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Cinema: Crítica – Férias de Agosto

Paolo Virzì regressa a Ventotene com Férias de Agosto, uma comédia que mistura nostalgia, humor agridoce e reflexões sobre a Itália contemporânea.

Férias de Agosto

Quase três décadas depois de Ferie d’agosto (que mesmo não tendo sido lançado em Portugal, tem o mesmo nome que esta sequela traduzido para português ) se ter tornado um filme de culto, Paolo Virzì regressa à ilha de Ventotene com Férias de Agosto, a sua décima sexta longa-metragem. O filme não é apenas uma mera sequela: é um diálogo reflexivo entre passado e presente, tanto para as suas personagens como para a própria Itália.

O filme original de 1996 foi aclamado como revolucionário: uma comédia perspicaz que colocava frente a frente duas tribos emblemáticas, os intelectuais radical-chic, liderados por Sandro (Silvio Orlando), e o clã audacioso de novos-ricos, chefiado por Ruggero (o falecido Ennio Fantastichini). Virzì captou uma Itália polarizada com afeto e ironia, num retrato que, embora satírico, se revelava profundamente honesto. A sua genialidade estava em transformar tensões sociais em humor agridoce, refletindo as divisões ideológicas que marcavam a nação. Hoje, quase trinta anos depois, os sobreviventes desses confrontos de verão regressam, acompanhados por filhos, netos e novos companheiros. O ritual das férias mantém-se, mas o tom mudou: a efervescência política dos anos 90 dá lugar a uma melancolia mais madura.

Férias de Agosto

A ausência de certos atores é sentida, embora reconhecida de forma inteligente. Fantastichini, por exemplo, reaparece sob a forma de cinzas guardadas numa urna pela sua viúva (Paola Tiziana Cruciani). Esta homenagem, simultaneamente sombria e cómica, sublinha a passagem do tempo e a inevitabilidade da mortalidade, um tema recorrente na obra de Virzì. Enquanto isso, Sandro lida com a doença, e o seu filho afastado Altiero (Andrea Carpenzano), agora milionário da tecnologia nos EUA, regressa ao seio familiar com o seu marido americano. A presença deles, juntamente com a de uma influencer fútil (Anna Ferraioli Ravel), que prepara um casamento encenado, encarna novos estereótipos: a vacuidade das redes sociais, as relações oportunistas e uma sociedade cada vez mais afastada dos seus ideais. O conflito já não é político, mas geracional: o ativismo de outrora cedeu lugar à busca incessante de validação online.

Virzì intercala flashbacks do filme de 1996 com novos conflitos, mostrando o quanto mudou – e o quanto permanece igual. O que une estas duas épocas é a capacidade do realizador de encontrar humor na tragédia. Onde antes a política dividia os clãs, hoje é o vazio deixado pela ideologia que os mantém unidos num pacto silencioso de exaustos. O cenário de Ventotene, historicamente ligado à resistência e à unidade europeia, local onde Altiero Spinelli e Ernesto Rossi redigiram o seu manifesto em 1941, reforça a ironia: Sandro sonha, saudoso, em conversar com essas figuras históricas, enquanto as gerações mais novas nem sequer sabem quem são. O filme transforma-se num lamento pela perda de memória e pela desconexão com o passado, uma metáfora para a Itália contemporânea.

Férias de Agosto

O elenco, bastante alargado mas comandado como se Virzì fosse um maestro, proporciona a energia que sempre foi marca do realizador. Christian De Sica, em particular, domina com uma força cómica crua, mas irresistível, desviando a narrativa para gargalhadas, mesmo quando a mortalidade, o arrependimento e a decadência permeiam o filme. A sua atuação, carregada de timing e espontaneidade, contrasta com o drama introspectivo de Silvio Orlando.

Férias de Agosto

Resta concluir que, com Férias de Agosto, Virzì mostra que a comédia à italiana, trágica e brincalhona em igual medida, ainda consegue iluminar a alma da nação. O resultado é agridoce: uma reunião repleta de gags e grotescos, mas assombrada pelas sombras do tempo. É um filme sobre envelhecimento, perda e adaptação a um mundo que já não reconhecemos, feito com a mesma honestidade e afeição que marcaram a obra original, mas falhando aos poucos.

Nota: 5/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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