Análise BD: As Angústias Amorosas dos Mortos
Rendido ao macabro e ao sobrenatural, Junji Ito não poderia deixar as histórias de assombrações de lado.
É através da sua dedicação aos contos sobre fantasmas e aparições insólitas que surgiu As Angústias Amorosas dos Mortos. Fiel aos conceitos de critica social, que envolvem casos puros de superstição, obsessão, desespero e angústia que conduzem ao suicídio e não só, o autor explora um determinado tipo de elementos sobrenaturais em torno das histórias que compõem este volume. A ideia de amor ou paixão, bem como o medo da rejeição e a tentativa de aceitação forçada ultrapassam todos os limites da sanidade que se cruzam diretamente com o trágico e o macabro.
As primeiras histórias deste volume, relacionadas entre si através de cinco contos, têm como personagem principal o jovem Ryusuke, que regressa a uma cidade frequentemente mergulhada no nevoeiro que o marcou na sua infância, após ter recusado a cooperar numa curiosa tradição que ainda se mantém entre os habitantes locais: Trata-se das Leituras na Encruzilhada, onde as pessoas têm por hábito questionar a um estranho a resolução que devem tomar relativamente a casos amorosos e outros problemas.
Essa forma de adivinhação peculiar conduz a uma dada série de suicídios e Ryusuke crê que não são fruto do acaso. Tudo se complica e intensifica após o surgimento de uma figura que não parece ser deste mundo, um misterioso rapaz vestido de preto que influencia negativamente as pessoas, sujeitas a um fim funesto, marcado por um horror que os impede de descansar mesmo após a morte.
Além das histórias relacionadas com as Leituras na Encruzilhada, também lemos algo relacionado com a estranha família Hikizuri através dos contos O Namorado da Segunda Filha e Sessão de Possessão Espiritual. As histórias dos irmãos desta família, zelosos de velhos costumes, que inevitavelmente se cruzam com o grotesco ou o insólito, funcionam como uma sátira à elite tradicional japonesa que perdeu relevância após a modernização do Japão, mas insiste em preservar status e poder simbólico.
O terror não vem apenas de fantasmas ou rituais, mas da própria estrutura familiar: A família vive isolada numa mansão antiga e decadente, com um cemitério familiar particular. Os irmãos Hikizuri são emocionalmente instáveis, hostis entre si e presos a um passado que não conseguem abandonar, porventura suspenso no rígido conservadorismo da figura paterna, simulada pelo irmão mais velho, que é um incapaz. As suas práticas de necromancia ou tentativa de impressionar através da suposta presença do poder dos mortos surgem como uma tentativa desesperada de reviver um passado idealizado, algo que obviamente conduz a situações calamitosas e de fracasso.
Os contos independentes de A Mansão da Dor Fantasma e A Mulher das Costelas também são cruciais. O inóspito e o macabro conduzem as as suas personagens a uma dada série de eventos insólitos, cruzando-se com personagens incomuns cuja existência funcionam como uma espécie de trágico prenúncio, já que o contacto com o sobrenatural nestas histórias afigura-se como difícil de compreender em absoluto.
Mas a armadilha em que caem as personagens principais é criada por elas mesmas, incapazes de reconhecer que por vezes o melhor é não se deixarem levar por convites ou promessas que podem comprometer a sua própria vida, sobretudo quando aqueles com que se cruzam já parecem estar do «Outro Lado», indiferentes a uma existência sã. Contos que perspetivam maldições, pelo menos o caso de A Mulher das Costelas serve de crítica social à obsessão com a magreza ou a idealização do corpo feminino, que pode levar a casos extremos, onde se adivinha a desumanização existencial rumo a uma a auto-destruição.
Este volume de capa mole, publicado em Janeiro pela Devir, marcado pelos reconhecidos desenhos detalhados e expressivos de Junji Ito através de 400 páginas a preto e branco, deve a sua tradução a Bruna Ogawa e Lídia Ivasa, além da legendagem e trabalho de imagem de Susana Bolotinha e a adaptação gráfica de Ana Lopes. Conta ainda com o apoio do editor Rui Santos, do diretor de produção Nuno Murjal e a edição de Fernanda Vizcaíno.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural




