CinemaCon: as novidades da reunião de 2026
Desde 2011, a CinemaCon afirmou-se como o maior ponto de encontro mundial da indústria de exibição cinematográfica, reunindo profissionais de mais de 80 países numa espécie de cimeira anual onde se decide, em grande medida, o futuro da experiência em sala. Organizada pela Cinema United, com o apoio de entidades como a International Cinema Technology Association e a National Association of Concessionaires, a convenção decorre no Caesars Palace, em Las Vegas, transformando-se durante quatro dias no epicentro de estúdios, exibidores, distribuidores e fabricantes que procuram soluções concretas para recuperar públicos e reinventar o ritual coletivo de ir ao cinema. É neste palco que se ouvem alertas diretos como os de Tom Rothman, defendendo menos publicidade, preços mais acessíveis e janelas de exibição mais robustas, num esforço claro para reconquistar espectadores. Um contraste curioso, sobretudo quando olhamos para Portugal, onde a resposta institucional parece oscilar entre relatórios, grupos de trabalho e medidas bem-intencionadas mas difusas, como se o problema da perda de público pudesse ser resolvido com selos, quotas e estudos, enquanto o resto do mundo discute, sem rodeios, aquilo que realmente afasta as pessoas das salas.
Entre os destaques deste ano, a Angel Studios revelou uma aposta reforçada num cinema de apelo popular e emocional, anunciando vários títulos para 2026, incluindo o drama político The Brink Of War, centrado na cimeira de Reykjavik entre Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev, e o thriller de ação Runner, com uma história de alta tensão em torno de uma corrida contra o tempo. O estúdio confirmou ainda lançamentos como Angel And The Badman, uma releitura do clássico western, o épico Jovem Washington para celebrar os 250 anos da América, Hershey, sobre a ascensão do império do chocolate, e o musical de guerra Drummer Boy, compondo um alinhamento que cruza história, fé e entretenimento acessível, numa estratégia que já deu provas de eficácia junto do público.
Já a Sony Pictures Motion Picture Group apresentou uma das sessões mais robustas da convenção, com um alinhamento de 14 filmes e um discurso direto do seu líder, Tom Rothman, que voltou a defender mudanças estruturais na experiência em sala. Entre as novidades, destacou-se The Social Reckoning, sequela de A Rede Social escrita e realizada por Aaron Sorkin, com uma abordagem contemporânea ao impacto das redes sociais, e uma interpretação transformadora de Jeremy Strong como Mark Zuckerberg. O estúdio revelou ainda novas imagens de Homem-Aranha: Um Novo Dia, continuação do fenómeno protagonizado por Tom Holland, e confirmou o desenvolvimento de uma adaptação animada para adultos de Bloodborne, numa clara aposta na diversificação de públicos. Houve também espaço para o terror com Resident Evil, realizado por Zach Cregger, e para projetos mais autorais como Klara and the Sun, de Taika Waititi.

No segmento mais independente, a Sony Pictures Classics apostou em cinema de festival e propostas mais arriscadas, incluindo o drama criminal saudita Unidentified, realizado por Haifaa Al-Mansour, e a comédia irreverente Gail Daughtery and the Celebrity Sex Pass, evidenciando uma linha editorial que privilegia diversidade cultural e narrativas fora do mainstream.
Por sua vez, a StudioCanal apresentou um alinhamento que cruza nostalgia e reinvenção, com novos projetos como Paddington 4, uma nova versão de Nova Iorque 1997 e de O Uivo e a Fera, ao mesmo tempo que destacou Ink, de Danny Boyle, uma reflexão sobre os media contemporâneos. Entre os títulos mais inesperados, surgiram propostas como Pipi das Meias-Altas e Mr. Men, confirmando uma estratégia que aposta fortemente em propriedade intelectual reconhecível, mas reinterpretada para novos públicos.

