Eles Vivem: A distopia de culto que continua inquietantemente atual
John Howard Carpenter (n.1948, Nova Iorque) pode ter realizado ou produzido um elevado número de filmes que se tornaram fracassos comerciais e que nunca foram amplamente apreciados pela crítica, à exceção de Halloween (1978) e Escape from New York (1981). Mas ainda assim demarcou-se devido à sua dedicação ao fantástico, ao suspense, ao terror, à ficção científica e ao sobrenatural que deram origem a clássicos de culto.
The Thing (1982), Starman (1984), The Fog (1980), Christhine (adaptação de uma obra de Stephen King, 1983), Big Trouble in Little China (1986), Prince of Darkness (1987) são vários desses exemplos. Como não deveria deixar de ser, They Live ou «Eles Vivem» de 1988 também está incluído. É baseado no conto Eight O’Clock in the Morning (1963) do escritor Ray Nelson, que deu origem a uma história de BD, através da arte de Bill Wray, publicada na revista Alien Encounters Nº6 de 1986.
O que tem Eles Vivem (They Live) de marcante é que combina o conceito de distopia com um enredo de ficção científica, sendo mesmo encarado como um filme de terror, ainda que o seu lado satírico não possa ser desmarcado. Combina ação, critica ao consumismo ou conformismo e a paranoia sobre o controlo social. A premissa do filme é simples, mas a ideia que explora é fenomenal:
A história acompanha John Nada (actor Roddy Piper), um homem desempregado, que vagueia por Los Angeles à procura de trabalho. O seu nome «Nada» e a sua posição não são casuais: É uma alegoria, pois retrata aquele que não ocupa um papel de destaque na sociedade, sujeito à indiferença e exclusão.
Todavia, John Nada será capaz de enxergar as ilusões da realidade do que muitos outros, confortáveis os que entendem ser o normal funcionamento de um sistema que não têm por hábito questionar.
É que algo não está bem: Pobreza, helicópteros a voar constantemente pelos céus da cidade como sinal de extrema vigilância, opressão policial, tristeza, insatisfação, indiferença de ricos e poderosos, lutas de classes, além de padres a anunciar algo como: «Eles Controlam-nos. Olhem à vossa volta!» Uma mensagem poderosa encontra-se na parede de uma igreja: THEY LIVE, WE SLEEP («ELES VIVEM, NÓS DORMIMOS») John Nada, que houve um sermão do género e lê a mesma mensagem, descobre então, como que por acaso (providência?), um par de óculos de sol especiais que mudam completamente a forma como vê o mundo.
A partir daí identifica nos muros, em outdoors, posters, painéis e revistas um elevado número de mensagens subliminares como:
OBEDECE (OBEY)
CONSOME (CONSUME)
CASA E REPRODUZ-TE (MARRY AND REPRODUCE)
SEM IMAGINAÇÃO (NO IMAGINATION)
CONFORMA-TE (CONFORME)
COMPRA (BUY)
NÃO QUESTIONES A AUTORIDADE (DO NOT QUESTION AUTHORITY)
VÊ TELEVISÃO (WATCH TV)
CONTINUA A DORMIR (STAY ASLEEP)
SUBMETE-TE (SUBMIT)
NÃO PENSES (NO THOUGHT)
Como se a existência dessas mensagens subliminares não fossem já suficientemente más, John Nada dá conta que uma parte das pessoas com quem se cruza na rua ou em qualquer outro lugar têm rostos horrendos, visíveis apenas através dos seus óculos especiais. Percebe que existem alienígenas disfarçados entre nós que nos influenciam e manipulam através das ferramentas dos media. A partir de então, John Nada junta-se a uma luta pela exposição da verdade e o fim de todas as ilusões que nos condicionam.
Poderia afirmar-se que há algo próprio da distopia de 1984 nesta história, com ingredientes comuns a Dark City (1998) e Matrix (1999), que só fariam a sua aparição nos cinemas uma década depois. Mas They Live envolve um outro tipo de crítica mais direta Expõe as falências e insatisfações resultantes do sistema económico neoliberal promovido pelo presidente Ronald Reagan, que teria repercussões questionáveis (senão ingratas) para toda a sociedade norte-americana, levando muitos a pôr em causa o Capitalismo e a idealização do «Sonho Americano.»
