Entrevista a Erik Larsen: Savage Dragon e uma vida dedicada à BD
Erik Larsen é um dos nomes incontornáveis da banda desenhada americana contemporânea. Cofundador da Image Comics, autor de Savage Dragon e responsável por passagens memoráveis por personagens como o Homem-Aranha, Larsen construiu uma carreira marcada pela independência criativa, longevidade e uma visão muito própria sobre o meio.
Nesta entrevista, o autor fala sobre como começou a ler e a criar comics, as influências que moldaram o seu percurso, a relação com a banda desenhada europeia, a experiência de trabalhar em personagens icónicas da Marvel, e o risco — que acabou por mudar a indústria — de fundar a Image Comics nos anos 90. Uma conversa honesta e reveladora com um criador que continua, décadas depois, a fazer exatamente aquilo que sempre quis: contar histórias aos quadradinhos.
Antes da entrevista vejam o nosso vídeo a mostrar a mais recente coleção de Savage Dragon entre outras partilhas:
Hugo Jesus: O que te atraiu inicialmente para a banda desenhada e quando percebeste que querias trabalhar profissionalmente nesta área?
Erik Larsen: O meu pai lia banda desenhada quando era miúdo e nós crescemos com a maravilhosa coleção antiga de comics dele. Comecei a desenhar ainda em criança e, no 4.º ano, já criava os meus próprios comics. Foi a única coisa que alguma vez quis fazer.

HJ: Jack Kirby é uma das tuas maiores influências, mas que outros artistas moldaram o teu estilo e abordagem à narrativa?
EL: Para além do Jack Kirby, diria Herb Trimpe, Walter Simonson, Gil Kane, Steve Ditko, Frank Miller, Klaus Janson e Terry Austin. E certamente muitos outros de que agora não me recordo.
HJ: Qual é a tua relação com a banda desenhada europeia e que autores aprecias mais?
EL: Cresci a ler Tintin, por isso o Hergé esteve sempre presente. Acho que toda a gente adorava o Moebius. Como só leio inglês, estou um pouco limitado: muitas vezes só posso admirar a arte, não ler as histórias. Ainda assim, coleccionei muitos números de Tex e Dylan Dog por causa do desenho. Já estive em livrarias em França e Itália e fiquei completamente impressionado com a quantidade e qualidade do trabalho. Queria sair de lá com quase tudo, mas a mala não dava para tanto.
HJ: O teu trabalho em The Amazing Spider-Man continua a ser muito acarinhado. Como foi trabalhar numa personagem tão icónica?
EL: Gostei muito de trabalhar no Spider-Man, embora não fosse uma escolha natural para mim. Sempre fui mais um tipo Kirby do que Ditko, por isso encontrar a minha voz naquela série foi um desafio. Ainda assim, foi incrível poder desenhar tantos vilões icónicos, especialmente as histórias do Sinister Six, que foram um verdadeiro prazer. (N.E.: Vejam o vídeo acima para verem as edições portuguesas destas duas do Sexteto Sinistro).
HJ: Escreveste recentemente a minissérie Spider-Man Noir. Como foi regressar a esta personagem após tantos anos?
EL: Foi muito divertido. Trabalhar como argumentista é sempre diferente de trabalhar apenas como artista. Houve coisas que os desenhadores fizeram que eu seria completamente incapaz de fazer, e fiquei genuinamente admirado. Noutras situações, tinha algo muito específico em mente que senti que não ficou exactamente como imaginava. Foi um desafio estimulante.
HJ: Em 1992 foste um dos fundadores da Image Comics. Na altura, quão arriscada parecia essa decisão?
EL: Tinha confiança suficiente para acreditar que podia resultar, e ajudou saber que outros estavam a dar o salto comigo. Claro que foi um risco. Estávamos a deixar trabalhos bastante confortáveis para trás. Mas pensei que, se tudo corresse mal, conseguiria arranjar trabalho algures. Não me arrependo de nada.

HJ: Nos primeiros tempos da Image Comics, Savage Dragon foi logo a tua primeira escolha?
EL: Na altura tinha apresentado uma proposta para X-Factor e tinha criado uma personagem que mais tarde se tornou o SuperPatriot. Pensei começar por aí, mas sempre disse a mim mesmo que, quando começasse Savage Dragon, seria para o fazer durante toda a minha carreira — e isso parecia-me cedo demais, ainda estava nos meus 20 anos. No fim, percebi que tinha muito mais para dizer com Savage Dragon.
HJ: Savage Dragon é publicado há décadas sob o teu controlo criativo total. O que te motiva a continuar?
EL: Eu simplesmente gosto das personagens e do livro. As pessoas estão tão habituadas a ver criadores a abandonar séries que fazem esta pergunta. Alguém perguntaria ao Charles Schulz porque continuou a fazer Peanuts? Faço-o porque posso, porque é divertido e porque ainda não fiquei sem histórias para contar.

HJ: Um dos aspectos mais distintivos de Savage Dragon é o envelhecimento das personagens em tempo real. Porque era isso importante para ti?
EL: O envelhecimento em tempo real é algo falado há décadas nos super-heróis tradicionais. Os leitores envelhecem e perguntam-se porque o Spider-Man ou o Batman não crescem com eles. Mas as grandes editoras não se podem dar a esse luxo: não podem matar as suas vacas leiteiras. Eu posso fazer isso no meu próprio livro. Criar novas personagens, forçar mudança, evita a estagnação. Não se escreve a mesma história para uma criança de um ano e para um adulto de 21.
HJ: Já tens definido como a série vai terminar?
EL: Tenho uma direcção geral, mas não um final concreto. Já me sugeriram escrever o último capítulo para ser publicado após a minha morte, mas isso é impossível. Não sei quando isso acontecerá, nem quem será a personagem principal, nem como será o mundo. Há demasiadas variáveis.
HJ: Fora de Savage Dragon, há projectos que ainda gostarias de explorar?
EL: Gostava de fazer tudo. Tenho ideias para quase todas as personagens com que cresci: Captain Marvel, Superman, Fantastic Four, Hulk, Spider-Man, Wonder Woman. Mas o tempo nunca chega para tudo.
HJ: Se recebesses um convite para um evento de banda desenhada em Portugal, considerarias vir?
EL: Consideraria, sim.
Para saberem tudo sobre a série Savage Dragon, visitem o site oficial: https://www.savagedragon.com/
E para não perderes nada sobre o Central Comics no Google Notícias, toca aqui!
Além disso, podes seguir também as nossas redes sociais:
Twitter: https://twitter.com/Central_Comics
Facebook: https://www.facebook.com/CentralComics
Youtube: https://www.youtube.com/CentralComicsOficial
Instagram: https://www.instagram.com/central.comics
Threds: https://www.threads.net/@central.comics
Co-criador e administrador do Central Comics desde 2001. É também legendador e paginador de banda desenhada, e ocasionalmente argumentista.




