Central Comics

Notícias, críticas e novidades de banda desenhada, cinema, séries, animação, videojogos e cultura geek desde 2001.

Análise BD: Spielberg , de Amazing Améziane

Descubra Spielberg, a biografia em banda desenhada de Amazing Améziane que celebra o legado do mestre do cinema.

Há autores que contam vidas. E há autores que conseguem transformar uma biografia numa experiência visual. Amazing Améziane pertence claramente ao segundo grupo. Depois de Quentin por Tarantino, regressa ao universo do cinema para prestar homenagem a um dos realizadores mais influentes de sempre: Steven Spielberg.

A obra é narrada na primeira pessoa, como se fosse o próprio cineasta a conduzir-nos pela sua vida, desde a infância até ao estatuto de lenda viva de Hollywood.

O grande mérito desta banda desenhada está precisamente na forma como evita o formato de simples cronologia ilustrada. Améziane constrói uma narrativa dinâmica, onde episódios biográficos se cruzam constantemente com cenas dos filmes, bastidores de produção e momentos decisivos da carreira de Spielberg. O leitor não acompanha apenas a ascensão de um realizador; acompanha a evolução de um homem cuja imaginação redefiniu o conceito de cinema de entretenimento.

Graficamente, Améziane continua fiel ao estilo expressivo que já demonstrou noutras obras. O desenho privilegia a energia e o movimento em detrimento do realismo fotográfico. Há páginas que parecem storyboards cinematográficos, com enquadramentos largos, mudanças de ritmo e uma montagem visual que reproduz a linguagem do próprio Spielberg. Não é um desenho detalhista ao estilo franco-belga clássico; procura transmitir emoção e dinamismo.

A cor desempenha igualmente um papel importante. A paleta adapta-se ao estado emocional dos acontecimentos e presta discretas homenagens à identidade visual de filmes como Jaws, E.T., Indiana Jones, Jurassic Park ou Schindler’s List. O resultado é uma leitura fluida, quase cinematográfica, em que cada sequência parece pedir para ganhar movimento.

Spielberg

No plano narrativo, o álbum destaca os sucessos inevitáveis, mas também os momentos menos gloriosos: as inseguranças do jovem Spielberg, as dificuldades em afirmar-se na indústria e a enorme pressão que acompanhou cada novo projeto. Isso impede que a obra se transforme numa simples celebração acrítica, oferecendo antes um retrato humano de alguém frequentemente visto como um mito.

Naturalmente, as cerca de 200 páginas obrigam a algumas escolhas. Certos filmes e períodos da carreira recebem menos atenção do que muitos leitores gostariam, sobretudo quem conhece profundamente a filmografia do realizador. Algumas transições entre épocas são rápidas, privilegiando o ritmo em vez do aprofundamento. Ainda assim, dificilmente seria possível condensar mais de cinco décadas de carreira sem recorrer a alguma síntese.

Mais do que uma biografia em banda desenhada, Spielberg funciona como uma declaração de amor ao cinema. É uma obra que tanto poderá despertar curiosidade em quem conhece pouco o realizador como provocar um sorriso cúmplice nos admiradores de longa data, graças às inúmeras referências espalhadas pelas páginas.

Amazing Améziane confirma que encontrou uma fórmula muito própria para contar a história das grandes figuras do cinema. Spielberg não é apenas uma biografia ilustrada; é uma narrativa visual que procura reproduzir o encanto, a aventura e a emoção que sempre caracterizaram os filmes do seu protagonista. Uma leitura recomendada para fãs de banda desenhada, de cinema e, sobretudo, para todos aqueles que cresceram a sonhar diante do ecrã graças aos filmes de Steven Spielberg.

Aproveitem para ler ou reler a minha análise aqui no site de Quentin por Tarantino do mesmo autor e editora. 

Boas leituras

https://www.instagram.com/reels/DYxMb0jI6KA/

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Verified by MonsterInsights