Análise BD: O Preço da Desonra: Crónicas de Kubidai
O Preço da Desonra: Crónicas de Kubidai é a continuação de uma obra clássica de Hiroshi Hirata, mestre do gekigá, o mangá de tom adulto, realista e dramático, centrado na narrativa histórica e psicológica, muito distante das fórmulas shōnen mais populares. Esta série reúne quatro novas histórias sobre o cobrador de dívidas Hanshiro, uma personagem que encarna simultaneamente o caminho do guerreiro e os paradoxos éticos do bushidō: honra, medo, sobrevivência e a mercantilização da vida em tempos de guerra.
Ao contrário de muitas narrativas de samurais que exaltam o combate, a glória e o heroísmo, Hirata opta por um olhar cru sobre a fragilidade humana em contexto de conflito. As histórias de Hanshiro não glorificam o combate; antes exploram o medo da morte, a ambiguidade moral e o preço — literal e simbólico — pago por escolhas que se afastam do ideal de uma morte digna.
Este segundo volume não exige a leitura do primeiro para que as histórias sejam compreendidas, uma vez que cada crónica funciona de forma quase autónoma, tendo Hanshiro como fio condutor. Ainda assim, o impacto emocional é mais profundo quando o leitor conhece a construção da personagem ao longo da obra original.
A escrita visual e narrativa de Hirata segue um ritmo deliberado. Não há aceleração nem espetáculo fácil, mas sim profundidade. A arte é realista e seca, com grande atenção ao gesto, à expressão e ao peso de cada cena — uma abordagem que evoca mais o cinema de Akira Kurosawa do que o mangá tradicional. Este é um convite à reflexão silenciosa, mais do que à excitação estética, e um traço essencial do gekigá que Hirata ajudou a definir.
Hirata não é um autor de ação superficial. A violência surge sempre como algo alienante e pesado, profundamente marcada pelo contexto social. A obra não segue a cadência dos mangás shōnen nem de muitos seinen: não existem sistemas de poderes, arcos longos cheios de cliffhangers ou fanservice. O leitor é confrontado com a humanidade — e muitas vezes a miséria — das personagens. Em termos comparativos, a abordagem sóbria e histórica de Hirata coloca-o ao lado de nomes como Goseki Kojima (Lobo Solitário) ou Sanpei Shirato (Kamui-Den) no panteão do mangá adulto de qualidade, com uma ênfase ainda mais filosófica na honra e na vergonha.
Hirata escolhe deliberadamente um protagonista marginal. Hanshiro não é um grande general, nem um samurai lendário, nem um herói trágico em busca de redenção. É um homem que vive dos resíduos da guerra, do que sobra quando a batalha termina. Onde outros veem honra, ele vê sobrevivência. Onde o bushidō fala em glória, ele fala em pagamento. Cada história coloca Hanshiro em contacto com personagens diferentes — samurais caídos em desgraça, camponeses apanhados no meio do conflito, guerreiros que falharam no momento decisivo — e em todas existe uma constante: ninguém sai moralmente limpo.
Um dos grandes méritos da obra é a forma como desromantiza completamente o Japão feudal. As batalhas raramente são gloriosas e a morte é rápida, suja e, muitas vezes, absurda. A honra surge mais como um peso social do que como um valor espiritual. Hirata insiste em mostrar que o ideal samurai é frequentemente uma narrativa construída depois dos factos, não algo vivido de forma pura no terreno. Muitas personagens agarram-se à honra porque já perderam tudo o resto. Hanshiro, como observador e participante, funciona como um espelho incómodo: não julga, mas também não absolve. Cobra. Vai-se embora.
Narrativamente, Crónicas de Kubidai é um livro lento, mas nunca arrastado. Hirata domina o silêncio. Apesar do volume considerável, a leitura flui através de quadros longos, personagens imóveis, olhares que dizem mais do que o diálogo e momentos em que a ação já ocorreu e o leitor observa apenas as consequências.
A leitura exige atenção. Não é um mangá para “folhear”. Há páginas onde quase nada acontece em termos de ação, mas emocionalmente a cena é densa. O leitor é forçado a parar, observar e interpretar. É uma obra que beneficia claramente de uma releitura.
Visualmente, o traço é áspero, realista e sem concessões. Não existe estilização para embelezar a violência. As expressões são cansadas, envelhecidas, marcadas pela fome, pelo medo e pela frustração. Este é um Japão feudal vivido, não idealizado.
O título não é metafórico por acaso. Cada história coloca questões incómodas: quanto vale uma vida depois de tudo estar perdido? O que acontece quando sobreviver entra em conflito com o código moral? Quem define a honra — o indivíduo ou a sociedade? As respostas nunca são confortáveis. Alguns escolhem morrer “com honra”, outros viver “com vergonha”. A obra recusa-se a decidir por nós, e essa ambiguidade é o seu verdadeiro núcleo.
O Preço da Desonra: Crónicas de Kubidai não é apenas mais um mangá de samurais. É uma obra que cruza história, ética e a crueza da experiência humana, com uma estética que respeita plenamente a inteligência do leitor. A edição da A Seita faz justiça ao valor cultural do trabalho de Hirata, funcionando como uma porta de entrada sólida para o gekigá, muito além dos cânones mais populares.
Para quem procura uma leitura que desafie a visão romântica da honra samurai e obrigue a refletir sobre moralidade em tempos de conflito, esta é uma obra essencial, já com estatuto de clássico moderno. As apostas editoriais da A Seita têm sido consistentes e acertadas e, se o primeiro volume teve boa receção, este segundo merece igual reconhecimento.

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.




