Análise BD: Something is Killing the Children Vol. 1
Umas das BD’s de maior sucesso nos EUA chega a Portugal traduzida para o nosso idioma através da Devir, deixando muitos leitores empolgados: Something is Killing the Children («Alguma coisa está a Matar as Crianças») e é uma referência criativa em termos de Terror.
Trata-se de um fenómeno que redefiniu o género na banda desenhada. Publicados pela editora Boom! Studios a partir de 2019. A série Something is Killing the Children foi criadosa pelo escritor James Tynion IV (n.1987) em colaboração com o artista Werther Dell’edera (n.1975). Outro contributo notável também é a do colorista Miguel Muerto. A série já ganhou vários prémios, incluindo o Eisner Award, tendo vindo a alimentar as premissas de que o sucesso se mantenha, já que tem vindo a ser traduzida para mais de vinte idiomas em várias dezenas de países.
A publicação é oportuna: Vários fãs de Terror em Portugal podem contar com mais um título recomendado após descobrirem a criatividade de James Tynion IV através de «A Bela Casa do Lago» (The Nice House on the Lake) também publicada pela Devir. Podem apreciar um conjunto de histórias únicas, carregadas de ação, adaptadas à atualidade e que tem vindo a seduzir inúmeros leitores por todo o mundo, como podem ainda reconhecer o valor das expectativas que têm vindo a ser geradas em torno de uma série live-action a partir do momento em que a Netflix adquiriu os direitos para a produção da mesma.
Mais recentemente, esses direitos foram adquiridos pela Blumhouse Productions, que já equaciona realizar um filme de imagem real e ainda uma animação para adultos, ainda que não haja previsões para ambos os lançamentos. O facto é que Something is Killing the Children é um título incontornável e inadiável em termos de produções para a televisão ou até mesmo para o grande ecrã.
A história que dá origem à série Something is Killing the Children assenta num evento de proporções trágicas e assustadoras: Na pequena cidade de Archer’s Peak, no Wisconsin, várias crianças começam a desaparecer — e outras são encontradas mortas de maneiras tão brutais que os adultos não conseguem explicar. O ponto de partida acompanha James, um miúdo que sobrevive a um massacre que matou os seus amigos durante um jogo noturno na floresta. James afirma que monstros foram os responsáveis, mas ninguém se acredita nele.
É então que surge Erica Slaughter, uma jovem enigmática armada com facas e acompanhada por uma criatura misteriosa numa caixa, um aparente boneco de pelúcia chamado Octo. Erica chega à cidade ciente do que está a acontecer e avança para caçar os monstros que nem todos são capazes de ver. Claro está que Erica não é uma pessoa comum e o seu treino e as orientações que recebe não são provenientes de um grupo vulgar. Nem todos estão preparados para lidar com monstros, mas há quem o faça, secretamente, nas sombras. Todavia, é difícil crer que os eventos de Archer’s Peak passem despercebidos e não surgem as consequências derivadas desta caça aos monstros apreendida por Erica Slaughter.
Correndo o risco de expormos spoilers, convém realçar a importância da protagonista: Ao longo da série, que se desenvolve durante e após os eventos de Archer’s Peak (arco de 15 capítulos correspondentes a 15 edições, reunidos em 3 volumes que serão os correspondentes aos lançados pela Devir, com mais de 130 páginas cada), fica claro que além de pragmática e direta, Erica guia-se por um senso de moral próprio que a conduzirá a tensões e conflitos com a sua própria organização. Os monstros que matam crianças são sombrios e aterradores, mas os que os caçam também têm um lado obscuro…
Além da história, os leitores não ficarão indiferentes ao estilo da BD através da arte Dell’Edera, que se entregou a um desenho altamente expressivo de traços mais soltos, carregados de energia e emoção. A ausência de detalhes em fundos eleva o foco visual dado a personagens e criaturas, cujas formas são quase abstratas e dignas de se confundirem com sombras, detendo uma natureza etérea e distinta do nosso mundo material. Por outro lado, é o colorista Miquel Muerto que explora uma essência de cores frias ou mais sombrias, procurando usar vermelhos saturados em cenas de tensão ou violência como um absoluto contraste as atmosferas presentes da série, coerentes com as visões de um mundo de puro desconforto.
A série conta com um spin-off popular, House of Slaughter, a ordem secreta que é responsável por caçar os monstros e da qual a personagem principal de Something is Killing the Children, Erica Slaughter, faz parte. Elevam-se assim as expectativas que este universo continue a expandir-se. Comparada já a sucessos como Stranger Things e It de Stephen King, para quem aprecia histórias que lidam com horrores ou monstruosidades que conduzem sempre à perda de inocência dos mais novos, quase nunca ou raramente validados e reconhecidos por adultos, Something is Killing the Children merece o seu destaque.
O primeiro volume de Something is Killing the Children publicado pela Devir conta com a tradução de Guilherme Miranda, a legendagem de Equipa Brasil, o «copy-edit» de Manuel Xavier, a revisão de Ana Raquel Santos, a adaptação gráfica de Ana Lopes, contando ainda com a colaboração do diretor de produção Nuno Murjal e do editor Rui Santos. É um volume com mais de 130 páginas, a cores, de capa mole, que inaugura uma série em nítida expansão, que muitos não irão deixar de recomendar e ler.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural







