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“Young Hearts”: quando o coração ousa dizer-se

O primeiro amor chega como um sopro inesperado, uma luz que rasga a rotina e transforma tudo à nossa volta. É uma experiência em que o mundo ainda não nos ensinou a desconfiar, em que o coração bate mais alto sem pedir permissão. Lembro-me dele como uma tarde de Verão, em que o vento parecia mais quente, os cheiros mais intensos e cada gesto tinha o peso de uma eternidade. O primeiro amor é sempre intenso, puro, ingénuo e definitivo. Não há ironia, não há cautelas; apenas a certeza íntima de que o coração decidiu desobedecer à prudência e que, de algum modo, nada será igual.

Alguns guardam essa história numa fotografia amarelada, esquecida no fundo de uma gaveta; outros regressam a ela como quem percorre ruas antigas, tentando reconhecer fachadas familiares. Há ainda quem fale de “aquele que escapou”, como se o amor fosse uma ave que pousa por segundos na mão e, antes de sabermos segurá-la, levanta voo. O primeiro amor tem a natureza de um mito pessoal: nunca mais será exactamente igual, mesmo que surjam afectos mais seguros, maduros ou duradouros.

“Young Hearts”, de Anthony Schatteman, capta essa intensidade inicial com a suavidade de quem segura algo frágil. Elias, interpretado por Lou Goossens, vive numa pequena vila onde a rotina parece deslizar sem surpresas, quase escrita de antemão. A mãe sustém a casa com ternura e atenção, escutando sem pressa cada detalhe; o pai canta em bares e centros comunitários, tentando estar presente mesmo nos intervalos da vida; o irmão mais velho namora, descobrindo o mundo como se fosse o último dia; o avô oferece a paciência dos anos, uma escuta que acolhe sem julgar. Elias tem também Valérie, a namorada “certa” para alguém da sua idade, mas dentro dele há uma hesitação silenciosa, uma ausência de chama que não consegue nomear, um desejo que ainda não encontrou palavras.

A chegada de Alexander, interpretado por Marius De Saeger, altera delicadamente o equilíbrio da vida de Elias e inflama a urgência de nomear sentimentos que ele ainda hesita em pensar ou sequer rabiscar. Vindo de Bruxelas, traz consigo a vastidão da cidade grande, o peso do luto e uma naturalidade serena ao falar da sua homossexualidade. Não há dramatizações forçadas nem segredos ocultos; existe apenas a crueza e a honestidade da verdade.

Quando Elias e Alexander se encontram sob a sombra generosa de árvores frondosas, exploram a solidão de uma mansão abandonada ou se lançam nas águas de um lago como se o mundo inteiro se resumisse àquele Verão, a amizade torna-se densa, carregada de intensidade, e a tênue fronteira entre amizade e amor começa a desfazer-se, quase imperceptível, mas irrevogavelmente.

Talvez os sentimentos de Elias coubessem inteiros em D’Amour ou d’Amitié”, na voz ainda quase adolescente de Céline Dion, como se a canção tivesse sido escrita para traduzir a sua hesitação. Convencera-se de que Alexandre pensava nele, pressentia-o no sorriso que se demorava além do necessário, no olhar que não se esquivava. Era uma certeza sem provas, uma espécie de clarividência, como se o coração, tão diferente do que sentira por Valérie, tivesse inventado a sua própria lógica.

Alexandre estava tão perto que quase lhe tocava, partilhando o mesmo ar e o mesmo silêncio. E, contudo, Elias não sabia amar, nem sabia se lhe era lícito sentir aquilo. Ficava suspenso nessa fronteira indecisa entre a amizade e o que a excede, à espera de que fosse o próprio Alexandre a baptizar o indizível que, mudo, crescia entre ambos.

O filme convida-nos a perscrutar o indizível, a prestar atenção ao que se oculta nas entrelinhas do quotidiano. A câmara demora-se nos rostos, nos gestos contidos, na suspensão de um olhar, no peso mudo das situações. Um beijo fugaz na face, um toque acidental, um sorriso que se prolonga para lá do tempo transformam-se em revoluções íntimas. É nessa minúcia que se revela a força de “Young Hearts”, onde a intensidade não se proclama em dramatismos, mas é sentida, respirada e partilhada, quase como ar que atravessa o corpo.

Crescer é, por si só, vertigem, e Schatteman compreende-o profundamente, recusando transformar o coming out em ferramenta narrativa, permitindo-lhes existir plena e silenciosamente, em comunhão com a vida que os envolve.

Elias e Alexander deslocam-se num espaço que é simultaneamente conhecido e inexplorado. A vila, a escola, o lago e os campos oferecem um alicerce de segurança, enquanto o desabrochar do afecto e do desejo lhes provoca vertigens subtis e incertezas silenciosas. As bicicletas a percorrer caminhos de terra, as casas antigas e os campos verdejantes poderiam parecer previsíveis, mas adquirem aqui uma densidade insuspeita.

A familiaridade transforma-se num gesto político, um lembrete de que as vivências queer são universais, merecem ser repetidas, sedimentando-se no imaginário comum. Não se trata de forjar originalidade artificial, antes de afirmar o direito inalienável ao reconhecimento e à pertença.

O filme reverbera com a convicção de que o primeiro amor é um espelho inesperado. Ao contemplarmos o outro, descobrimos reflexos de nós próprios com uma clareza surpreendente. Elias não apenas encontra Alexander, como também se descobre a si mesmo. A incerteza entre amizade e amor persiste, mas o coração já começou a traçar o seu próprio mapa, navegando por sentimentos até então indizíveis.

A intensidade desse primeiro amor deixará, sem dúvida, uma marca permanente na sua memória, evocando um tempo em que tudo era novo, assustador e luminoso, um período em que bastava um sorriso para acreditar que o mundo inteiro cabia na convergência de dois olhares.

A comparação com “Close”, de Lukas Dhont, é quase inevitável, mas “Young Hearts” apresenta algo distinto. Não nos arrasta para a compaixão perante a dor, antes envolve-nos na aceitação e na suavidade com que se desenrola o crescimento. Se buscarmos aproximações, Jongens” aproxima-se consideravelmente de “Young Hearts”. Ambos exploram a mesma temática, porém em momentos distintos da vida: “Young Hearts” concentra-se na adolescência, enquanto Jongens” acompanha o despertar da juventude, revelando como o mesmo sentimento se transforma à medida que se amadurece. É uma obra notável, que esteve, há algum tempo, disponível de forma gratuita e licenciada no YouTube.

Voltando a “Young Hearts”, o filme não se entrega ao choque nem ao dramatismo, antes oferece espaço para que a história seja sentida na sua inteira profundidade. Diferente de outras obras do mesmo género, a representação queer não surge como anomalia nem como curiosidade; é orgânica, genuína, intrínseca à vida que qualquer jovem pode experienciar. Parafraseando o realizador, trata-se do tipo de filme que eu teria desejado encontrar na infância, enquanto pessoa queer, capaz de iluminar silenciosamente aquele limiar de descoberta e enraizamento.

Em última instância, em “Young Hearts”, percebemos que a delicadeza encerra em si mesma uma forma de revolução e que a própria naturalidade do amor adolescente queer se revela extraordinária. Crescer é, antes de mais, experimentar; sentir é afirmar a existência; e existir é, sobretudo, conceder aos corações jovens a liberdade de se encontrarem, de se reconhecerem e de se libertarem, mesmo que apenas durante a efemeridade de um Verão.

Brasileiro, Tenório é jornalista, assessor de imprensa, correspondente freelancer, professor, poeta e ativista político. Nomeado seis vezes ao prémio Ibest e ao prémio Gandhi de Comunicação, iniciou sua carreira no jornalismo ainda durante a graduação em Geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), escrevendo colunas sobre cinema para sites, jornais, revistas e portais do Nordeste e Sudeste do Brasil.

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