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Análise BD: Murena Vol. 13 – As Neronia

Falar de Murena vol 13, publicado pela Edições ASA, implica entrar num território onde a maturidade narrativa da série atinge um ponto particularmente interessante. Não apenas porque prolonga o legado construído por Jean Dufaux, mas também porque confirma a consolidação gráfica de Theo Caneschi após a era marcante de Philippe Delaby. Sabíamos que o artista que viesse substituir Delaby não iria ter tarefa fácil. Jérémy esteve também excelente  mas não há amor como o primeiro como se costuma dizer.

O argumento mantém-se fiel àquilo que sempre definiu Murena: uma tragédia política encenada com o peso da inevitabilidade. Dufaux continua a privilegiar uma escrita onde os diálogos têm uma carga quase teatral, muitas vezes mais sugestiva do que explícita. Há uma contenção deliberada na forma como a intriga avança, recusando o ritmo frenético em favor de uma construção densa, onde cada gesto e cada silêncio carregam significado.

Esta abordagem pode afastar leitores mais impacientes, mas recompensa quem procura profundidade psicológica. As personagens não são meros veículos da narrativa histórica, são antes extensões de uma reflexão sobre poder, decadência e fatalidade, temas que a série tem explorado desde os primeiros volumes.

Murena 13 – As Neronia

No entanto, é precisamente neste volume que se sente uma ligeira mudança de cadência. O argumento parece menos preocupado em surpreender e mais interessado em consolidar o estado emocional das personagens. Há uma sensação de transição, quase como se estivéssemos perante um capítulo de respiração antes de novos acontecimentos mais explosivos. Isto não é necessariamente um defeito, mas pode ser interpretado como uma perda momentânea de tensão dramática.

No volume 13 de Murena, a narrativa afasta-se deliberadamente do espetáculo imediato para mergulhar num território mais introspectivo e político, onde os acontecimentos são menos explosivos à superfície, mas carregados de implicações profundas para o destino das personagens. 

A história decorre num momento em que o poder de Nero já não é apenas uma ameaça latente, mas uma presença opressiva e imprevisível. Vemos um imperador cada vez mais enclausurado na sua própria visão do mundo, dominado por impulsos contraditórios entre a necessidade de afirmação divina e a fragilidade emocional. Nero não é retratado apenas como tirano, mas como uma figura trágica, alguém que se perde progressivamente na ilusão de controle absoluto. As suas decisões tornam-se menos racionais e mais performativas, como se governar fosse um palco onde precisa constantemente de reafirmar o seu papel.

Murena 13 – As Neronia

Já Lucius Murena assume uma posição cada vez mais delicada. Neste volume, ele não é tanto um agente de ação direta, mas um observador forçado de um sistema que se degrada à sua volta. A sua narrativa é marcada por tensão interna, pela dificuldade em agir num ambiente onde qualquer movimento pode significar a morte.

Murena começa a perceber que a sobrevivência em Roma não depende apenas de lealdade ou coragem, mas de uma capacidade quase cirúrgica de navegar intrigas e silêncios. Esta consciência traz-lhe um peso psicológico evidente, tornando-o mais cauteloso, mas também mais distante. Ora numa série com o nome  do personagem principal e onde este começa a desaparecer em demasia, algo está mal, a meu ver. Por isso confesso ter ficado um pouco desiludido com este tomo.

No entanto, uma das forças deste volume está precisamente na forma como as relações entre personagens evoluem. As alianças deixam de ser estáveis e passam a ser circunstanciais. Personagens secundárias ganham relevância ao funcionarem como peças num jogo político maior, onde a confiança é constantemente posta em causa. Há uma sensação de paranóia crescente, em que cada diálogo pode esconder uma ameaça e cada gesto pode ser interpretado como traição.

