Ghost Machine: o novo universo da Image que desafia a indústria dos comics
A Ghost Machine reúne autores de peso num projecto independente que aposta em séries autorais como Geiger, Redcoat e Rook: Exodus.
Ghost Machine
Ghost Machine é um universo editorial de comics criado em 2024 e publicado pela Image Comics. Não é uma editora nova, mas sim um selo criativo fundado por alguns dos maiores autores da BD norte-americana moderna. Trata-se de uma declaração clara de independência criativa: um estúdio liderado por autores, não por executivos.
O núcleo duro da Ghost Machine inclui Geoff Johns (DC, Green Lantern, Doomsday Clock), Gary Frank, Jason Fabok, Bryan Hitch, Francis Manapul, Peter J. Tomasi e Brad Anderson. Ou seja, autores que construíram universos bilionários para a DC e decidiram criar algo que lhes pertence.
Na Ghost Machine, os criadores detêm os direitos das obras, as séries são pensadas a longo prazo e não existem resets forçados nem eventos editoriais obrigatórios. As principais séries são estas que vou recomendar em seguida, embora existam já muitas outras, bastante diferentes entre si, que abordam várias temáticas e estilos.
Geiger
O anti-herói radioativo que quer mais do que explosões.Geiger é uma série pós-apocalíptica nuclear protagonizada por Tariq Geiger, agora conhecido como The Glowing Man, um homem que absorve radiação e caminha por uns Estados Unidos devastados, acompanhado pelo seu cão de duas cabeças, Barney.
Aqui encontramos uma construção de mundo sólida e a narrativa de Geoff Johns mergulha num cenário hostil onde a sobrevivência é mais do que um objetivo; é um fardo real. Geiger não é um herói canónico. É um sobrevivente duro, com um código moral próprio, e isso dá à série uma força dramática rara dentro do género.
A arte cinematográfica de Gary Frank, aliada às cores de Brad Anderson, eleva ainda mais o material. Cenários radioativos, paisagens devastadas e personagens incrivelmente expressivos ajudam a criar um impacto visual forte e consistente. Não reinventa o género apocalíptico, e muitos leitores apontam ecos de abordagens já vistas em obras como The Walking Dead ou The Realm, mas tudo é executado com mestria.
A ligação emocional demora a arrancar. Apesar de o protagonista ser complexo, o ritmo mais lento da construção do mundo pode afastar leitores que preferem ação imediata. No entanto, quando a ação começa, é do mais espetacular que há. Para mim, é a melhor série, a par de Rook: Exodus, e merecia claramente uma adaptação live action. Aliás, qualquer uma destas séries seria um estrondo em formato de série ou filme.
Geiger funciona como um blockbuster com cérebro. Sabe o que quer contar e não perde tempo com floreados. É um comic sólido, com personagens cheias de camadas, e merece, como já está a provar, ser um dos pilares mais aclamados da Ghost Machine.
Redcoat
Humor, história alternativa e irreverência.Aqui temos uma proposta surpreendentemente divertida. Simon Pure é um soldado britânico imortal desde 1776, que vagueia pelo mundo com charme sarcástico, encontros com figuras históricas e uma jornada constante de identidade e moralidade.
A premissa pega na tradição histórico-folclórica e mistura-a com aventura e humor, criando uma vibração quase pulp e épica. O protagonista é carismático, daquele tipo que sabe que é ridículo e ri disso. Essa autoconsciência dá à narrativa uma leveza refrescante dentro do universo Ghost Machine.
Bryan Hitch está em boa forma, com o seu estilo de linework limpo e poderoso, que casa bem com a mistura de ação e comédia. Existem momentos em que o humor e a gravidade histórica se aproximam demasiado, criando por vezes um ritmo desigual. Também se sente menos profundidade emocional do que em títulos como Geiger ou Rook, o que pode torná-lo o patinho feio desta trilogia.
Confesso que, ao início, foi o título que mais me custou a entrar, mas com o avançar da história considero-o excelente, precisamente por funcionar como um wild card que ousa divergir do tom habitual. Sendo o protagonista imortal, o tempo vai passando, surgem flashbacks e flashforwards, e isso torna a leitura cada vez mais interessante.
Rook: Exodus
Sobrevivência e natureza contra a civilização.Numa terra distante e terraformada chamada Exodus, Rook, um antigo agricultor, tenta sobreviver e escapar de um planeta onde a natureza e as criaturas perderam o equilíbrio após o colapso da tecnologia.
Aqui encontramos um world-building ambicioso, onde o cenário de ficção científica é tão selvagem quanto fascinante, misturando natureza descontrolada com elementos sci-fi e caos social. As personagens usam capacetes que lhes permitem criar elos emocionais e de comando com diferentes animais, como corvos, lobos, cabras, aranhas, cães ou ursos. As cenas de ação e suspense são de cortar a respiração.
Jason Fabok está em modo topo de gama. A arte é absolutamente espetacular, com paisagens vastas e personagens incrivelmente detalhados que elevam todo o ambiente do livro. O artista está aqui num nível excecional. É impressionante.
A progressão narrativa está no ponto certo. À medida que a série avança, surgem viragens e expansões que transformam Rook de um simples sobrevivente num líder, num mundo à beira do colapso.
Se Geiger é a explosão emocional e Redcoat a gargalhada aventureira, Rook: Exodus é o épico contemplativo. Um comic que cresce em profundidade e ambição com o passar do tempo, sustentado por uma arte que, só por si, vale o preço do bilhete. Visualmente, é de outro mundo.

A Ghost Machine pode ter começado com apenas três títulos principais, mas que três.
Geiger brilha por ser visceral, emocional e cinematográfico, oferecendo uma proposta madura que equilibra drama e ação.Redcoat diverte ao reimaginar a história com irreverência e espírito pulp, mesmo que nem sempre alcance a profundidade dos outros dois.
Já Rook: Exodus conquista pela construção de mundo e pela arte sublime, transformando ficção científica num épico que cresce com o leitor.
Como é óbvio, recomendo a leitura destas séries em trade paperback, porque, assim que se começa, é praticamente impossível parar.
Na minha humilde perspetiva, se alguma editora portuguesa editasse isto com uma boa apresentação e divulgação, venderia muito bem. Leituras mais do que recomendadas.


O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.





