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Análise BD: Michael Moorcock – Elric

Há adaptações que são ecos. E há adaptações que são ressurgimentos. A série Elric de Blondel e Kano tenta ser as duas. Toma o universo de Michael Moorcock — esse eterno ciclo do herói condenado — e mergulha nele com o zelo de quem manuseia uma relíquia, mas com a fúria de quem a quer reescrever à própria imagem.

Blondel não se limita a adaptar — ele reformula. Rasga a estrutura clássica do romance pulp e planta nela o germe de uma tragédia moderna.

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 Elric, o imperador albino de Melniboné, não é aqui apenas um anti-herói niilista. Ele é uma figura shakespeariana sobterrada pela decadência do mundo e pelo peso de uma lucidez que é quase maldição. A decadência do império dos Dragões torna-se um espelho de Elric, e Blondel sabe explorar isso com uma escrita que vibra entre o poético e o brutal. E aqui, convenhamos, há momentos em que as palavras não são diálogos, mas maldições murmuradas entre dentes cerrados.

Jean-Luc Kano (com a ajuda de Robin Recht e depois Julien Telo) acrescenta peso ao corpo da obra — peso visual. 

A arte é escura, densa, quase sufocante. Há uma paleta de ocres e negros que não convida, mas confronta. As criaturas, os feiticeiros, os reinos e horrores dos planos múltiplos são representados com uma fidelidade violenta ao espírito do caos. E, no entanto, entre o grotesco e o majestoso, há uma composição clara: nada está ali por acaso. O horror é arquitetura.

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Mas não é uma obra sem tropeços. Há instantes em que a grandiloquência engole o ritmo. O texto, por vezes, mastiga mais do que digere, querendo sempre lembrar o leitor da sua ambição literária. O silêncio — aquele espaço onde a BD respira — é por vezes invadido por uma verborreia mitológica que, ao estilo de um manuscrito sagrado, exige reverência em vez de entrega.

E talvez aqui resida o maior mérito (e perigo) da série: Elric de Blondel e Kano não quer apenas contar uma história. Quer ser um monumento. Quer entronizar Elric não como um herói trágico, mas como um arquétipo absoluto. E, como qualquer monumento, oscila entre o sublime e o estático.

Mas quando acerta — e acerta mais vezes do que falha — esta série revela-se uma das mais poderosas reinvenções do universo de Moorcock em BD. Há alma, há sangue, e há uma estranha ternura no olhar perdido de Elric enquanto segura a espada Stormbringer. Uma ternura que nem ele compreende. E é nesse instante que a obra alcança o que poucos ousam: o caos comovente. 

Impossível deixar de referir como este mítico personagem de Moorcock influenciou tantas obras. Querem exemplos?

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Filmes influenciados

  • Conan, o Bárbaro (1982) – embora Conan de Howard seja anterior, a adaptação cinematográfica acabou por beber da aura melancólica e sombria de Elric. O visual de alguns feiticeiros e a noção de espada amaldiçoada têm ecos claros.

  • O Senhor dos Anéis (trilogia de Jackson) – Elric não influenciou Tolkien, mas muitos cineastas e criadores inspirados por Elric usaram essa estética para dar um tom mais sombrio às adaptações. Jackson é um deles.

  • Krull (1983) e outros filmes de fantasia dos anos 80 trazem elementos de anti-heróis decadentes e armas mágicas que lembram Stormbringer (a espada de Elric).

    Hellboy e o Exército Dourado (2008) o realizador Guillermo Del Toro claramente homenageou o personagem com o príncipe albino Nuada interpretado por Luke Goss.

Séries influenciadas

  • Guerra dos Tronos (2011–2019) – George R.R. Martin já disse que Moorcock foi uma influência. O lado moralmente cinzento, casas nobres em declínio e protagonistas trágicos lembram muito Elric. Os cabelos brancos dos Targaryen não enganam…

  • The Witcher (2019– ) – Andrzej Sapkowski bebeu claramente de Moorcock: Geralt partilha a ideia de mutante/mago amaldiçoado, a espada negra como extensão da alma e o tom melancólico. Mais um personagem com o cabelo oxigenado até ao limite 😅

  • Castlevania (Netflix) – o Alucard da série (meio-vampiro, pálido, espadachim atormentado) é quase um reflexo animado de Elric.

 Outras influências culturais

  • Anime/mangá – personagens como Sephiroth (Final Fantasy VII) ou Griffith (Berserk), Dante (Devil may cry),têm raízes diretas em Elric: guerreiros pálidos, carismáticos, trágicos, com espadas amaldiçoadas.

  • Música – bandas de metal como Blue Öyster Cult, Hawkwind e Cirith Ungol cantaram sobre Elric e Stormbringer.

  • RPGs – Dungeons & Dragons (espadas inteligentes/malditas, planos múltiplos) e Warhammer (os elfos negros de Naggaroth são inspirados em Melniboné).

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Duas espadas, dois reflexos: Elric segundo Blondel vs. Craig Russell

Há personagens que são espelhos — e Elric de Melniboné é talvez o mais polido deles. Quando diferentes autores o adaptam, o que vemos não é apenas o albino com sua espada devoradora de almas, mas o reflexo íntimo de quem o narra.

P. Craig Russell, ao adaptar Elric nos anos 80 e 90, construiu uma obra que é antes de tudo uma ópera visual. A sua versão — especialmente em Elric: The Dreaming City — é movida por uma elegância quase clássica.

 A arte de Russell é fluída, detalhada, cheia de arabescos visuais e composições que evocam a tradição art nouveau e o romantismo europeu. 

Aqui, o caos é belo. Há um lirismo intencional, e o foco está tanto na melancolia do herói quanto na dimensão estética da tragédia. O texto de Moorcock é respeitado com reverência. É uma adaptação que caminha lado a lado com a prosa original, quase como uma partitura fiel de uma sinfonia já composta.

Julien Blondel e Kano, por outro lado, não caminham: eles invadem. A sua versão é uma reinterpretação brutalista, mais sombria, onde o romantismo cede lugar ao niilismo existencial. Não há filtros. Melniboné não é apenas um império decadente: é um inferno polido por séculos de abuso. Elric não é um dândi trágico — é um profeta do colapso.

 Aqui, a espada Stormbringer não é apenas um instrumento do destino: é um vício, uma possessão recíproca. A arte, com traços espessos, jogos de sombra agressivos e composições quase barrocas, serve uma narrativa que quer arrancar a alma do leitor, não apenas encantá-lo.

Craig Russell oferece um Elric etéreo, quase wagneriano.

Blondel oferece um Elric carnal, ferido, bíblico.

Ambas as visões têm mérito. A de Russell é uma elegia. A de Blondel, uma profecia. E Elric, o eterno campeão, suporta ambas — porque ele não pertence a nenhum mundo. Ele é o intervalo entre mundos. E cada versão apenas acrescenta um novo reflexo à sua lâmina.

Eu adorei as duas e recomendo vivamente ler ambas.

Elric é sem sombra de dúvida o expoente máximo da Dark Fantasy e é imperativo para quem é fã deste estilo. 

Eu li as versões em inglês de Russel e em francês de Blondel, mas existem versões disponíveis em português do Brasil das duas, a de Russel pela Pipoca e Nanquim e a outra pela Mythos editora. 

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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