Os acontecimentos em si não se estruturam em torno de um único grande clímax, mas sim de uma sucessão de momentos que aumentam a pressão dramática. Conspirações insinuam-se mais do que se revelam, decisões são tomadas nos bastidores, e o leitor é convidado a ler nas entrelinhas. Esta abordagem torna a narrativa mais densa, exigindo atenção aos detalhes e às motivações subtis das personagens.

Murena 13 – As Neronia

Outro ponto relevante é a forma como o ambiente de Roma influencia diretamente os acontecimentos. A cidade não é apenas cenário, mas um organismo vivo que amplifica tensões. A decadência moral do império reflete-se nas ações das personagens, criando um paralelismo constante entre o espaço físico e o estado psicológico de quem o habita. 

No fundo, este volume funciona como uma peça de transição narrativa. Não oferece resoluções claras, mas prepara o terreno para desenvolvimentos futuros mais dramáticos. O foco está menos no “o que acontece” e mais no “como e porquê acontece”, privilegiando a construção de um clima de instabilidade e inevitabilidade.

É uma abordagem que pode parecer contida à primeira vista, mas que reforça a essência de Murena: uma tragédia construída lentamente, onde cada escolha aproxima as personagens de um destino do qual dificilmente escaparão. No entanto, se formos buscar comparações com volumes anteriores como, ” O melhor da mães”, “Os que vão morrer” ou “A deusa negra”  este volume 13 não entra nem no top 5. Claro que é um ciclo diferente, muitas mudanças , mantém a essência, mas esperava mais e melhor de Dufaux.

Do ponto de vista gráfico, Caneschi revela-se cada vez mais seguro. Se nos volumes iniciais da sua entrada na série havia um inevitável exercício de aproximação ao traço de Delaby, aqui já se percebe uma identidade mais própria. A linha é elegante, com uma preocupação evidente na reconstituição histórica, mas também mais fluida, menos rígida. As figuras ganham uma expressividade subtil, especialmente nos olhares e nas posturas corporais, que reforça o subtexto emocional da narrativa.

A composição das pranchas merece destaque. Há um equilíbrio muito bem conseguido entre vinhetas mais contemplativas e momentos de maior intensidade visual. Caneschi evita o excesso de espetacularidade gratuita e prefere construir impacto através da mise-en-scène, recorrendo frequentemente a enquadramentos que isolam as personagens no espaço, sublinhando a sua solidão ou fragilidade.

A Roma apresentada continua opulenta, mas nunca romantizada em excesso; há sempre uma sombra de decadência a pairar sobre os cenários. A cor desempenha um papel fundamental nesta atmosfera. A paleta tende para tons quentes e terrosos, reforçando a sensação de um império em combustão lenta.

As variações de luz são utilizadas com inteligência para acentuar o dramatismo das cenas, especialmente nos interiores, onde o jogo de sombras contribui para uma sensação quase claustrofóbica. Deitando cá para fora todos estes elogios, porque os merece, tenho também que dizer mais uma vez que Delaby foi o melhor, e isto também se sente na série. A opulência de Roma e dos personagens tem vindo a diminuir, não por falta de qualidade, porque os desenhadores continuam a ser incríveis, mas é uma questão de gosto pessoal.  

Enquanto objeto editorial, a edição da ASA mantém o padrão de qualidade habitual, com um formato que valoriza a arte e respeita a tradição franco-belga do álbum de capa dura. Este cuidado é importante numa obra onde o desenho tem um peso narrativo tão significativo. E não posso evitar o meu agradecimento à ASA por finalmente, após tantos anos, ter revitalizado esta série e voltar  novamente a editar Murena.

Em síntese, Murena 13 As Neronia não é um volume de grandes rupturas, mas sim de consolidação. Pode não ter o impacto imediato de outros momentos da série, mas revela uma maturidade consistente tanto no argumento como na arte. Eu no entanto espero mais de Dufaux porque sei que consegue fazer melhor. Este é  um capítulo que se lê mais pelo que sugere do que pelo que mostra, e é precisamente nessa subtileza que reside o seu maior valor, mas…

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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