O segundo dia da CinemaCon confirmou uma indústria em ebulição criativa, com estúdios a alternarem entre o risco autoral e o espetáculo de entretenimento para voltar a seduzir o público. A Neon apresentou uma das sessões mais coesas e identitárias da convenção, reafirmando a aposta num cinema original e distintivo. Entre os destaques estiveram Leviticus, revelado em Sundance, o irreverente I Love Boosters, de Boots Riley, e Hope, de Na Hong-jin, que chega a Cannes com ambição global e uma mistura de terror, ficção científica e ação. A distribuidora mostrou ainda Hokum, protagonizado por Adam Scott, e o thriller psicológico A Place in Hell, com Michelle Williams e Daisy Edgar-Jones, sublinhando uma estratégia que privilegia vozes autorais e narrativas fora do circuito dominante. A mensagem foi clara, o futuro das salas também depende de filmes que não se confundem com fórmulas repetidas.

Num registo bem diferente, a Warner Bros. Pictures voltou a dominar pelo entretenimento e ambição do seu alinhamento, combinando estrelas, franchises e novos projetos. Um dos momentos mais comentados foi a apresentação de Digger, realizado por Alejandro González Iñárritu e protagonizado por Tom Cruise, numa sátira apocalíptica que evoca o espírito de Dr. Strangelove. O estúdio revelou também novas imagens de Dune: Parte 3, com Denis Villeneuve a prometer um capítulo mais épico e orientado para os fãs, e confirmou o desenvolvimento de projetos como Clayface, uma abordagem sombria ao universo DC, e The Great Beyond, que marca o regresso à realização de J. J. Abrams. Houve ainda espaço para nostalgia com Magia e Sedução 2, reunindo Nicole Kidman e Sandra Bullock, e para o reforço de grandes propriedades intelectuais como The Lord of the Rings: The Hunt for Gollum, que traz de volta Andy Serkis ao papel icónico.
We’ve been waiting for you, precious. The Lord of the Rings: The Hunt for Gollum only in theaters 17 December 2027. pic.twitter.com/FuD8Bh8cpl
— Warner Bros. (@warnerbros) April 15, 2026
A apresentação incluiu também novidades da DC Studios, com Supergirl a apostar numa abordagem mais expansiva e interplanetária, e Man of Tomorrow a dar continuidade ao universo do Super-Homem, além de projetos como Dynamic Duo e novas apostas dentro do universo DC. No segmento de género, a New Line Cinema trouxe propostas como Evil Dead Burn e Mortal Kombat II, reforçando o peso do terror e da ação no portefólio do grupo.
Já a GKIDS destacou-se ao apresentar um primeiro olhar sobre Godzilla Minus One, realizada por Takashi Yamazaki, com uma ambição visual que promete levar o icónico monstro a novos cenários.
O terceiro dia da CinemaCon confirmou o peso crescente de novos protagonistas na indústria e uma aposta clara na diversidade de propostas, entre o cinema de autor, o espetáculo e o entretenimento mais popular. Universal Pictures, Focus Features e Amazon MGM Studios dominaram as atenções com apresentações robustas e repletas de novidades.
A Universal apostou forte na dimensão épica e autoral. O grande destaque foi A Odisseia, novo projeto de Christopher Nolan após o sucesso de Oppenheimer. O realizador sublinhou os temas da memória e do tempo, numa releitura do clássico de Homero onde Matt Damon interpreta um Ulisses amnésico. As primeiras imagens mostraram a sequência do cavalo de Troia com uma abordagem visual e psicológica intensa, sugerindo um filme de épico mas centrado na fragilidade humana.

Também em destaque esteve Dia da Revelação, de Steven Spielberg, que apresentou novas imagens de um thriller com elementos de ficção científica e paranoia governamental, protagonizado por Emily Blunt e Josh O’Connor. A Universal revelou ainda projetos mais comerciais e ecléticos, como Os Novos Sogros do Pior, que junta Robert De Niro, Ben Stiller e Ariana Grande, a sequela de Noite Violenta, e o biopic de Snoop Dogg, numa estratégia que equilibra autor e entretenimento.
No campo da animação, a Illumination apresentou Mínimos e Monstros, uma viagem aos anos 1920 que funciona como homenagem à história do cinema, evocando figuras como Charlie Chaplin e Buster Keaton, reforçando a vertente metacinematográfica do projeto. Num exercecío de plena confiança no filme, a DreamWorks mostrou aos profissionais da exibição cinematográfica A Ilha Esquecida, meio ano antes da estreia comercial.
A Focus Features manteve a sua identidade mais autoral, destacando uma nova adaptação de Sensibilidade e Bom Senso, com Daisy Edgar-Jones, que aposta numa abordagem fiel ao texto original. Mas foi Lobisomem, de Robert Eggers, que mais impressionou, com um trailer marcado por uma estética gótica e visceral, explorando a transformação física e psicológica da figura do lobisomem com Aaron Taylor-Johnson no papel principal.
Já a Amazon MGM Studios assumiu um discurso mais estratégico e ambicioso, anunciando o compromisso de lançar pelo menos 15 filmes por ano em sala. O estúdio apresentou um alinhamento variado que vai do cinema comercial ao projeto de autor. Entre os destaques esteve I Play Rocky, de Peter Farrelly, que revisita o percurso de Sylvester Stallone até criar Rocky, num filme com forte potencial emocional e de prémios.
Outro momento marcante foi a apresentação de The Thomas Crown Affair, protagonizado e realizado por Michael B. Jordan, que procura reinventar a personagem com uma motivação mais profunda, sem perder o charme e sofisticação das versões anteriores. O estúdio revelou ainda Projeto Hail Mary como um dos seus maiores sucessos recentes, reforçando a aposta no cinema de impacto.
No campo do entretenimento mais assumido, destaque para Spaceballs: The New One, com o regresso de Mel Brooks e Rick Moranis, numa sequela que aposta no humor meta e na nostalgia. Já Highlander, protagonizado por Henry Cavill, e The Beekeeper – O Protetor 2, com Jason Statham, reforçam a vertente de ação do estúdio.
Entre os projetos mais originais, Your Mother Your Mother Your Mother, com Mahershala Ali, apresentou-se como um híbrido entre drama espiritual e filme de ação, enquanto How to Rob a Bank aposta numa abordagem contemporânea ao crime, centrada na cultura digital.

O quarto e último dia da CinemaCon ficou marcado pelas apresentações de Paramount Pictures e Walt Disney Studios, num encerramento que misturou estratégia e um forte alinhamento de blockbusters para os próximos anos.
A sessão da Paramount começou com um discurso de David Ellison, líder da Skydance, que procurou tranquilizar exibidores e reforçar a ambição do estúdio num momento de transformação. O executivo confirmou a intenção de lançar cerca de 30 filmes por ano após a fusão com a Warner Bros. Discovery, garantindo uma janela exclusiva de 45 dias em sala, numa clara tentativa de reposicionar o cinema como prioridade.
No plano criativo, a Paramount apostou sobretudo em propriedade intelectual reconhecível. O anúncio mais sonante foi o desenvolvimento de Top Gun 3, com Tom Cruise de regresso, ainda em fase de argumento. A estratégia passa também por expandir franchises já consolidados, com confirmações para Um Lugar Silencioso Parte III, Sonic 4: O Filme e novos capítulos de universos como Star Trek e Transformers.

O estúdio apresentou ainda um primeiro vislumbre da adaptação de Call of Duty, com realização de Peter Berg e envolvimento de Taylor Sheridan, apontando para um filme de ação de grande escala com estreia prevista para 2028.
Entre os projetos mais mediáticos esteve também o concerto filmado Billie Eilish: Hit Me Hard and Soft, realizado por James Cameron e protagonizado por Billie Eilish, que promete uma experiência imersiva em 3D pensada para sala de cinema. Já Johnny Depp apresentou Ebenezer: A Christmas Carol, uma versão do clássico de Dickens com tonalidade mais sombria.
A Paramount reforçou ainda a vertente comercial com o regresso da comédia irreverente em Scary Movie: What´s Up?, novos projetos familiares como Patrulha Pata: O Filme dos Dinossauros e Angry Birds 3, e propostas mais musculadas como Street Fighter. Houve também espaço para projetos originais, como o drama de sobrevivência The Heart of the Beast, com Brad Pitt, e a fantasia épica Children of Blood and Bone, realizada por Gina Prince-Bythewood.
Se a Paramount apostou na quantidade, a apresentação da Disney foi um exercício de domínio absoluto das grandes marcas globais. A Walt Disney Studios levou ao palco o peso combinado de divisões como Marvel, Pixar e Lucasfilm, revelando novos conteúdos de algumas das suas propriedades mais valiosas.
Um dos momentos mais aguardados foi a apresentação de The Mandalorian and Grogu, com Jon Favreau a mostrar uma extensa sequência inicial que confirma a transição da série para o grande ecrã, mantendo Pedro Pascal no papel principal.
No campo da animação, Toy Story 5 destacou-se ao explorar o impacto da tecnologia na infância, reunindo novamente Tom Hanks e Tim Allen. Já a adaptação em imagem real de Vaianatrouxe Dwayne Johnson de volta ao papel de Maui, num dos projetos familiares mais ambiciosos do estúdio para 2026.
A Disney apresentou ainda propostas mais autorais e adultas, como The Dog Stars, de Ridley Scott, e Cavalo Selvagem Nove, de Martin McDonagh. No campo da animação original, destacou-se Hexed, centrado num universo mágico contemporâneo.
O encerramento ficou, no entanto, reservado ao universo Marvel. Kevin Feige apresentou Vingadores: Doomsday, acompanhado pelos irmãos Anthony Russo e Joe Russo, revelando um trailer que junta múltiplas gerações de personagens e sugere um evento cinematográfico de grande escala. A apresentação incluiu ainda novidades tecnológicas com o conceito Infinity Vision, pensado para elevar a experiência em sala.
Desenvolvida em parceria com exibidores de todo o mundo, Infinity Vision é uma certificação para salas premium de grande formato capaz de distinguir espaços que cumprem elevados padrões técnicos, combinando ecrãs gigantes, projeção laser de alta definição e sistemas de som imersivo. Com dezenas de salas já certificadas nos Estados Unidos e centenas a nível internacional, a iniciativa estreia-se na reposição nas salas de Vingadores: Endgame, preparando o terreno para a estreia de Vingadores: Doomsday, reforçando a aposta da Disney na valorização da experiência em sala como elemento central do futuro do cinema. E como alternativa à presença nas salas IMAX de Dune: Parte 3.
No balanço final da CinemaCon 2026, fica clara uma mensagem transversal a todos os estúdios: a experiência em sala continua no centro da estratégia da indústria. Entre novas tecnologias, apostas em blockbusters globais e espaço para propostas de autor, Hollywood demonstra estar não só ativa, mas também empenhada em reinventar a forma como o público vive o cinema na sala de cinema. Num momento em que o streaming conquistou o seu espaço, a resposta dos estúdios é inequívoca: investir no espetáculo, no entretenimento e na emoção coletiva que só o grande ecrã pode oferecer. Se há algo que esta edição confirmou, é que as salas de cinema estão longe de desaparecer. As salas estão a transformar-se, a adaptar-se e, acima de tudo, preparadas para continuar a surpreender plateias em todo o mundo. Quanto à CinemaCon 2026… that’s all folks.
(Note-se que alguns dos trailers exibidos na convenção ainda não foram divulgados na internet).
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

