DC Absolute Universe: Uma Reinvenção Radical da Trindade
Na linha Absolute, Batman, Superman e Wonder Woman saem do conforto do universo tradicional e ganham versões mais cruas, sombrias e conceptuais de si próprios.
O Absolute Universe da DC não quer apenas atualizar personagens clássicas — quer redefini-las com uma nova abordagem.
Absolute Batman
Se o Batman sempre foi um estudo de contradições — vigilante, traumatizado, um detetive numa capa — Absolute Batman leva isso ao extremo. Scott Snyder e Nick Dragotta não se limitam a refrescar: eles redefinem. Bruce Wayne já não é o playboy filantrópico milionário que conhecíamos, mas um homem despido de fortuna e privilégios, lutando contra um crime que explodiu de forma visceral e caótica na sua cidade.
É-nos apresentada uma tonalidade profundamente contemporânea. Problemas sociais e reais infiltram-se no manto do morcego, tornando Gotham mais uma metrópole de medo moderno.

Os personagens clássicos são distorcidos — o novo Killer Croc, um Bane exagerado e grotesco, um Joker ainda mais diferenciado — mas isso serve o propósito, pois propostas radicais pedem mudanças radicais. A arte e o ritmo de Dragotta apostam em traços energéticos e cinéticos que parecem captar a ansiedade da história. Sou pessoalmente fã deste desenhador desde que li East of West.
Claro que, por vezes, toda esta ânsia de chocar e o exagero nas cenas de ação podem sacrificar a coerência narrativa em alguns momentos. Alguns leitores podem sentir que a essência do herói se perde na tentativa de ser “socialmente relevante” enquanto Bruce Wayne. Diria que é uma série pouco elegante, mas muito fascinante e aditiva.
Absolute Superman
Ao contrário de Batman, que se alimenta da sombra, Absolute Superman mergulha no conceito do herói como mito vulnerável. Jason Aaron e Rafa Sandoval fazem algo verdadeiramente ousado.
Muitas vezes, o Superman nem sequer aparece — e quando aparece é para ser questionado pelo próprio universo que deveria defender.
A narrativa clássica do herói sofre um ligeiro twist, fazendo com que Kal-El chegue à Terra já jovem, a sair da adolescência, e não como criança, o que traz toda uma perspetiva diferente.
A Terra está bem mais hostil do que aparenta, e posso adiantar que um número centrado no Brainiac e no horror corporal provou que esta série não tem medo de subverter expectativas. Aqui, Clark Kent não está apenas a enfrentar vilões: é desafiado a justificar o próprio simbolismo do que significa ser “o último filho de Krypton”.

É também muito interessante ver uma capa feita do pó vermelho dos minerais de Krypton, associada a uma consciência de inteligência artificial chamada Sol, que dá uma nova dinâmica às ações do Superman. Esta versão, com uma estética mais “bad ass”, traz um peso emocional mais impactante, em especial nas cenas espetaculares de ação.
Como aspeto negativo, destaco o ritmo irregular da série. Por vezes, retirar o herói principal do centro corre o risco de alienar leitores que compram a série para ver o Superman a fazer o que o Superman faz. Se acharem a versão sombria demais… bem, o objetivo é mesmo esse. Eu não achei de todo — e posso inclusive dizer que, da tríade aqui analisada e dos respetivos universos Absolute, foi o Superman o que mais gostei.
É, sem dúvida, a mais conceptual das três. Dá-nos um Superman que é mais filosofia em banda desenhada, sem deixar de ser visualmente espetacular, com um desenho poderoso e cores bem marcantes.
Absolute Wonder Woman
Aqui é onde a DC se permite ser mais folclórica e visceral na reinvenção. Em Absolute Wonder Woman, Diana nasce fora do Olimpo e cresce em circunstâncias traumáticas, envolvendo bruxaria, magia negra e reinterpretações do mito clássico.
Existe uma rutura criativa clara por parte de Kelly Thompson (argumento) e Hayden Sherman (desenho), que pegam no conceito de Diana e moldam-no de forma surpreendentemente nova. Já não é apenas uma guerreira amazona clássica, mas uma figura moldada por magia e choque, crescida no Inferno.
Temos temas profundos como identidade, trauma e pertença a serem desenvolvidos eximiamente, e esta Wonder Woman questiona tudo aquilo que se assumia como inerente à personagem.
Visualmente, apresenta um estilo gótico espetacular, quebrando muitas barreiras clássicas da banda desenhada. As cores são apelativas, emocionais e verdadeiramente deslumbrantes.

Devo, no entanto, dizer que por vezes é visualmente impressionante, mas narrativamente sobrecarregado. Há momentos em que a estética ameaça engolir a alma da personagem. Ainda assim, é provavelmente a mais ousada das três, arriscando uma revisão mitológica quase fantástica e menos tradicional. Pessoalmente, gostei imenso — não só pela arte diferenciada, mas porque o novo conceito de Diana está muito bem construído.
Resumindo
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Batman equilibra-se entre o clássico e o moderno como um trapezista sem rede: nem sempre perfeito, mas sempre eletrizante.
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Superman desconstrói o mito com ambição, por vezes à custa do ritmo, mas com um visual sedutor e uma energia emocional poderosa — mesmo quando a esperança não é simbolizada pelo “S” no peito.
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Wonder Woman recria a personagem de forma quase mítica e brutal, mais próxima de um épico gótico do que do cânone tradicional.
No final, o Absolute Universe é uma tentativa audaciosa da DC de renovar ícones profundamente enraizados na cultura pop, com resultados que podem dividir fãs, mas que certamente não deixam ninguém impassível.
Falo aqui apenas da “santíssima trindade”, mas já podemos ler também nos Absolute:
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Absolute Flash, que não me conquistou, mas é bastante entretido e colorido;
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Absolute Green Lantern, com uma estética mais próxima do mangá, mas que narrativamente achei confuso;
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Absolute Martian Manhunter, que recomendo vivamente, com uma arte brilhante e uma criatividade fora da caixa, muito bem conceptual.
Com já alguns arcos completos, seria interessante a Devir trazer estes títulos em trade paperback para todos nós.
Se não, resta ler noutras línguas — porque vale mesmo muito a pena.

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

