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Universal Pictures prolonga exclusividade nos cinemas

A indústria cinematográfica voltou a olhar para os cinemas como o centro da sua estratégia comercial. A Universal Pictures anunciou que vai prolongar o período de exibição exclusiva dos seus filmes nas salas de cinema, num movimento que marca uma mudança clara face à política adotada durante os anos da pandemia.

A Odisseia
“A Odisseia”, de Christopher Nolan, tem um compromisso mínimo de cinco fins-de-semana exclusivos nas salas de cinema

Segundo informações avançadas pelo New York Times, o estúdio compromete-se agora com um mínimo de cinco fins de semana de exclusividade em sala a partir de 2026. A partir de 2027, esse período deverá aumentar para sete fins de semana antes de qualquer estreia nos formatos de entretenimento doméstico.

A decisão surge como uma inversão da estratégia adotada no início da década. Durante o período mais crítico da pandemia de COVID-19, a Universal tinha sido um dos estúdios mais agressivos na redução da chamada “janela de exibição em cinema”, chegando a acordos com os principais exibidores que permitiam lançar filmes em plataformas digitais apenas 17 dias após a estreia nos cinemas.

“O Dia da Revelação”, de Steven Spielberg, vai usufrir do novo acordo da Universal Pictures

Para os exibidores, esta mudança representa uma vitória importante. Durante anos, os proprietários de salas defenderam que o encurtamento das janelas de exclusividade estava a desvalorizar a experiência cinematográfica, incentivando o público a esperar poucas semanas para ver os filmes em casa. Antes da pandemia, era comum que um filme permanecesse cerca de 90 dias em exclusivo nas salas. Após o choque provocado pela crise sanitária, essa média caiu para cerca de 45 dias.

Donna Langley, responsável pelo entretenimento da NBCUniversal, explicou que a estratégia de janelas de exibição continuará a evoluir com o mercado, mas sublinhou a importância da exclusividade cinematográfica para manter um ecossistema saudável entre estúdios e exibidores.

Shrek 5
Para a estreia de “Shrek 5”, a distribuidora projeta sete semanas exclusivas para exibição nas salas de cinema

A Universal não está sozinha neste reposicionamento. A Warner Bros. tem mantido nos últimos anos uma janela média de cerca de 45 dias para os seus lançamentos. Também a Paramount Pictures, atualmente em articulação estratégica com a Skydance Media, assumiu o compromisso de garantir pelo menos esse período de exclusividade, podendo prolongá-lo até 60 ou 90 dias quando os filmes apresentam resultados fortes nas bilheteiras.

Top Gun: Maverick

O caso mais emblemático desta estratégia foi o fenómeno de Top Gun: Maverick, protagonizado por Tom Cruise. O filme permaneceu mais de quatro meses em exclusivo nas salas, um período muito acima da média recente, ajudando a impulsionar uma receita global de quase 1,5 mil milhões de dólares.

Também a The Walt Disney Company tem voltado a apostar em janelas longas. Filmes como Wish: O Poder dos Desejos permaneceram cerca de dois meses nos cinemas antes da estreia em VOD e mais de quatro meses antes de chegarem ao streaming. Já Divertida-Mente 2 teve um compromisso mínimo de cerca de 100 dias em sala. Mais recentemente Zootrópolis 2 usufruiu de uma janela exclusiva de nove fins-de-semana nas salas de cinema, antes de ser disponibilizado nos videoclubes. Quinze semanas depois da estrea nos cinemas a aventura dos improváveis detectives Judy Hopps e Nick Wilde chegou ao streaming do Disney+.

Avatar: Fogo e Cinza, realizado por James Cameron, chegou aos cinemas em dezembro e três meses depois ainda não existe data confirmada para lançamento no VOD e muito menos para ser disponibilizado no streaming. 

“Avatar: Fogo e Cinza”, de James Cameron, estreou a 17 de dezembro nos cinema e deverá chegar no final de março ao VOD

Para mercados como Portugal, estas decisões têm implicações relevantes. Nos últimos anos, os filmes de grande estúdio passaram a estrear praticamente em simultâneo com a América do Norte, uma estratégia que ajudou a reduzir a pirataria e a alinhar o calendário global de lançamentos.

Apesar da disponibilidade em formatos digitais nem sempre seguir o mesmo ritmo, os filmes chegaram aos videoclubes das operadoras portuguesas alguns dias/semanas após os lançamentos norte-americanos em VOD.

Na prática, quando um filme passa rapidamente do cinema para soluções domésticas, torna-se quase inevitável a sua circulação em plataformas de partilha pirata. E o fenómeno da pirataria, que parecia ter abrandado com o crescimento das plataformas legais de streaming, voltou recentemente a mostrar sinais de agressividade dado a dispersão de conteúdos.

É precisamente esse equilíbrio que os estúdios procuram agora reencontrar. Uma janela mais longa em sala aumenta o potencial de receita nas bilheteiras, reforça o valor cultural da experiência cinematográfica e reduz o risco de que um lançamento digital demasiado precoce alimente a distribuição ilegal.

Se esta tendência se consolidar, os próximos anos poderão marcar um novo capítulo na relação entre Hollywood, os exibidores e o público. Um regresso gradual a janelas de exclusividade mais longas poderá ajudar a recentrar o cinema no lugar onde nasceu para ser visto: o grande ecrã.

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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