Análise Manga: Given Volume 2
Given Volume 2 termina o primeiro arco com um concerto emocionalmente arrebatador, onde música, luto e amor colidem, transformando uma banda hesitante em algo inesquecível.
Há um momento em Given Volume 2 em que tudo deixa de ser teórico. Os sentimentos já não são apenas sugeridos, a música deixa de ser ruído de sala de ensaio, e a dor deixa de ser algo que Mafuyu consegue evitar. Este é o volume em que Given deixa de aquecer e finalmente sobe ao palco, emocional e literalmente. Para os aficionados de manga, este é o verdadeiro ponto de viragem. O Volume 1 apresentou os intervenientes e afinou os instrumentos. O Volume 2 carrega no botão de gravação.
Grande parte do Volume 2 é construída em torno da aproximação do primeiro concerto da banda. Esse horizonte cria uma mudança clara no tom da história. Onde antes havia curiosidade e descoberta, surge agora pressão. Natsuki Kizu demonstra uma compreensão muito precisa de como os processos criativos funcionam sob prazos reais, para algumas pessoas, a urgência gera foco, para outras, provoca bloqueio.
Essa diferença manifesta-se de forma subtil mas constante. O silêncio criativo de Mafuyu, em particular, ganha um peso quase físico. Não é apresentado como falta de vontade ou desleixo, mas como algo mais profundo e difícil de articular. O manga nunca força explicações fáceis, permitindo que o desconforto se acumule naturalmente ao longo dos capítulos.
Uenoyama, por sua vez, começa a mostrar fissuras numa personalidade até então relativamente controlada. A frustração, o cansaço e a sensação de responsabilidade mal distribuída levam-no a reagir de formas que nem sempre são justas, mas são profundamente humanas. Given recusa a romantização do processo criativo em grupo. Aqui, trabalhar em conjunto é difícil, desigual e, por vezes, ingrato.
Um dos maiores méritos deste volume é a forma como trata o conflito interpessoal. Não há vilões nem explosões melodramáticas artificiais. As tensões surgem de mal-entendidos, inseguranças e expectativas não verbalizadas, exactamente como acontece fora da ficção. As interacções entre os membros da banda são marcadas por silêncios, olhares e pequenas reacções que dizem mais do que longos diálogos explicativos. Este minimalismo narrativo exige atenção, mas recompensa o leitor com uma sensação de autenticidade rara.
Ao mesmo tempo, o volume começa a explorar com mais clareza a dimensão afectiva da história. Sem recorrer a grandes declarações ou revelações súbitas, Given constrói lentamente a consciência emocional de Uenoyama. O que começa como irritação e preocupação vai-se transformando em algo mais difícil de definir e, precisamente por isso, mais convincente.
Um elemento particularmente interessante do Volume 2 é a importância dada à interrupção. Em vez de insistir numa lógica de “mais esforço resolve tudo”, a narrativa reconhece que, por vezes, avançar implica parar. Esta abordagem distingue Given de muitas histórias centradas na música ou no trabalho criativo, onde o sacrifício constante é frequentemente glorificado.
As personagens mais velhas desempenham aqui um papel relevante, não como figuras autoritárias, mas como observadores atentos. Não oferecem soluções prontas nem discursos motivacionais vazios. Limitam-se a reconhecer o que está a acontecer e a criar espaço para que as emoções não ditas possam, eventualmente, emergir.
Sem entrar em detalhes específicos, é seguro dizer que o momento musical central deste volume redefine a série. Não porque seja tecnicamente perfeito ou espectacular no sentido tradicional, mas porque funciona como uma exposição emocional sem filtros.
A música, aqui, não serve para impressionar. Serve para comunicar algo que as palavras não conseguem conter. É nesse momento que Given deixa de ser apenas uma história sobre uma banda e se afirma como uma narrativa sobre luto, ligação humana e a dificuldade e necessidade de seguir em frente. A forma como a actuação é construída privilegia a tensão e a vulnerabilidade, evitando glorificar o espectáculo em detrimento do impacto emocional. O leitor não é convidado a admirar, é convidado a sentir.
O Volume 2 completa a introdução de Given como uma história, não apenas como um conceito. Com os volumes 1 e 2 em conjunto, os leitores obtêm o arco completo de origem da banda e das suas apostas emocionais.
A tradução merece elogios, preserva nuance, ritmo e peso emocional sem achatar os diálogos. As histórias curtas passadas no universo de Given acrescentam textura, recompensando os leitores mais atentos. A Midori fez um excelente trabalho em todos os aspectos, desde a apresentação ao cuidado editorial.
Resta concluir que Given Volume 2 é um volume contido, sensível e emocionalmente preciso, que confirma Given como uma obra que confia no silêncio tanto quanto no som, e no leitor tanto quanto nas suas personagens.
Nota: 9,5 / 10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





