguias, mais “olhos brilhantes” e inegavelmente mais fofas. As expressões faciais são um dos grandes destaques. As reacções do Sora acrescentam camadas de personalidade.

Kingdom Hearts III

As cenas de acção, no entanto, são confusas. A coreografia é difícil de acompanhar e os balões de texto demasiado grandes acabam por dominar a página, matando o ritmo. O ritmo narrativo, aliás, também é problemático. Oito capítulos passam e, para além do arco do Olimpo, pouco de realmente significativo acontece. Terminar o volume antes de a verdadeira jornada começar sabe a pouco.

Em termos de tom, o mangá está cheio de piadas, humor aleatório e referências profundas para fãs. A quarta parede é beliscada mais do que uma vez. O Sora, que supostamente é mais maduro em Kingdom Hearts III, parece estranhamente infantilizado aqui, até em expressões como “Ya”. É encantador ao início, mas depois torna-se questionável.

Kingdom Hearts III

No fim de contas, esta não é a melhor representação da saga Kingdom Hearts, mas é um complemento divertido e leve. Para aqueles que conhecem a história, é uma revisitação fresca. Para novos leitores, é acessível, mas incompleta.

Nota: 7/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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