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Train Dreams (2025) – As minudências de uma vida inteira

Entre a banalização da violência e a sensibilidade de um homem, Train Dreams, de Clint Bentley, afirma-se como um filme de escala íntima, mas com grande ressonância. Adaptando a novela de Denis Johnson, acompanha Robert Grainier ao longo das primeiras décadas do século XX e concentra-se em como a dureza do trabalho, da paisagem e do tempo se inscreve no corpo e na consciência de um sujeito comum. Em vez de inflacionar o material num épico de miséria, Bentley estreita o foco: atenua algumas ambivalências morais e deixa de fora zonas mais sombrias do texto, não por pudor, mas para recusar o sublinhado do drama histórico e manter o olhar fixo na experiência interior de Grainier. A violência, sobretudo a que recai sobre os mais vulneráveis, aparece como parte do ruído de fundo do progresso. É nesse contraste que nasce uma culpa sentida como falha individual por um mal que é, na verdade, coletivo.

Train Dreams' review: A dreamlike journey in a disappearing world | AP News

Na fotografia, a imagem e o sentido caminham juntos e cada plano é tão bonito quanto o que procura dizer. A floresta, os trilhos e a casa isolada são filmados com uma atenção que apela à beleza de um postal ilustrado. A simplicidade do enredo abre espaço para que a luz, os enquadramentos e os sons naturais carreguem o peso do que não é falado. Há um corte de montagem em particular que nos leva de uma ponte atravessada por carros contemporâneos para a janela de um comboio na época da narrativa. Nesse gesto, fica condensado tudo o que o filme pensa sobre o tempo: as gerações sucedem-se, o passado torna-se obsoleto, mas permanece uma linha invisível que liga os fragmentos.

A narração omnisciente de Will Patton funciona como fio condutor dessa linha. A voz regressa ao longo do filme e organiza a vida do protagonista à distância, pontuando momentos-chave e abrindo intervalos em que a imagem respira por si. O efeito é duplo. Por um lado, relativiza cada episódio individual ao introduzi-lo no arco de uma existência completa. Por outro, lembra que só ganha peso aquilo a que, consciente ou inconscientemente, escolhemos atribuir importância.

Train Dreams' Review: Joel Edgerton Finds Beauty in an Ordinary Life

Joel Edgerton encontra aqui um papel subtil, mas oportuno. O Robert que encarna é um homem de poucas palavras, à primeira vista opaco, mas atravessado por uma sensibilidade que parece deslocada num ambiente marcado pelo trabalho bruto e pela sobrevivência. A câmara nunca o capta como herói ou como mártir. Vê-o como alguém em quem a perda, a culpa e uma sensação difusa de castigo religioso, moral ou simplesmente existencial, se acumulam até moldarem a forma como se vê e como vê o mundo.

O encontro com a menina que ele supõe ser a filha perdida cristaliza o que o filme tem de mais interessante. A realidade nunca surge como bloco sólido e objetivo. Aparece filtrada pelo desejo, pelo luto e pela necessidade de acreditar, nem que seja por um instante, que ainda é possível reparar o irreparável. Neste universo, ser “diferente” significa recusar a anestesia emocional que a época parece exigir e não esquecer que qualquer visão do real passa sempre pela lente da subjetividade.

No desfecho, Robert reconhece uma coerência improvável no que viveu. Não se trata de uma redenção nem de uma epifania, mas de uma lucidez que imprime sentido ao percurso. A sua trajetória discreta ganha peso não por ser excecional, mas por conter em si as minudências de uma vida inteira.

Classificação: 8/10

Pedro Rolino

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.

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