Dylan Dog: Memórias do Invisível é um belo regresso à coleção Aleph | Crítica
As histórias de Dylan Dog marcam amiúde pela esfera do melancólico, alternadas por experiências aterradoras que cruzam o campo da investigação policial com o reino do paranormal. Todavia, continua a ser difícil ignorar o poder do dramatismo e da melancolia que pesam no argumento de histórias como a de Memórias do Invisível.
A força da memória que resulta de um conjunto de eventos perturbadores e traumatizantes acompanha uma personagem insólita que é tida por ela própria como um Homem Invisível, assumido como narrador: Trata-se de um entre tantos, homens que dão corpo a incógnitas ou sujeitos absolutamente estranhos que fazem parte de uma realidade mais dura, sobretudo a que acompanha as vidas frágeis de mulheres ligadas ao mundo da prostituição.

A invisibilidade é um registo do que nós e a nossa sociedade por demasiadas vezes prefere não ver, nem reconhecer. É dentro deste contexto que surgem personalidades sombrias, solitárias, estranhas, senão excêntricas, tão vulneráveis quanto perigosas que representam um risco tanto para si mesmo como para os outros. A marginalidade social substancia ou dá forma a pessoas invisíveis que estão sempre a meio caminho de se cruzar com casos de violência ignorados pela maioria, sejam vítimas ou agressoras no obscuro mundo da noite (e não só). Em Dylan Dog: Memórias do Invisível, não será por acaso que o título funcione com um sentido duplo, muito mais para lá do que mera analogia ao poder da invisibilidade — Até que ponto esta se pode tornar real e obedece a critérios do sobrenatural?
Dylan Dog é contratado por Bree Daniels, uma prostituta, para investigar uma série de assassinatos que tem como vítimas mulheres da sua profissão. O responsável é um misterioso assassino em série que ninguém pode reconhecer, com traços comuns aos dos típicos «Homens Invisíveis» cujos atos ninguém é capaz de prever, embora se antecipe que não tenham fim: Acabará sempre por surgir um novo assassino e novos possíveis sujeitos, inspirados pelos seus antecessores e não só, sabendo-se bem como uma mente perturbada, que opera dentro da dimensão oculta dos renegados, atacará mais depressa quem mais está vulnerável dentro do seu próprio meio, simultaneamente tão perto e tão distante do olhar público.

Os paralelismos desta história — que, evidentemente, tem como cenário os antros mais degradados ou decadentes da cidade de Londres — com os do famoso caso de Jack o Estripador são evidentes e tal não é por acaso. Os problemas sociais e a exposição da fragilidade da mente humana perante casos tão brutais quanto insólitos oferecem um plano seguro para uma típica história de Dylan Dog, que absorve muitos dos enredos de histórias de detetives com que muitos leitores já se familiarizaram. Levando-nos a refletir sobre o que é percetível em termos de real ou imaginário, a crueza da realidade de Memórias do Invisível atraiu a atenção de críticos já em 1988, quando foi publicada pela primeira vez pela Sergio Bonelli Editore. Problemas em torno de identidade, desprezo e aceitação resultam num quadro complexo digno de absorver quem debate um problema autêntico de justiça: Como NÃO antecipar semelhantes casos?
Tiziano Sclavi escreveu o que pode ser entendido como uma referência dentro das histórias obrigatórias de Dylan Dog. O desenho de Giampiero Casertano pertence à tradição gráfica da série clássica, em que o preto e branco tem um papel importante na construção da atmosfera marcada por um dado dramatismo, episódios de violência e melancolia. A expressividade dos rostos, os ambientes urbanos e o contraste entre luz e sombra são elementos particularmente adequados a uma narrativa policial de terror, aqui reconhecido por um desenho limpo e claro.
Publicado por A Seita, fazendo parte da coleção Aleph, o álbum é de capa dura e conta com mais de 110 páginas. Através da coordenação de José Hartvig de Freitas, Memórias do Invisível contou com a tradução para português por parte de Mário João Marques, o grafismo e a legendagem de Hugo Jesus e a revisão de Andreia Lopes e Manuel Xavier. Apesar de ser uma história publicada originalmente em 1998, tratando-se do número #19, revê-la e recuperá-la para o público português faz todo o sentido dentro da comemoração dos 40 anos das BD’s de Dylan Dog, uma vez que o próprio editor da Sergio Bonelli assegurou que, quando surgia um novo autor que pretendia escrever sobre a personagem principal da série, o guião de Memórias do Invisível era-lhe entregue em mão o guião como «exemplo do espírito ideal da série.»okk

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural
