Bone – uma das mais completas bandas desenhadas
Se há uma obra que obriga o crítico a escolher bem o tom, é Bone. Porque falar dela com condescendência é um erro… mas levá-la demasiado a sério também é cair na armadilha que o próprio Jeff Smith monta desde a primeira prancha.
O que começa como comédia slapstick evolui gradualmente para uma narrativa de alta fantasia, com profecias, entidades malignas e um arco épico clássico. Essa transição não é acidental: é o verdadeiro truque da obra.
Como vários críticos notam, a série “passa de cómica para mais séria ao longo do tempo”.
E aqui entra a primeira leitura crítica: não é só uma mudança de tom, é uma manipulação deliberada da expectativa do leitor.
O maior trunfo de Bone é também o seu maior risco: o contraste. Temos personagens cartoonescas vs. cenários realistas; humor absurdo vs. ameaça genuína e ritmo episódico vs. estrutura de romance longo.
Este choque funciona porque Smith domina o timing visual e o storytelling. A expressividade das personagens — quase “Disney dos anos 30” — convive com fundos detalhados que ancoram a narrativa num mundo credível. Temos um Fone Bone, que é uma espécie de Mickey com um bom coração e um sentido de responsabilidade e justiça perentório; um Phoney Bone, que é uma espécie de Tio Patinhas, com uma adoração por dinheiro, mas que carrega uma personalidade muito burlista e egoísta; e um Smiley Bone, que é um pateta, mas de coração mole.
Depois temos dragões, princesas perdidas, criaturas em forma de ratos gigantes perigosas mas com muito humor à mistura, criaturas gigantes, um excelente vilão e uma taberna onde queremos estar. Magia boa e magia má… e sim, há uma corrida de vacas.
No entanto, este contraste, apesar de eficaz, nem sempre é equilibrado, pois, por exemplo, o universo dos Bone (a tal Boneville) não tem qualquer desenvolvimento e torna-se completamente irrelevante, enquanto o mundo humano é muito mais denso do que o dos protagonistas.
Jeff Smith escreve como quem parece não escrever. Diálogos simples, ritmo leve, humor constante. Mas, por baixo disso, está uma estrutura altamente controlada, que se estende por 13 anos de publicação e 55 capítulos. Tenho que tirar o chapéu a esta coesão de longo prazo sem perder legibilidade imediata. A história funciona tanto em episódios curtos como em leitura contínua, algo que muitos autores falham ao tentar fazer “epopeias”.
Ainda assim, nem tudo é perfeito, pois algumas resoluções narrativas podem parecer apressadas e certos arcos secundários ficam aquém do potencial.
Se há ponto onde a crítica se rende sem reservas, é no desenho de Smith, que, com linhas limpas, uma composição fluida e uma expressividade exemplar, se torna perfeito para a obra.
A decisão de trabalhar a preto e branco não é estética, mas funcional. Permite contraste máximo entre personagens e cenários e reforça a legibilidade. Ainda assim, a versão a cores é muito bem conseguida e traz outra densidade e brilho, potenciando a arte de fantasia heróica.
Com múltiplos prémios Eisner e Harvey, Bone tornou-se uma espécie de “obra-padrão” da BD americana independente. Mas atenção: não é revolucionária no sentido formal.
O que Bone faz não é reinventar, é sintetizar a tradição do cartoon clássico, a fantasia épica à Tolkien e a narrativa longa de banda desenhada moderna, e fá-lo com uma consistência rara.
Bone não é a obra mais profunda da BD, nem a mais inovadora, mas é uma das mais completas. Funciona para leitores novos, resiste à releitura e equilibra humor e épico como poucas — temos aqui escola de BD.
Como críticas principais, apresenta-se o tal mundo inicial muito subexplorado e, confessa-se, o final é muito menos impactante do que o percurso promete, embora seja um bom final.
Bone é aquele tipo de obra que parece simples… até percebermos que não há nada ali deixado ao acaso e por isso é especial. Não tenta parecer grande, simplesmente é.
Leitura essencial para quem gosta de fantasia heróica, pois, apesar de ser um calhamaço, lê-se de uma forma muito simples e rápida.

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.





