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Netflix não é amiga dos cinemas

A Netflix conquistou pela primeira vez o topo da bilheteira norte-americana com Guerreiras do K-Pop  — um feito histórico, mas também polémico. O valor de 19 milhões de dólares não foi revelado pela própria plataforma, mas sim estimado por estúdios rivais e empresas dedicadas às bilheteiras norte-americanas. E, mesmo perante esse sucesso, a atitude da empresa mantém-se: as salas de cinema, para a Netflix, não são prioridade.

K Pop - Demon Hunter
Guerreiras do K-Pop 

A estratégia da Netflix continua a ser clara: o essencial é manter os assinantes na plataforma, consumir “conteúdo” em casa e reforçar o seu ecossistema digital. As estreias em sala servem apenas dois propósitos: campanhas de prémios (nomeadamente os Óscares) e um toque de prestígio que alimenta a relação com alguns criadores.

Frankenstein
Frankenstein

Títulos de peso estão a caminho, como Frankenstein, de Guillermo del Toro, Jay Kelly, de Noah Baumbach e com George Clooney e Adam Sandler, A House of Dynamite, de Kathryn Bigelow, e As Crónicas de Nárnia, de Greta Gerwig, prometida com estreia em IMAX em 2026. Mas esses filmes são exceções, e mesmo assim podem não ser lançados em todos os mercados cinematográficos, como o caso português.

A House Of Dynamite
A House Of Dynamite

As últimas estreias da Netflix nos cinemas portugueses confirmam essa estratégia limitada: Assassino Profissional, de Richard Linklater com Glen Powell, e O Assassino, de David Fincher com Michael Fassbender. Apesar da receção morna do público português, ambos os filmes permaneceram em cartaz durante algumas semanas, revelando que existe espaço para títulos da plataforma em circuito comercial.
No entanto, no modelo Netflix, a exibição em cinema nunca é regra — é uma estratégia pontual, limitada e controlada.

Jay Kelly
Jay Kelly

Se a Netflix mantém a resistência, a Apple Films já demonstrou que pode colher dividendos no grande ecrã. Depois de Napoleão, de Ridley Scott, ou Assassinos da Lua das Flores, de Martin Scorsese, F1, protagonizado por Brad Pitt, ultrapassou os 600 milhões de dólares nas bilheteiras mundiais em apenas nove semanas, provando que a aposta nas salas de cinema foi certeira.

No entanto, a mesma Apple seguiu um caminho oposto logo a seguir com Céus e Infernos, de Spike Lee e com Denzel Washington: poucas salas, quase sem divulgação e, apesar da procura do público, uma estreia que passou despercebida.

F1

A Amazon, através da Prime Video, testou recentemente o modelo de “rampa de lançamento” para o streaming, estreando títulos como The Accountant 2 – Acerto de Contas, com Ben Affleck, e Red One: Missão Secreta, com Dwayne Johnson. O sucesso nas salas foi limitado, mas as estreias funcionaram como palco publicitário para reforçar a visibilidade no serviço de streaming de Jeff Bezos.

Red One
Red One: Missão Secreta

Já a Disney parece ter aprendido com os erros cometidos durante a pandemia, quando privilegiou a estreia direta no Disney+. Dois projetos originalmente pensados para a plataforma transformaram-se em êxitos expressivos no grande ecrã: Vaiana 2 e a versão em imagem real de Lilo & Stitch. As bilheteiras globais comprovaram que o estúdio do rato Mickey procura fazer as pazes com os exibidores — e com o público que continua a ver no cinema a experiência ideal.

Vaiana 2
Vaiana 2

Para as salas de exibição, a relação com a Netflix é um dilema. Por um lado, nomes de prestígio como Martin Scorsese (O Irlandês), Rian Johnson (Glass Onion: Um Mistério Knives Out), Guillermo del Toro (Pinóquio) ou Spike Lee (Da 5 Bloods – Irmãos de Armas) atraem público e geram impacto mediático. Por outro, ao aceitarem estreias mínimas de duas a quatro semanas, os cinemas estão a reforçar o modelo que os ameaça: um sistema em que a sala serve apenas de vitrine para o streaming. Nenhum destes títulos teve lugar nas salas portuguesas.

O Irlandês

A crítica mais dura vem de quem defende o cinema como experiência cultural: imersiva, coletiva, livre de distrações. Ao reduzir filmes a “conteúdo” descartável, estas plataformas contribuem para a erosão dessa vivência — e ameaçam a sustentabilidade de uma indústria que depende do grande ecrã.

Glass Onion: Um Mistério Knives Out

No fundo, a batalha não é apenas económica, mas cultural. A velha Hollywood ainda acredita na sala de cinema como coração da indústria. Já a Netflix — e outros gigantes tecnológicos — veem cada hora passada fora da sua plataforma como ameaça.

E a pergunta que fica é simples:
Será que filmes sonantes conseguirão mesmo mudar a posição da Netflix?
Ou continuarão a ser apenas exceções numa estratégia que considera o cinema uma relíquia do passado?

 

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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