Por isso, de forma bem clara, surge outra mensagem subliminar (justa) que está presente nas notas de dólares que John Nada chega a segurar nas suas mãos:
ESTE É O TEU DEUS (THIS IS YOUR GOD)
A recetividade de They Live não foi muita e os críticos desapreciaram o filme na época. Tem as características de um filme de série B. Contudo, há quem a considere uma obra de culto fundamental. Isso talvez seja porque de uma forma estranha, ou alternativa, They Live exponha factos incómodos revistos por analistas como verdadeiros. Permite-nos reconhecer a dedicação de uma elite em desinformar ou tirar partido das distrações da maioria, orientando o nosso comportamento, ditado pelos que nos vendem coisas ou ideias que aparentam ser o patamar (supérfluo) da realização.
É como se vendessem um «sonho» que não o é, tratando-se antes de um pesadelo, ainda que dissimulado. Só os mais pobres e excluídos (silenciados/oprimidos) é que o sentem. A normalização de algo que em larga medida é um artifício, incluindo a nossa cedência a práticas ou hábitos tidos como banais (comprar, consumir, ver televisão), dificilmente poderia ser reconhecida como parte de uma lavagem cerebral de larga escala.
They Live destaca-se por trazer até nós de forma direta, ainda que alegórica, uma reflexão própria de um existencialista, gerada por um dado conjunto de circunstâncias que força a verdadeira questão: «Somos verdadeiramente livres?» É também um filme que inclui um dos melhores temas já explorados pela ficção científica, que nos leva ainda a perguntar: «Será que já não existem alienígenas a viver entre nós?» ou «Será que já não somos controlados por outros?»
A envolvência simples e direta de They Live é acompanhada por um visual e ritmo próprio dos anos 80, mas fiel à tendência minimalista e estética crua que descrevem vários filmes do mesmo realizador. Entre a utilização de câmaras estáticas focadas em diálogos secos, revela-se uma trilha sonora sintética que marca o seu ritmo e as variadas mudanças ou ocorrências ao longo da história. A monotonia é óbvia, eco dos baixos recursos usados por John Carpenter, que também foi responsável pela criação da trilha sonora.
Felizmente é um filme que exibe alguma ação e as lutas, uso de armas e explosões são várias. Destaca-se o confronto físico de 6 minutos entre John Nada e o trabalhador Frank Armitage (Keith David) antes de finalmente este ser forçado a usar os óculos, a contragosto, tornando-se aliado do homem que quer expor toda a verdade ao resto do mundo — Funciona como paródia de masculinidade ou do «homem de ação» que pretende alcançar os seus objetivos à força, exagerando desnecessariamente. O humor ácido de John Carpenter está presente de tal forma em They Live que nos força também a perguntar até que ponto podemos levar a sério os protagonistas
Os alienígenas também não são propriamente assustadores, embora os seus rostos se assemelhem a crânios descarnados com (grandes) olhos. Há algo de patético nas suas expressões vazias: Replicam a tensão clara entre o absurdo e o inquietante. Teorias da conspiração à parte, parece que os «senhores do mundo» são sempre mais básicos do que inicialmente pensávamos.
Já o homem comum, como John Nada, descobre a conspiração que ninguém reconhece, embora seja demasiado óbvia — O horror e o estranho só não é enxergado por quem permanece adormecido, os campos de monotonia do filme são coerentes com a própria apatia da maioria.
A tirania ou o oportunismo, por mais falíveis e previsíveis que sejam, só tiram partido de quem se acomoda. «Obey» parece ser assim um slogan obediente a um fenómeno de marketing muito propositado. Em They Live, muitos são obedientes e não o sabem; resta-lhe abrir os olhos, questionando a sua noção de «normalidade» de vez.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural





