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Análise BD: O Silêncio de Malka

O Silêncio de Malka é uma daquelas obras que nos atravessa o espírito devagar, como uma memória que se recusa a desaparecer.

Zentner e Pellejero, nomes já reconhecidos da BD europeia, unem-se aqui para contar uma história que é simultaneamente íntima e universal. O livro acompanha o périplo de José e da sua filha Malka, judeus em fuga dos pogroms da Europa de Leste no início do século XX. Atravessam a Argentina rural, longe do romantismo do tango e mais perto da poeira, da miséria e do preconceito.

O Silêncio de Malka

O título não engana: o silêncio está em tudo — nas palavras não ditas, nas perdas, na dor contida. Malka deixa de falar, e o que parece um gesto infantil torna-se símbolo de resistência, trauma e sobrevivência.

Zentner constrói uma narrativa em camadas, onde o tempo não é linear. Memórias, lendas e realidade misturam-se num tecido denso e pungente. É uma BD que exige atenção, mas recompensa com uma profundidade emocional rara. Não há grandes momentos de catarse nem viragens dramáticas — há, sim, uma melancolia constante que nos acompanha como uma sombra.

O guião não se impõe; deixa espaço à arte respirar e às personagens existirem no seu próprio tempo.

Rubén Pellejero — que mais tarde herdaria Corto Maltese — está aqui ao seu melhor nível. A paleta em tons ocres e sépia evoca um tempo gasto e poeirento, quase como se estivéssemos a folhear um álbum de fotografias antigas. As expressões são contidas, mas cheias de sentimento. O olhar de Malka, mesmo em silêncio, diz tudo.

Os enquadramentos são cinematográficos, e há um lirismo visual que quase torna as palavras dispensáveis. Mas é precisamente na harmonia entre texto e imagem que a obra ganha força.

O Silêncio de Malka

Esta não é apenas uma história de judeus em fuga — é um espelho da condição humana em contextos de exclusão. A Argentina dos imigrantes, longe do mito acolhedor, surge como um território hostil onde os “outros” são sempre suspeitos. Há racismo, pobreza, doença, mas também pequenos gestos de humanidade. A fé, o misticismo e a tradição judaica convivem com o pragmatismo da sobrevivência.

Malka, apesar do silêncio, é o coração da obra. Ela representa uma infância roubada, mas também a força que vem da recusa em esquecer — ou perdoar — o que não se deve perdoar.

O Silêncio de Malka é uma obra-prima discreta. Não grita, não se impõe — mas instala-se. É daqueles livros que ficam connosco dias depois de o fecharmos. Um exemplo do que a BD pode ser quando escrita com alma e desenhada com verdade.

A editora optou por um formato reduzido que tem sido muito criticado nas redes sociais, por não respeitar a dimensão original da arte de Pellejero — algo essencial para preservar o impacto visual da narrativa. Ora, se não fosse assim, muito provavelmente a obra não estaria disponível em português e a um preço tão acessível, por isso é importante pesar os dois lados da moeda.

A impressão é de alta qualidade, com bom contraste nos tons sépia e pastel, sem perda de definição nem saturação exagerada — algo crítico numa obra que vive da delicadeza cromática e do detalhe atmosférico.

O papel tem uma gramagem agradável, nem demasiado brilhante, nem fosco ao ponto de roubar vida às cores, e a encadernação é firme, ideal para resistir às leituras sucessivas que este livro inevitavelmente convida.

O Silêncio de Malka

Quanto à tradução, está bem conseguida: fluente, respeitosa do tom original e sensível aos contextos culturais e históricos. A voz das personagens mantém-se crível e natural, sem soar artificial ou excessivamente adaptada. A tradução preserva expressões ligadas ao universo judeu e, quando opta por manter termos específicos em iídiche ou hebraico, fá-lo com naturalidade, sem didatismo forçado.

A Devir entrega uma edição sólida, respeitosa e com bom acabamento. Não inventa, não compromete — aposta na qualidade clássica, o que, neste caso, é a decisão mais acertada. Para colecionadores e novos leitores, esta é uma oportunidade imperdível de ter uma das grandes obras da BD europeia em português.

Muito recomendável.


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O Silêncio de Malka

 

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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