Central Comics

Banda Desenhada, Cinema, Animação, TV, Videojogos

Pragmata – A Capcom soma e segue

Pragmata é o jogo da Capcom que ninguém esperava precisar tanto: ficção científica, uma ligação emocional ao estilo da Pixar e um estilo de combate criativo.

Pragmata

Jogo: Pragmata
Disponível para: PC, PlayStation 5, Nintendo Switch 2, Xbox Series
Versão testada: PlayStation 5
Desenvolvedora: Capcom
Editora: Capcom

Pragmata

Depois de anos de curiosidade, silêncio e alguma desconfiança, a Capcom entrega finalmente Pragmata, uma experiência single player que sabe exactamente o que quer ser, e isso nota se em cada sistema, em cada corredor da estação Cradle, em cada momento partilhado entre Hugh e Diana. Num mercado saturado de fórmulas recicladas, passes de temporada e design construído para retenção artificial, Pragmata surge como um objecto estranho, elegante e refrescante.

A premissa é imediatamente intrigante. Numa base lunar devastada por uma inteligência artificial fora de controlo, Hugh, um marine espacial com perfil de técnico improvisado e herói por acidente, encontra Diana, uma criança andróide com capacidades de hacking absurdamente avançadas e uma curiosidade genuína pelo mundo humano. A partir daqui, o jogo podia cair na armadilha emocional fácil, naquela fórmula cansada do protector traumatizado e da criança silenciosa que serve de redenção moral. Não cai. Felizmente, não cai.

Pragmata

A química entre Hugh e Diana é o verdadeiro motor narrativo. Há calor, há humor, há leveza. Há pequenas interacções que parecem simples, um high five depois de um combate intenso, um diálogo sobre um brinquedo holográfico da Terra, uma troca de sarcasmo no timing certo, mas que acabam por construir algo raro, uma relação que soa sincera. É escrita com mão firme e com um coração muito humano, ironicamente no centro de um jogo que critica precisamente a ausência de humanidade na criação artificial.

Em termos de jogabilidade, Pragmata também recusa jogar pelo seguro. O seu core loop vive de multitasking constante. Controlamos Hugh num shooter em terceira pessoa sólido, com recoil convincente, boa leitura espacial e encounters desenhados com inteligência, enquanto Diana actua em simultâneo através de um sistema de hacking em tempo real. Não é um gimmick, é mecânica nuclear. Para derrubar inimigos blindados, é preciso abrir vulnerabilidades, sabotar defesas ou manipular o comportamento hostil, tudo através de minijogos rápidos, tácteis e surpreendentemente tensos. No papel parece caótico. Nas mãos certas, é brilhante.

Existe uma curva de aprendizagem real, sobretudo nas primeiras horas, quando o cérebro ainda tenta separar tiro, movimentação, gestão de cooldowns e input sequences do hacking. Depois faz clique. Quando faz clique, Pragmata entra numa zona especial, quase zen, onde tudo flui. Congelar um inimigo com a Stasis Net, abrir caminho no grid de Diana com uma Sticky Bomb, activar um choque eléctrico em área e terminar com uma shotgun blast no weak point exposto, isto sabe incrivelmente bem.

Pragmata

Nem tudo é perfeito. Há momentos em que o hacking quebra o ritmo, especialmente em combates mais longos, onde a repetição de certos padrões se torna evidente. Alguns boss fights também abusam de hazards visuais, com lasers, gravidade zero e partículas a encher o ecrã, criando ruído visual que prejudica a legibilidade táctica. Não arruína a experiência, mas há excesso pontual de informação.

A estrutura também merece elogio. Embora exista uma espinha dorsal linear, há ADN de Metroidvania bem implementado, com backtracking inteligente, desbloqueio de novas ferramentas e atalhos que fazem da Cradle um espaço cada vez mais familiar. O Shelter funciona como hub mecânico e emocional, um sítio para respirar, melhorar armas, investir recursos e aprofundar a ligação entre as personagens. É design clássico, refinado por sensibilidades modernas.

Visualmente, Pragmata tem identidade própria. O seu NASA punk mistura tecnologia retrofuturista com aberrações arquitectónicas criadas por IA, cidades terrestres reconstruídas sem alma, vazias, estranhas, quase grotescas. A direcção artística vende o tema sem precisar de o explicar demasiado. O subtexto está lá, claro, uma crítica directa à criação artificial sem toque humano, sem suor, sem imperfeição, sem vida. Uma cópia fria será sempre apenas isso, uma cópia fria. E talvez seja por isso que Pragmata funciona tão bem. Porque parece feito por pessoas com visão, com intenção, com personalidade. Parece artesanal, mesmo quando fala sobre máquinas.

Pragmata

Resta concluir que, num ano cheio de blockbusters, Pragmata é aquela surpresa rara que fica na cabeça depois dos créditos finais. Não por ser gigantesco, nem por reinventar tudo, mas porque junta ideias fortes, execução sólida e um coração enorme. Isso vale muito, mesmo muito.

Nota: 9/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Verified by MonsterInsights