Elencos IA: Tilly Norwood e a nova fronteira do cinema
Hollywood tem um novo nome nos corredores de estúdios, agências e reuniões de executivos. Mas não se trata de uma jovem atriz em ascensão saída de uma escola de talentos ou descoberta num casting improvável. Chama-se Tilly Norwood e não existe fora de servidores, algoritmos e linhas de código. Criada a partir da combinação de mais de dez ferramentas de inteligência artificial, incluindo ChatGPT e Runway, Tilly é apresentada como a primeira “atriz digital” a ser disputada por agentes de talentos tradicionais em Los Angeles.

O anúncio, feito pela atriz, comediante e formada em tecnologia Eline Van der Velden, fundadora da produtora Particle6 e do recém-criado estúdio de talentos digitais Xicoia, marca um ponto de viragem: pela primeira vez, uma “estrela sintética” poderá assinar com uma agência de representação, até agora reservada a artistas de carne e osso.
Quando Al Pacino protagonizou S1mone (2002), a sátira parecia exagerada: um produtor desesperado cria uma atriz virtual que se torna um fenómeno mediático. Duas décadas depois, a ficção ganha contornos de realidade. “Quando lançámos a Tilly, em fevereiro, diziam-nos: ‘Isto não vai acontecer’. Em maio, já nos pediam reuniões. Agora, dentro de meses, vamos anunciar a sua representação oficial”, revelou Van der Velden no Zurich Summit, um dos fóruns internacionais onde o tema dominou.
Tilly Norwood não é apenas um modelo visual gerado por IA. Segundo os criadores, ela possui voz, personalidade e capacidade de adaptação instantânea a diferentes tons e emoções. A promessa é simples, mas disruptiva: uma intérprete que não envelhece, não adoece, não exige contratos milionários nem pausas de rodagem. Um ativo artístico e comercial moldável às necessidades da produção e dos fãs.
Van der Velden defende que Tilly representa “um IP vivo, com humor, narrativa e consistência”, e que a chave não está na tecnologia, mas nas histórias e equipas humanas que a utilizam.
A revelação não deixou a indústria indiferente. Produtores e executivos veem uma oportunidade para reduzir custos e acelerar processos criativos. Mas sindicatos e profissionais de cinema levantam alarmes sobre a perda de postos de trabalho e a erosão da integridade artística.
A Academy of Motion Picture Arts and Sciences discute mesmo a hipótese de exigir que todos os filmes candidatos aos Óscares declarem se recorreram a IA na produção. O debate já não é “se”, mas “quanto e como”.

Tilly Norwood não é um caso isolado. O produtor Pouya Shahbazian (da saga Divergente) lançou a Staircase Studios AI, que acaba de apresentar The Woman With Red Hair, um filme biográfico sobre a resistente holandesa Hannie Schaft, gerado quase integralmente por IA. O estúdio promete 30 longas-metragens em quatro anos, com orçamentos abaixo de 500 mil dólares, graças ao seu workflow proprietário ForwardMotion.
Apesar do arrojo, as críticas apontam para personagens sem “faísca” nos olhos e expressões artificiais. O resultado é tecnicamente impressionante, mas emocionalmente limitado – uma versão beta de um futuro inevitável.
Se há dúvidas sobre a legitimidade destas ferramentas, os gigantes do streaming dissipam-nas. Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, afirmou recentemente que a IA já está a ser usada para pré-visualização, planeamento de cenas e efeitos visuais, citando o exemplo da série argentina El Eternauta, onde uma sequência complexa foi finalizada dez vezes mais rápido do que com métodos tradicionais.
“Não é para tornar filmes mais baratos, mas melhores”, assegura Sarandos, ainda que os críticos vejam sobretudo uma forma de reduzir custos e depender menos de equipas criativas numerosas.
A indústria cinematográfica encontra-se num momento de transição delicado. Soluções digitais como Tilly Norwood podem abrir caminho a um novo tipo de estrelas imortais, interativas e controláveis. Ao mesmo tempo, paira a ameaça de desvalorização do trabalho humano, de greves prolongadas e de uma crise ética sobre autoria, transparência e representatividade.
Entre entusiasmo tecnológico e receio existencial, Hollywood prepara-se para uma nova fase onde as fronteiras entre humano e sintético se esbatem . Tal como no guião de ficção científica que se tornou realidade, a pergunta central permanece: será que o público aceitará apaixonar-se por uma estrela que nunca existiu?
Neste contexto, também na Europa começam a surgir movimentos para estabelecer balizas claras. Em Portugal, está a ser apresentada uma proposta de legislação sobre a utilização de identidades digitais no setor audiovisual, que prevê regras de transparência, rastreabilidade e supervisão ética na criação e exploração de soluções digitais. O diploma inclui ainda um código de conduta para produtoras, agências e plataformas, de modo a garantir que o uso de inteligência artificial não substitui a dignidade do trabalho humano nem compromete a confiança do público. Uma tentativa de responder, desde já, ao desafio que nomes como Tilly Norwood colocam ao futuro do cinema.
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

