Análise Manga: Twisted Wonderland Volume 1
Um início sóbrio e cativante, Twisted Wonderland Vol. 1 traz os vilões da Disney para o formato manga com estilo e mistério.
O primeiro volume de Twisted Wonderland chega com uma energia simultaneamente familiar e estranha, combinando inspirações dos vilões da Disney com uma estética mais sombria e elegante. Para uma franquia que começou como um jogo mobile em 2020 e que se tornou um sucesso internacional pouco depois, a transição para manga parecia inevitável. Ainda assim, o que me surpreendeu foi a confiança com que esta adaptação assume a sua própria identidade. Graças à Dom Quixote (DQ.Comics), uma chancela da LEYA com um olhar cada vez mais apurado para propriedades Disney, a edição portuguesa chega com o brilho e a atitude que este universo merece.
A influência de Yana Toboso sente-se de imediato. Conhecida por Black Butler, Toboso fornece o conceito original e a visão geral das personagens, e a sua marca está presente em tudo, da postura ao design de figurinos. Há drama em cada painel, mesmo quando as personagens apenas caminham por um corredor. A execução artística do manga, a cargo de Sumire Kowono, com desenvolvimento da história por Wakana Hazuki, honra bem essa sensibilidade. Embora a arte não tente replicar o jogo mobile ponto por ponto, mantém claramente a sua atitude sombria e teatral.
Inicialmente, conhecemos apenas o nosso protagonista, Yuken Enma, ou simplesmente Yu, dependendo do formato, um japonês transportado de forma inexplicável para a misteriosa Faculdade Corvo da Noite através de um mecanismo que é, essencialmente, um isekai. Eu sei que usar isekai para tudo pode soar repetitivo enquanto termo, mas aqui funciona na perfeição. Yu acaba numa academia de magia sem possuir magia própria, o que cria tensão imediata mas também espaço para humor. É o “homem normal” numa escola cheia de estudantes excêntricos e poderosos que provavelmente o vaporizariam por acidente se não estivessem tão ocupados a preocupar-se com regras, duelos e os seus próprios dramas pessoais.
Os capítulos iniciais demoram o seu tempo, não de forma lenta, mas no sentido de “queremos que sintas este mundo”. A Faculdade Corvo da Noite é apresentada como um sítio onde as regras importam, por vezes de forma absurdamente séria, e a arquitectura sugere simultaneamente rigor académico e um toque de gótico permanente. Quando Yu põe os pés no campus pela primeira vez, o ambiente é tenso, com criaturas mágicas em cada esquina. É algo eficaz, especialmente para leitores que não conhecem o jogo. Não é preciso conhecimento prévio; o manga explica o essencial e o resto serve de textura de worldbuilding.
Um dos primeiros encontros importantes é com Riddle Rosehearts, o líder do dormitório Heartslabyul. Riddle é, naturalmente, inspirado na Rainha de Copas de Alice no País das Maravilhas, e essa linhagem está bem visível na sua personalidade. Rigoroso, brilhante e absolutamente intolerante com quebras de regras. Se alguém ousa sequer pensar em ultrapassar um limite, basta a expressão do Riddle para reconsiderar as escolhas de vida. O manga dá-lhe o protagonismo que merece, especialmente porque este volume adapta o início do Episódio Heartslabyul do jogo.
Riddle podia facilmente ter-se tornado uma caricatura, mas o manga dá-lhe nuances desde cedo. Há disciplina, sim, mas também uma fragilidade subjacente na forma como se agarra à ordem. Quem conhece o jogo sabe onde isto vai parar; quem chega agora percebe que algo mais profundo está a germinar, mesmo que ainda não saiba o quê.
As relações do Yu com Ace Trappola e Deuce Spade formam outro pilar da história, oferecendo alívio cómico e um dinamismo mais terreno. Os dois tornam-se aliados improváveis e as interacções do trio adicionam um ritmo mais leve que equilibra a atmosfera opressiva das regras de Heartslabyul. A arrogância do Ace e a sinceridade do Deuce criam um contraste divertido, e o Yu, impotente mas teimosamente prestável, mantém-nos alinhados. Ver os três a tentar, e a falhar de forma incrível, navegar pelo labirinto de regras impostas pelo Riddle é um dos pontos altos deste volume inaugural.
Em termos estruturais, o manga gere bem o ritmo. As apostas no Volume 1 não são apocalípticas; giram antes em torno das tensões entre personagens e do sistema rígido da escola. Quando surge o primeiro grande desafio, não precisa de explosões grandiosas ou feitiçaria elaborada. O foco está no trabalho de equipa, no atrito entre personalidades e na forma como o Yu contribui apesar de não ter magia. Esse enfoque mais contido dá à história uma força emocional maior.
Do ponto de vista de produção, a edição da DQ.Comics merece elogios. A qualidade de impressão é sólida, a tradução flui naturalmente e o capítulo extra com ilustrações de personagens é um pequeno mas delicioso bónus. Estes extras fazem a diferença numa franquia como Twisted Wonderland, onde o design das personagens é metade do encanto. Os fãs vão apreciar ver arte que destaca a personalidade de cada uma, e os novos leitores ganham uma melhor noção de quem é quem neste labirinto mágico de egos e capas.
Comparar o manga com o jogo é inevitável, mas vale a pena sublinhar que o manga não tenta substituir a experiência do jogo, reformula-a. Algumas cenas são simplificadas, outras têm um ritmo diferente e certos momentos ganham um tom ligeiramente mais dramático. O papel do Yu mantém-se próximo do protagonista original, mas o manga dá-lhe um pouco mais de presença e humor, tornando-o mais fácil de acompanhar desde a primeira página.
É um volume perfeito? Não completamente. Os leitores que venham à procura de acção explosiva podem achar este início algo contido. E, para quem não conhece a franquia, algumas introduções de personagens podem parecer aceleradas, quase como se a história assumisse que já vimos estas caras antes. Mas nada disto é impeditivo. São detalhes menores num começo, de resto, muito seguro.
Twisted Wonderland Volume 1 cumpre aquilo que um primeiro volume deve fazer: apresentar personagens envolventes, construir um mundo que apetece explorar e deixar o leitor curioso pelo que vem a seguir. É acessível sem perder a complexidade estilizada que tornou o jogo original tão marcante e deliciosamente interessante.
Nota: 8,5/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.






