Universal Pictures prolonga exclusividade nos cinemas
A indústria cinematográfica voltou a olhar para os cinemas como o centro da sua estratégia comercial. A Universal Pictures anunciou que vai prolongar o período de exibição exclusiva dos seus filmes nas salas de cinema, num movimento que marca uma mudança clara face à política adotada durante os anos da pandemia.

Segundo informações avançadas pelo New York Times, o estúdio compromete-se agora com um mínimo de cinco fins de semana de exclusividade em sala a partir de 2026. A partir de 2027, esse período deverá aumentar para sete fins de semana antes de qualquer estreia nos formatos de entretenimento doméstico.
A decisão surge como uma inversão da estratégia adotada no início da década. Durante o período mais crítico da pandemia de COVID-19, a Universal tinha sido um dos estúdios mais agressivos na redução da chamada “janela de exibição em cinema”, chegando a acordos com os principais exibidores que permitiam lançar filmes em plataformas digitais apenas 17 dias após a estreia nos cinemas.

Para os exibidores, esta mudança representa uma vitória importante. Durante anos, os proprietários de salas defenderam que o encurtamento das janelas de exclusividade estava a desvalorizar a experiência cinematográfica, incentivando o público a esperar poucas semanas para ver os filmes em casa. Antes da pandemia, era comum que um filme permanecesse cerca de 90 dias em exclusivo nas salas. Após o choque provocado pela crise sanitária, essa média caiu para cerca de 45 dias.
Donna Langley, responsável pelo entretenimento da NBCUniversal, explicou que a estratégia de janelas de exibição continuará a evoluir com o mercado, mas sublinhou a importância da exclusividade cinematográfica para manter um ecossistema saudável entre estúdios e exibidores.

A Universal não está sozinha neste reposicionamento. A Warner Bros. tem mantido nos últimos anos uma janela média de cerca de 45 dias para os seus lançamentos. Também a Paramount Pictures, atualmente em articulação estratégica com a Skydance Media, assumiu o compromisso de garantir pelo menos esse período de exclusividade, podendo prolongá-lo até 60 ou 90 dias quando os filmes apresentam resultados fortes nas bilheteiras.

O caso mais emblemático desta estratégia foi o fenómeno de Top Gun: Maverick, protagonizado por Tom Cruise. O filme permaneceu mais de quatro meses em exclusivo nas salas, um período muito acima da média recente, ajudando a impulsionar uma receita global de quase 1,5 mil milhões de dólares.
Também a The Walt Disney Company tem voltado a apostar em janelas longas. Filmes como Wish: O Poder dos Desejos permaneceram cerca de dois meses nos cinemas antes da estreia em VOD e mais de quatro meses antes de chegarem ao streaming. Já Divertida-Mente 2 teve um compromisso mínimo de cerca de 100 dias em sala. Mais recentemente Zootrópolis 2 usufruiu de uma janela exclusiva de nove fins-de-semana nas salas de cinema, antes de ser disponibilizado nos videoclubes. Quinze semanas depois da estrea nos cinemas a aventura dos improváveis detectives Judy Hopps e Nick Wilde chegou ao streaming do Disney+.
Avatar: Fogo e Cinza, realizado por James Cameron, chegou aos cinemas em dezembro e três meses depois ainda não existe data confirmada para lançamento no VOD e muito menos para ser disponibilizado no streaming.

Para mercados como Portugal, estas decisões têm implicações relevantes. Nos últimos anos, os filmes de grande estúdio passaram a estrear praticamente em simultâneo com a América do Norte, uma estratégia que ajudou a reduzir a pirataria e a alinhar o calendário global de lançamentos.
Apesar da disponibilidade em formatos digitais nem sempre seguir o mesmo ritmo, os filmes chegaram aos videoclubes das operadoras portuguesas alguns dias/semanas após os lançamentos norte-americanos em VOD.
Na prática, quando um filme passa rapidamente do cinema para soluções domésticas, torna-se quase inevitável a sua circulação em plataformas de partilha pirata. E o fenómeno da pirataria, que parecia ter abrandado com o crescimento das plataformas legais de streaming, voltou recentemente a mostrar sinais de agressividade dado a dispersão de conteúdos.
É precisamente esse equilíbrio que os estúdios procuram agora reencontrar. Uma janela mais longa em sala aumenta o potencial de receita nas bilheteiras, reforça o valor cultural da experiência cinematográfica e reduz o risco de que um lançamento digital demasiado precoce alimente a distribuição ilegal.
Se esta tendência se consolidar, os próximos anos poderão marcar um novo capítulo na relação entre Hollywood, os exibidores e o público. Um regresso gradual a janelas de exclusividade mais longas poderá ajudar a recentrar o cinema no lugar onde nasceu para ser visto: o grande ecrã.
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

