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Jogos: Hell is Us – Análise

Hell is Us é uma mistura brutal de exploração, mistério e combate imperfeito num mundo sem mapas nem marcadores.

Hell is Us

Jogo: Hell is Us
Disponível para: PC, PlayStation 5, Xbox Series
Versão testada: PC
Desenvolvedor:  Rogue Factor
Editora: Nacon

Hell is Us

Aqui está a ideia: Hell is Us não pega na tua mão. Não há marcadores brilhantes de missões, nem minimapa, nem trilha de migalhas de pão. Só tu, os teus instintos e um país arruinado chamado Hadea, destruído pela guerra e assombrado por criaturas monocromáticas. Essa escolha de design, por si só, já é suficiente para dividir jogadores, para alguns é refrescante, para outros soa a castigo antiquado. Pessoalmente, acho que é a carta mais forte do jogo, mesmo que tropece de vez em quando.

A exploração aqui é tudo. Os criadores retiraram deliberadamente a maioria das conveniências modernas, deixando-te realmente a ler notas, ouvir NPCs e observar o ambiente em busca de pistas subtis. É exigente de uma forma que a maioria dos jogos contemporâneos não é e, quando resulta, compensa. Resolver um enigma sem ajudas sabe a conquista, quase como decifrar um código na tua cabeça. Mas o reverso da medalha? Por vezes vais dar por ti a rabiscar palavras-passe num caderno ou a andar em círculos porque perdeste um detalhe que o jogo não repete. Para quem adora imersão e atenção quase de detective, é brilhante. Para quem prefere um ritmo mais fluido, pode ser cansativo.

Hell is Us

Hadea em si é um dos pontos altos. O mundo respira atmosfera, aldeias desertas, ruas devastadas pela guerra e paisagens surreais marcadas por forças sobrenaturais. É inquietante e belo, o tipo de ambiente que dá vontade de explorar mesmo quando se torna opressivo. Infelizmente, a narrativa não acompanha o cenário. Os temas, crimes de guerra, luto, brutalidade, são pesados e intransigentes, mas o protagonista, Rémi, não consegue carregar esse peso. O seu arco é previsível, a sua personalidade plana, e o final deixa mais um suspiro do que um murro no estômago. O lore que envolve o mundo? Fantástico. A trama central? Nem por isso.

É no combate que Hell is Us tropeça a sério. No papel, é um sistema “souls-like”: gestão de stamina, parries, esquivas e um sistema agressivo de cura inspirado em Bloodborne. Parece ótimo, certo? A execução, no entanto, torna-se repetitiva. A variedade de inimigos é surpreendentemente limitada, os bosses pouco mais são do que inimigos normais reforçados, e o sistema de lock-on é pouco fiável. Tens quatro tipos de armas corpo-a-corpo e um drone de apoio com truques melhoráveis, mas nada disso esconde o facto de que os combates acabam por se misturar uns nos outros. Não é completamente mau, tem momentos tensos, mas, em comparação com o ciclo de exploração forte do jogo, o combate sente-se como o elo fraco.

Há também outras frustrações: paredes invisíveis, missões secundárias com limite de tempo que podem falhar sem aviso, e texto demasiado pequeno que cansa a vista. Estas decisões de design parecem desnecessariamente hostis, sobretudo quando o resto do jogo tenta mergulhar-te na experiência. Felizmente, o lado técnico é sólido, framerate estável, sem bugs de relevo, visuais belíssimos e um design sonoro imersivo. A direção artística e a atmosfera fazem grande parte do trabalho e, se jogares com auscultadores, o áudio aprofunda ainda mais a experiência. A dobragem, no entanto, sobretudo a de Rémi, não acompanha a gravidade emocional que o jogo tenta transmitir.

Hell is Us

E a rejogabilidade? Não contes com muito. Uma vez descobertos os segredos de Hadea, já os viste. Uma run dura cerca de 30–40 horas e, sem escolhas ramificadas ou finais alternativos, há pouco incentivo para voltar.

Então, onde fica Hell is Us? É um jogo com ideias ousadas e um compromisso com a exploração que admiro genuinamente. Confia mais no jogador do que a maioria dos títulos atuais, e isso é refrescante. Mas também está preso a um combate trapalhão, personagens fracas e algumas decisões de design difíceis de entender. Se és do tipo de jogador que vive da atmosfera, do mistério e da emoção de descobrir as coisas sem uma seta luminosa a apontar o caminho, este jogo vai prender-te. Se procuras ação fluida ou uma narrativa poderosa, podes sair desapontado.

Hell is Us

Resta concluir que Hell is Us é ambicioso, atmosférico e recompensador para exploradores, mas as falhas no combate e na narrativa impedem-no de alcançar a grandeza.

Nota Final: 7/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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