Análise BD: O Gosto do Cloro
O Gosto do Cloro é uma BD onde quase nada acontece e é precisamente aí que tudo acontece. Bastien Vivès constrói uma narrativa mínima, sustentada por corpos submersos, respirações suspensas e olhares que não se fixam. Na edição portuguesa da Devir, essa contenção é preservada com inteligência editorial: papel, formato e reprodução respeitam a fragilidade do traço e o ritmo pausado da leitura, evitando a tentação de “embelezar” aquilo que vive do inacabado.
Vivès trabalha o corpo como espaço de pensamento. A piscina é um lugar asséptico, artificial, repetitivo e transforma-se num território íntimo, quase uterino, onde o protagonista tenta reaprender a estar consigo próprio. O cloro, longe de ser apenas um detalhe sensorial, funciona como metáfora: é o gosto da artificialidade, da memória fabricada, da tentativa de purificação que nunca é total. Há sempre algo que arde ligeiramente na garganta.
Vivès recusa a explicação psicológica. Não há dramatização excessiva, não há catarse visível. O silêncio não é ausência de discurso, mas um dispositivo narrativo ativo. As elipses são mais importantes do que os diálogos; os espaços entre vinhetas dizem mais do que as palavras nelas inscritas.
A repetição dos enquadramentos como os corpos a entrar na água, a flutuar, a sair cria um ritmo quase musical, mas imperfeito, como uma melodia interrompida. É uma BD que se lê devagar, e que resiste à leitura apressada.
O desenho de Vivès parece sempre à beira de se desfazer. Linhas soltas, anatomias sugeridas mais do que afirmadas, fundos frequentemente vazios. Esta fragilidade não é um defeito estilístico; é uma posição ética. O autor recusa o controlo absoluto sobre o corpo representado, aceitando a sua instabilidade, a sua transitoriedade.
Na edição da Devir, essa fragilidade é bem respeitada: o preto não é agressivo, os cinzentos respiram, e o branco da página funciona como silêncio visual. Há um cuidado claro em não “corrigir” Vivès, algo essencial numa obra onde qualquer excesso técnico destruiria o equilíbrio.
O Gosto do Cloro não é uma história de superação. Não há arco clássico, nem resolução emocional. O encontro (ou quase encontro ) com a rapariga na piscina não é um ponto de viragem, mas um desvio momentâneo. A vida continua mais ou menos igual, talvez apenas com uma consciência ligeiramente mais aguda da sua própria incompletude.
E é aqui que a obra ganha densidade crítica: Vivès fala de uma geração (ou de um estado de espírito) incapaz de grandes gestos, mas profundamente sensível aos pequenos deslocamentos. Uma geração que sente muito, mas age pouco; que observa, mas hesita. Não por fraqueza moral, mas por excesso de lucidez.
Tal como o gosto do cloro, esta BD não se impõe mas permanece. Fica na boca depois da leitura, ligeiramente incómoda, impossível de ignorar. Não se trata de uma obra que se admire à distância, mas de uma que se experiencia fisicamente, quase de forma íntima.
O Gosto do Cloro é menos um objeto narrativo e mais um estado de suspensão. Uma BD que não pede interpretação fechada, mas disponibilidade sensível. E talvez seja por isso que continua a ser relevante: porque não tenta explicar o mal-estar contemporâneo e limita-se a deixá-lo boiar à superfície. percebe-se facilmente o porquê desta BD ter sido premiada em Angoulême.
Não posso deixar de falar das cores. Nesta obra , a cor não descreve o mundo: regula a temperatura do sentir.
A paleta é reduzida, fria, dominada por azuis, verdes pálidos e cinzentos aquosos. Não há contraste violento, não há explosões cromáticas. Vivès opta por uma gama que parece sempre diluída, como se a própria cor estivesse submersa. Parece sentir-se o cheiro do cloro, do balneário, da piscina onde já todos estivemos e traz o seu odor característico.
Este uso contido da cor aproxima-se mais da sensação física da água do que da sua representação visual. A piscina não é azul porque é azul: é azul porque arrefece, porque distancia, porque anestesia. A cor funciona, assim, como um estado corporal prolongado na página.
O que impressiona não é a variedade cromática, mas a variação mínima dentro da monotonia. Pequenas alterações de tom ; um azul ligeiramente mais escuro, um verde mais sujo, um cinzento menos translúcido marcam mudanças subtis de humor, de atenção, de proximidade entre as personagens.
Este é um jogo cromático quase musical, baseado em micro-variações, como um tema repetido com ligeiras inflexões. Vivès confia que o leitor sinta a diferença antes de a compreender.
A pele das personagens surge frequentemente em tons quentes, mas nunca saturados. Não há erotização explícita (o que não é comum neste autor mas isso dá pano para outras conversas), nem contraste agressivo entre corpo e espaço. Pelo contrário, os corpos parecem, por vezes, dissolver-se na água, perdendo contorno, identidade e peso.
Este apagamento cromático do corpo sugere uma vontade de fusão, mas também uma fragilidade identitária. O corpo não se impõe sobre o espaço; adapta-se, dilui-se, quase desaparece. A cor contribui para esta ideia de um sujeito que não ocupa plenamente o mundo, que existe num estado intermédio.
Quando a cor se ausenta, ou se reduz ao quase branco, não estamos perante um vazio gráfico, mas uma pausa respiratória. São momentos em que a narrativa suspende qualquer tentativa de emoção clara. Tal como o silêncio entre dois mergulhos, essas páginas funcionam como intervalos sensoriais. Aqui, a cor (ou a sua retirada) assume uma função estrutural: organiza o tempo da leitura, desacelera o olhar, impede a progressão automática. É um uso profundamente consciente da cromia como ritmo narrativo.
Importa referir que a edição portuguesa da Devir mantém esta subtileza cromática com cuidado. As cores não estão excessivamente saturadas, o papel não trai a transparência pretendida, e a impressão preserva as nuances delicadas que são essenciais ao funcionamento emocional da obra. Qualquer erro aqui (um azul demasiado forte, um contraste artificial) comprometeria o equilíbrio. Felizmente, a edição compreende que, nesta BD, a cor é um silêncio visível.
Em O Gosto do Cloro, a cor não ilustra a narrativa: é a própria narrativa em estado líquido. Serve para afastar, para amortecer, para criar uma distância emocional onde o leitor é convidado a entrar, mas nunca a instalar-se confortavelmente.
Poderia dizer que Vivès usa a cor não para dar forma ao mundo, mas para dar forma à hesitação. E é nessa hesitação cromática, fria, contida, quase invisível , que a obra encontra a sua força mais duradoura.

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.




