Vampirella: A Heroína Sombria que Seduziu Gerações de Leitores
Uma das mais conhecidas personagens vampíricas da BD é precisamente Vampirella, que se popularizou nos EUA. Surgiu em 1969 através do escritor e editor Forrest J. Ackerman (1916 – 2008) baseando-se em Barbarella, personagem de BD francesa criada por Jean-Claude Forest (1930 – 1998), que também foi adaptada para o cinema em 1968, interpretada por Jane Fonda.
O seu desenho original proveio de Trina Robbins, que lhe deu um traje vermelho e minimalista muito característico, ainda que polémico. De início surge como uma apresentadora de histórias de terror, ligada à revista Vampirella publicada pela Warren Publishing, antes de se tornar protagonista das suas próprias aventuras.
A mudança mais importante surge a partir de 1972, quando se torna demasiado evidente para os autores que os leitores estão mais interessados nesta personagem do que em histórias independentes da revista. Assim surge a heroína pulp. Estabelece-se uma origem clara, já que Vampirella não é uma vampira terrestre: Vem de um planeta chamado Drakulon, onde os habitantes se alimentam de sangue como se fosse água.
Quando o planeta começa a ficar sem sangue para sobreviver, ela viaja para a Terra, onde passa a lutar contra criminosos, monstros e outras forças sobrenaturais. Desta forma, os leitores tiverem oportunidade de reconhecer um mundo empolgante de histórias que combinavam ficção científica com terror e fantasia com a sua personagem preferida. Naturalmente que Vampirella seduz – não apenas por ser uma figura sedutora – por ser uma figura que contrasta com os habituais heróis da BD.
Longe de ser reconhecida como um monstro ou vilã (papel que tantas vezes foi atribuído aos vampiros), ou uma figura passiva, Vampirella tornou-se uma figura de ação e usa os seus poderes para combater entidades e criaturas mais sinistras. É uma vampira que não se deixa abater pela luz solar, nem por crucifixos e não se relaciona com lendas e superstições tantas vezes estudadas por autores que se deixam inspirar para criar os seus protagonistas mais intimidadores. Há algo nela que é formidável, digno de uma guerreira que inspira temor e respeito.
Ícone do terror e da cultura pop, muito associada à arte dos anos 60-70 (século XX) que explorava a emancipação feminina em relação aos habituais heróis masculinos, ainda que surja como uma mulher idealizada, atraente e em posses sensuais (algo próprio dos pin-ups norte-americanos que já têm os seus antecedentes nos anos 40), Vampirella tornou-se uma marca de sucesso, amplamente desejada, inspirando outras personagens.
Os seus direitos passaram para a Harris Comics nos anos 90 e posteriormente adquiridos pela Dynamite Entertainment desde 2010. A partir de então, a história de origem da personagem passou por várias alterações: Em 1990, com a editora Harris Comics, Vampirella é descrita como filha de Lilith e não é alienígena; Drakulon é na realidade um reino no Inferno.
Já através da Dynamite Entertainment se descobre que Drakulon faz parte de uma realidade alternativa. As mudanças tornam-se mais claras com o passar do tempo, já que Vampirella surgiu nos últimos anos como uma figura mais complexa, introspetiva, menos sexualizada, em que as suas histórias acabam por ser mergulhadas num teor mais profundo e dramático. Dentro deste contexto, tem sido o escritor Christopher Priest (n.1961) o maior responsável por alterar o conteúdo e o desenvolvimento psicológico da personagem: Reestruturou a sua história com revelações progressivas sobre a sua verdadeira origem além desse enquadramento em múltiplas linhas temporais, cujo maior efeito é a exploração do trauma, da identidade e do seu destino.
Uma vez que diferentes autores sempre se interessaram pela personagem, é de se prever que Vampirella venha a seduzir novas e diferentes gerações de fãs por todo o mundo. Fora do universo da BD a personagem ainda não foi amplamente explorada, apesar de ter surgido um filme de baixo orçamento em 1996 realizado por Jim Wynorski.
Em Portugal Vampirella não tem propriamente uma legião de fãs. Mas é uma referência cultural obrigatória, não só para quem gosta de BD como para os que apreciam histórias de vampiros.
Precocemente surgiu a revista portuguesa Zakarella (APR) nos anos 70, inspirada diretamente em Vampirella e que era dedicada ao fantástico e terror: A tradução e adaptação das histórias da revista americana, ainda que escassas, revelam um importante passo dado em relação a esta temática e ao reconhecimento de uma figura icónica que, mais cedo ou mais tarde, sempre poderá ressurgir através de edições especiais ou iniciativas semelhantes (esperamos nós).
Em Outubro de 2001 surge no nosso país Vampirella Vive, escrito por Warren Ellis e com arte de Amanda Conner e Jimmy Palmiotti, e, no ano seguinte, é lançado Vampi – Amor Sangrento, de David Conway e Kevin Lau, com as aventuras futurísticas de uma longínqua descendente de Vampirella ambientadas num ambiente cyberpunk (mas sobre a Vampi fica para outro dia). Ambas as obras foram publicadas pela Devir.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural







É interessante como a Vampirella pegou elementos de Barbarella e a transformou em algo tão único. A influência de Forest e Ackerman é fundamental para entender o sucesso da personagem.