Central Comics

Banda Desenhada, Cinema, Animação, TV, Videojogos

I Swear – Que se f*da a rainha (2026)

Escrito e realizado por Kirk Jones, I Swear baseia-se na vida do escocês John Davidson, que se tornou conhecido do público britânico através do documentário John’s Not Mad. A narrativa inicia-se em 1983 e acompanha diferentes momentos do seu percurso até à idade adulta, apresentando alguém que cresceu com Tourette numa sociedade onde conhecimento sobre a síndrome era escasso e o preconceito dominava.

No primeiro quarto de hora, Scott Ellis Watson assume a figura de John ainda adolescente, assustado e confuso frente a manifestações patológicas que nem ele próprio compreende. Apesar de se tratar de uma presença breve, o ator estreante cumpre com primor a tarefa de introduzir a personagem, fixando, desde logo, a dimensão humana da história e incitando-nos a um vínculo imediato. A partir de então, quando Robert Aramayo surge para dar corpo à versão adulta, o retrato evolui para um cruzamento natural entre genuinidade, simplicidade e rebeldia moldada por origens modestas, às quais se junta ainda um charme espontâneo e vulnerável.

À volta deste eixo, constrói-se um conjunto de interpretações que se sustenta com segurança. Maxine Peake, Peter Mullan e Shirley Henderson compõem um ambiente familiar onde a tensão quotidiana convive com gestos de proteção e incentivo, dúvidas silenciosas e uma ideia de comunidade que se forma lentamente. Os moldes da dinâmica entre estas figuras escusam-se de grandes explosões dramáticas, assentando, antes, em momentos discretos que os tornam mais robustos.

O argumento revela a sua maior virtude na forma como evita transformar a experiência de Davidson num objeto de dramatização excessiva. Jones prefere expor o quotidiano e permitir que as incongruências da sua condição (os tiques verbais ou físicos que irrompem de forma inesperada) atravessem as situações com a mesma naturalidade com que surgem na vida real. Essa interferência na ordem das cenas produz várias instâncias de humor orgânico e que quase sempre trazem consigo um desfecho que lhes devolve peso. A cadência cómica, profundamente britânica no ritmo e no mundanismo, convida à proximidade do nosso olhar, sem nunca afastar a piada do contexto.

O que surte é, assim, um filme que atrai pela dignidade com que trata a temática e a pessoa representadas. Ao abordar a trajetória de John com mão firme, mas discreta, I Swear acaba por conseguir, em simultâneo, transmitir a mensagem pretendida, sobre a importância da compreensão como requisito para a inclusão, e alcançar o patamar da excelência.

Classificação: 9/10

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Verified by MonsterInsights