CTHULHU MYTHOS: As Entidades de Lovecraft
A Mitologia de H.P. Lovecraft (1890 – 1937), que se tornou popularmente conhecida por Cthulhu Mythos ou «Mitos de Cthulhu» (termo cunhado pelo escritor August Derleth) estabelece a existência de um universo tão insólito quanto aterrorizante.
É povoado por criaturas e mutantes de todo o género, que se tornaram tão populares quanto influentes no mundo do cinema, das séries e da banda desenhada. Através dos seus contos, há sempre que dar destaque às entidades tenebrosas como as que fazem parte do panteão dos Antigos (The Old Ones) e aos Deuses Exteriores (Outer Gods.) Ainda que a presença de seres anfíbios, alienígenas e monstros façam parte da sua mitologia, é inegável a importância dos que dominam várias forças do cosmos e cujos anseios e motivações não contemplam qualquer grau de importância à espécie humana. Tentar invocar ou conhecer tamanhas entidades só pode levar à insanidade de todos aqueles que o tentam.
Não podemos, por isso, surpreender-nos mediante a ideia que o fictício Necronomicon teria sido escrito por Abdul Alhazred, um mago louco.

O grimório poderia ser usado para invocar, evocar ou estabelecer alguma ligação com os poderes destas entidades, mas lê-lo ou consultá-lo poderia também garantir a completa perdição do seu utilizador. Se o próprio livro foi referido em várias séries e nalguns filmes de terror distintos, sem ser imediatamente associado com a mitologia criada por Lovecraft, de uma forma algo coincidente também evoca a ideia de que é perigosa a leitura de livros de magia antigos.
Foram codificados ou ilustrados com os sigilos de entidades invertidos, supondo-se que a maioria dos seres humanos nunca estaria preparada para lidar com forças cujo poder nos ultrapassa. Mais que o medo do desconhecido, Lovecraft manteve-se fiel à visão que entidades de outros mundos podem causar-nos todo o género de dano por não serem devidamente compreendidas.
As entidades de Lovecraft são ficcionais e todas provêm da imaginação do autor, mesmo que alguns discutam e argumentem que o autor era médium e que muitos dos seus sonhos eram reais, como entendia o ocultista Kenneth Grant (1924 – 2011.) Dagon é único cujo nome provém de uma divindade do Médio Oriente, adorada pelos Filisteus. Os restantes são nomes peculiares, dignos de serem estudados em matéria desta mitologia distinta:
Cthulhu: A mais famosa e icónica entidade de Lovecraft é associada com o mar, o mundo dos sonhos e o abismo, sendo descrito como «o Grande Sonhador.» Dorme na cidade submersa de R’lyeh, algures nas profundezas do Oceano Pacífico. Tem uma aparência gigantesca de dragão alado e a parte superior do corpo com aparência de polvo.

É adorado como um deus desde há milénios atrás por sociedades secretas, herdeiras dos conhecimentos daqueles que nunca conheceram a civilização conforme a concebemos. Mesmo adormecido ou num estado induzido de coma, no limiar entre a vida e a morte, Cthulhu é capaz de enviar mensagens telepáticas aos seres humanos, causando sonhos ou visões. O conto mais notável dedicado a esta entidade é O Chamado de Cthulhu (The Call of Cthulhu) publicado na revista Weird Tales em 1928. Famosa também ficou a frase ritualista num idioma estranho que pretende evocar a entidade: «Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn» ou «Na sua morada em R’lyeh, o morto Cthulhu aguarda sonhando.»
Dagon: Deus dos Profundos (Deep Ones), criaturas marinhas humanoides. Associado aos meios aquáticos e cultuado por humanos e híbridos, ou seres mutantes, é associado com a degeneração da espécie humana, mas também se relaciona com o culto de Cthulhu. É bem provável que, apesar de ter sido revisto por Lovecraft como um monstro marinho, a inspiração de Dagon provenha mesmo de um antigo deus semita, cultuado no Médio Oriente. Dagon é descrito pela primeira vez no conto homónimo Dagon (1919) que reflete o medo do ser humano em contacto com o desconhecido.
Yog-Sothoth: O «Todo-em-um e Um-em-todo» é uma entidade omnisciente, fora do tempo e espaço, multidimensional. Considerado tanto um guardião quanto um limiar para outras realidades, é uma entidade tão complexa quanto misteriosa que representa o tempo infinito e o conhecimento absoluto, sendo pai de várias monstruosidades. Yog-Sothoth manifesta-se como parte da estrutura do Cosmos, tão hostil quanto inexplicável para os seres humanos.

A sua menção surge pela primeira vez no conto O Horror de Dunwich (The Dunwich Horror) publicado na revista Weird Tales em 1929: Neste conto foi descrito tanto como a chave e a porta para todas as barreiras do tempo e do espaço, permitindo a passagem de entidades diversas entre todas as dimensões. Evocado através do Necronomicon, permite todas as transgressões, mas geralmente isso resulta no maior desastre ou ruína.
Nyarlathotep: É um pouco diferente de todas as outras entidades, já que caminha e interage ativamente com os humanos. Não é um dos Antigos, embora pareça representar o poder destes, sendo tratado como um «Deus Exterior» (Outer God.) Possui mil formas e se diverte em gerar o caos e espalhar a loucura, tendo tanto de trikster como de sádico, causando o sofrimento aos mortais de forma deliberada.
Nyarlathotep é conhecido pelo «Caos Rastejante» ou por «Arauto da Loucura.» A origem do seu nome parece basear-se nalguma variação de outros nomes do Antigo Egipto. Não é por acaso que uma das suas formas é mesmo a de um homem egípcio alto. Simboliza não só o caos, mas também a decadência, a corrupção e a devastação que rompe com a ordem. Surge pela primeira vez no conto homónimo Nyarlathotep (1920.)
Shub-Niggurath: «A Cabra Negra dos Bosques com Mil Filhotes» é uma deusa da fertilidade monstruosa, associada ao nascimento de abominações e horrores. Enquanto Cthulhu representa o terror abissal e Nyarlathotep o caos racional, Shub-Niggurath é o horror da fecundidade monstruosa, da multiplicação incontrolável da vida degenerada.
Também pertence à linha dos «Exteriores» (Outer Gods) embora nunca tenha sido descrita com exatidão por Lovecraft, pelo que a sua aparência é mistério. A sua presença pode ser sentida através de rituais obscuros, de cultos arcanos, de sacríficios ou da procriação de seres monstruosos, híbridos e deformados de todo o género, adquirindo uma curiosa relação com o Obscuro Feminino, conforme alguns associariam justamente através da simbologia de Lilith, mãe dos demónios e senhora da noite. Shub-Niggurath foi mencionada pela primeira vez no conto O Último Teste (The Last Test) co-escrito com Adolphe de Castro em 1928, mas detém maior relevância nos contos O Horror de Dunwich (The Dunwich Horror) de 1929 e O Sussurro na Escuridão (The Whisperer in Darkness) de 1930.
Hastur: Trata-se de uma referência de Lovecraft que nunca foi devidamente esclarecida. É associado à decadência e à loucura por via da peça fictícia de O Rei de Amarelo, conforme foi estabelecida pelo escritor Robert W. Chambers (1865 – 1933) cuja obra impressionou Lovecraft.Hastur é fonte de debate entre os que se interessam pela obra de ambos os autores, havendo quem o associe ao Rei de Amarelo ou àquele que escreveu a peça que induz todos os que a leem num estado de loucura. Lovecraft pretendia associá-lo a Cthulhu ou a um dos Antigos, mas não especificou muito sobre essa intenção através das suas notas.
Hastur é um mistério, mas ganharia um protagonismo maior através de outros escritores que deram continuidade e trabalharam para expandir o universo fictício, como August Derleth (1909 – 1971.) Curiosamente, o nome «Hastur» provém originalmente através da obra de outro autor criativo: Ambrose Bierce (1842 – 1913) que descreve a divindade Hastur como um ser benevolente através do seu conto Haïta a Pastora (Haïta the Shepherd, 1891.)
Azathoth: É uma entidade enigmática, mas uma das mais fascinantes e criativas que surge na mitologia de Lovecraft, tratando-se de um dos mais importantes Deuses Exteriores. Azathoth representa o oposto de uma divindade criadora consciente, já que representa o Caos Absoluto, a Inconsciência Primordial e a Futilidade da Existência.
Seria, na melhor das versões, o que poderíamos descrever como um «Anti-Deus» ainda que o seu nome recorde o do deus egípcio Thot, senhor da magia, da jornada espiritual, da arte, do saber, da linguagem. Como é inconsciente, Azathoth também é reconhecido como o senhor que age sem propósito, cujo poder e força insana sustenta todo o Universo e a Realidade como a conhecemos. Detém por isso a alcunha do «Deus Idiota Cego» ou «Sultão Demoníaco.» Não tem uma aparência conhecida, mas é popularmente representado como uma massa amorfa agitada e em turbilhão, ocasionalmente dotada de tentáculos.
É mencionado pela primeira vez no conto À Procura da Desconhecida Kadath (The Dream-Quest of Unknown Kadath) de 1926, mas apenas publicado em 1946. Todavia, um dos contos mais relevantes que envolve Azathoth é precisamente O Habitante da Escuridão (The Haunter of the Dark) de 1935, que descreve os seus servos, criaturas menores que tocam músicas monótonas e terríveis em flautas, mantendo-o adormecido e inconsciente. Essa música simboliza o ritmo impessoal do Universo, fiel à visão niilista de Lovecraft: É eterno, mecânico e cego.

Tulzscha: Trata-se da «Chama Verde» que não tem outra forma assumida. É uma entidade misteriosa, alienígena, incompreendida e pouco detalhada dentro da mitologia de Lovecraft, mas ainda assim intrigante. Tulzscha surge apenas num único conto: O Festival (The Festival) de 1923, publicado em 1925: É evocado num ritual subterrâneo realizado por criaturas encapuçadas numa antiga cripta sob a cidade fictícia de Kingsport. Durante esse ritual, Tulzscha manifesta-se como uma chama verde dançante, emergindo de um poço ou abismo escuro, alimentando o terror absoluto no protagonista, o que o leva a perder os sentidos. Provavelmente representa o conhecimento proibido.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural



