Cinema: Crítica – Boa Sorte, Diverte-te, Não Morras
Após uma longa ausência, Gore Verbinski regressa ao grande ecrã com Boa Sorte, Diverte-te, Não Morras, numa viagem irreverente e muito especial, protagonizado por Sam Rockwell.
Em tempos, Gore Verbinski era um cineasta capaz de deixar a crítica e o público em pulgas. Afinal, o realizador do remake de The Ring – O Aviso, que lhe abriu portas para o sucesso mainstream com os primeiros três filmes de Piratas dos Caraíbas, era alguém capaz de estar lado a lado com outros realizadores da sua geração e do mesmo género, como Peter Jackson. Quase uma década depois do seu último filme, Verbinski regressa ao grande ecrã com Boa Sorte, Diverte-te, Não Morras.
Numa certa noite, um homem sem nome vindo do futuro (Sam Rockwell) entra num restaurante para recrutar um grupo improvável de pessoas que, alegadamente, irão salvar o mundo. Entre eles estão Mark e Janet (Michael Peña e Zazie Beetz), um casal de professores excêntricos; Scott (Asim Chaudhry), um homem comum mas determinado; e Susan (Juno Temple), uma mulher marcada por perdas pessoais. Juntos, embarcam numa aventura alucinante, cheia de reviravoltas temporais e dilemas morais, que os leva a confrontar o apocalipse provocado por uma inteligência artificial descontrolada.
No universo dos filmes mais aleatórios e imaginativos, Boa Sorte, Diverte-te, Não Morras conquista um lugar bem alto na lista. Felizmente, é daqueles que valem cada segundo: não só acompanhamos este grupo heteróclito, como somos puxados para dentro da narrativa, ansiosos por perceber que raios está a acontecer. A obra aborda temas preocupantes sobre as redes sociais, a dependência tecnológica e a inteligência artificial, explorando como estas forças podem, potencialmente, causar o fim do mundo. Isto ao chegar ao ponto de no futuro valer a pena investir na viagem do tempo para impedir o pior de acontecer.
Durante duas horas e um quarto, somos imersos num universo onde literalmente tudo pode acontecer. Matthew Robinson, o argumentista responsável por esta construção (o mesmo creditado em Amor e Monstros e Dora e a Cidade Perdida), revela a sua experiência em narrativas fora da caixa. Entre o caos do dia presente, as nossas personagens são introduzidas e contextualizadas via flashbacks que revelam um mundo assolado por vícios em VR, clonagem humana e adolescentes zombificados por smartphones, ecoando episódios de Black Mirror, mas com um tom mais irreverente e esperançoso.
A combinação de todos estes elementos oferecem um filme verdadeiramente fascinante, que incentiva a curiosidade sobre o que virá a seguir e nos faz aceitar o absurdo como um veículo para crítica social. Sob o manto da reflexão sobre tecnologias atuais e futuras – desde a alienação causada por ecrãs ao risco de IAs manipuladoras –, o filme dá esperança de salvação através da união. Mesmo nos momentos mais negros, apercebemo-nos de que manter a companhia certa pode ser a diferença entre viver ou apenas sobreviver.
Assim, Boa Sorte, Diverte-te, Não Morras é uma comédia de ficção científica que vale a pena ver no grande ecrã. Deixa-nos levar pela sua premissa diferentes dos demais, pelas personagens estranhas, repletos de coração, e pela mensagem otimista de que a desconexão pode ser a chave para a sobrevivência. Já tínhamos saudades de filmes com alma assim.
Nota Final: 8/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.




