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Song Sung Blue (2026) – Sonhos e baladas

Song Sung Blue é um filme com aspetos sobejamente reconhecíveis, onde o melodrama e o espetáculo caminham lado a lado com melodias que pertencem ao imaginário coletivo. Ainda assim, entre a extravagância visual e as cançonetas de Neil Diamond, surgem momentos de entretenimento capazes de sustentar a experiência e torná-la agradável.

Craig Brewer constrói o enredo a partir de um documentário de Greg Kohs e aposta numa perspetiva que privilegia o calor humano das personagens. Ao abraçar o tom popular da história e ao enfeitar a sua própria simplicidade, o realizador não disfarça mecanismos narrativos, havendo uma previsibilidade constante na pulsação dramática e nos diálogos afetos ao sentimentalismo.

Apesar disso, o filme ganha bastante com o trabalho dos seus atores principais. Hugh Jackman, numa das suas incursões fora do papel de super-herói que se tornou quase uma segunda pele, interpreta Mike “Lightning” Sardina com a destreza de quem encara a passagem entre o cinema e o palco como mera extensão do mesmo gesto artístico. A energia com que canta e atua revela uma vivacidade ímpar, em muito potenciada por Kate Hudson, que encarna Claire “Thunder” Sardina. Tão parceira musical quanto de vida, apresenta traços que evocam os momentos mais inspirados da atriz em Almost Famous, reencontrando aqui um espaço onde carisma e vulnerabilidade coexistem sem esforço aparente.

O contexto de uma banda de tributo criada à margem do fulgor do novo rock que começava a afirmar-se nos anos 90, dedicada a um músico de baladas, oferece à trama um enquadramento característico e, por vezes, surpreendente, mesmo que não se livre da ideia de instrumentalização. De destacar, o retrato da ocasião em que o casal Lightning & Thunder partilhou o palco com Eddie Vedder, abrindo um concerto dos Pearl Jam em 1995.

Song Sung Blue mantém-se, então, à tona porque consegue expor, de forma razoavelmente cativante, a dimensão efémera do sonho artístico e a ideia adjacente de o perseguir com uma paixão mais inocente do que ingénua. Insere-se na tendência recente das biografias musicais que preferem o conforto da fórmula estabelecida, mas, não por acaso, oferece também um produto reconfortante e orelhudo o suficiente para merecer o benefício da familiaridade, tal como sucede com a música Sweet Caroline.

Classificação: 6/10

Pedro Rolino

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.

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