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CTHULHU MYTHOS: A Mitologia de Lovecraft

Lovecraft revolucionou o terror com o Cosmicismo, criando um universo de horror cósmico que marcou a literatura, o ocultismo e a cultura pop.

Um Escritor Revolucionário

Há mais de cem anos atrás, precisamente a 20 de Agosto de 1890, nasceu um dos escritores mais inovadores de sempre, revolucionando o género do Terror Gótico através do desenvolvimento de uma mitologia única que acabaria por influenciar um elevado número de autores e criadores do mundo da ficção para sempre: Tratava-se de Howard Phillips Lovecraft, oriundo de Providence, Rhode Island, EUA.

retrato do autor norte-americano H. P. Lovecraft, tirado em junho de 1934 por Lucius B. Truesdell.
Eetrato do autor norte-americano H. P. Lovecraft, tirado em junho de 1934 por Lucius B. Truesdell.

O que Lovecraft fez, através dos seus contos de ficção originais e surreais, foi desafiar simultaneamente os valores do Cristianismo, do Romantismo e do Iluminismo, cultivando um pensamento amoral, severo, pessimista e cínico em relação aos próprios desígnios da existência humana, que considerava não ter a menor relevância no Cosmos. Assumindo que o Universo era essencialmente hostil e incompreendido para a maioria dos seres humanos, dominado por um panteão de entidades destrutivas, caóticas ou irracionais, destituídas de compaixão e empatia, Lovecraft estabeleceu as bases do Cosmicismo.

Se hoje em dia reconhecemos o Cosmicismo como a ideia que a Humanidade não tem significância, estando a nossa espécie sujeita a perigos de todo o género devido à ausência do princípio de um destino maior ou da sua salvação através de um Deus criador misericordioso, não poderíamos reconhecer este conceito se Lovecraft não tivesse desenvolvido uma mitologia que se tornou mundialmente conhecida por «Cthulhu Mythos.».

É interessante saber-se que essa designação foi cunhada por outros autores inspirados e seguidores de Lovecraft após morrer (no ano de 1934) como August Derleth (1909 – 1971.) Cthulhu é uma das entidades mais conhecidas presentes nos contos do autor, visualmente marcante por ter a aparência combinada de um dragão alado com um polvo gigante ou o monstro Kraken. Tornou-se um símbolo para descrever o panteão de seres que têm de demoníaco como de alienígena, fazendo parte daqueles ao qual o autor designa de Antigos (Great Old Ones.)

Cthulhu na cidade perdida de R'lyeh
Cthulhu na cidade perdida de R’lyeh.

O que têm os Antigos de notável, além da imensidão do seu poder, que está para além da nossa compreensão, é que reinam sobre o Cosmos e não se importam minimamente connosco. São entidades estranhas ao nosso conceito de civilização, representam forças caóticas e imensuráveis, potencialmente destrutivas, associam-se com os territórios ermos ou inexplorados e os seus mistérios podem conduzir-nos à loucura.

O que é ainda mais surpreendente é que todos estes seres — além dos que foram continuamente criados pelos seguidores de Lovecraft, que pretenderam contribuir para expandir e enriquecer a sua mitologia —, surgiram não só da imaginação, mas das próprias fobias e dos pesadelos do influente autor. Poder-se-ia dizer que Lovecraft também era invulgar ou, no mínimo, descrito como «estranho.» De alguma forma pode ter introduzido novas parcelas de correspondência entre a literatura gótica e o mistério, expandindo-o através de níveis nunca antes vistos, porque ele próprio vivia com medo.

Compreendia-o, suplantando a imaginação e as experiências de escritores como Edgar Allan Poe (1809 – 1849)  ou Robert W. Chambers (1865 – 1933) instituindo-se como um visionário que reúne o Terror e a Ficção cientifica numa fórmula nunca antes vista após a impressionante Mary Shelley (1797 – 1851) imortalizada pelo seu magnífico romance Frankenstein, publicado em 1818.

The King in Yellow
The King in Yellow

Muitos dos contos de Lovecraft e o que conhecemos da sua mitologia provém diretamente das suas experiências oníricas. Lovecraft era um sonhador ativo, frequentemente dado a sonhos lúcidos onde interagia e via parte de uma realidade que não compreendia.

Acreditando que os seus sonhos poderiam oferecer acesso a dimensões e conhecimentos ocultos, depressa tratou de passar para o papel tudo o que via e revisitava, mesmo que isso não lhe tivesse garantido propriamente uma legião de fãs, ainda que se tivesse tornado um escritor indispensável às edições da revista Weird Tales, lançada pela primeira vez a Março de 1923, que publicava contos de terror e fantasia, propensos a revisitar tudo o que havia de invulgar, alternativo e exótico.

Foi nesta mesma revista que se estreou como autor de ficção através da publicação, em 1928, de o memorável «Chamado de Cthulhu» (The Call of Cthulhu) — conto invulgar e desconcertante, ligado a um culto secreto que adora uma entidade até então desconhecida pela maioria dos mortais comuns.

Ficção ou Ocultismo?

É certo que Lovecraft, pelo menos a nível oficial, não era seguido por um grande nível de leitores, mas o impacto dos seus contos deve ser equiparado ao público mais reservado e erudito que, por norma, faria parte de autênticas sociedades (algumas secretas) e grupos ocultistas.

O seu nome não era desconhecido entre os membros da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Hermetic Order of the Golden Dawn) segundo uma revelação perspicaz de Kenneth Grant (1924 – 2011) o discípulo de Aleister Crowley que pode ter sido o primeiro a expor, através dos seus livros como O Renascer da Magia (The Magical Revivel, 1972) ou Aleister Crowley e o Deus Escondido  (Aleister Crowley and the Hidden God, 1973) — épicos das Trilogias Tifonianas — o lado oculto das visões de Lovecraft dissimuladas ou disfarçadas de obras de ficção.

Item #120722 The Magical Revival. [Together with] Aleister Crowley and the Hidden God [and] Cults of the Shadow. Kenneth GRANT.

Não por acaso, Kenneth Grant referiu que Lovecraft se correspondia com os escritores Arthur Machen (1863 – 1947) e Algernon Blackwood (1869 – 1951) que, além de publicarem contos de terror ou dedicados ao sobrenatural, também eram membros da ordem que durante muito tempo permaneceu secreta.

Se para muitos Lovecraft era um ateu convicto, que não se acreditava de todo na existência em forças sobrenaturais e que preferia simplesmente ser um homem de contos alternativo e genuíno, fiel apenas à sua imaginação (apesar dos seus pesadelos recorrentes) é um tanto peculiar que muitos ocultistas tenham promovido ao longo das últimas décadas a ideia que, na verdade, o autor que deu origem ao Cosmicismo era mesmo médium e não sabia determinar o que era capaz de ver.

Essa ideia não foi cultivada apenas por Kenneth Grant, mas é evidente que este influenciou uma nova geração de membros de grupos ocultistas diversos, sendo claro o impacto nos exploradores da Magia do Caos e noutros magos ou académicos, presentes não só em grupos underground e de curiosos onde os estudos de magia, do folclore, do paranormal ou de atividade extrassensorial se aliam a filosofias várias e conceitos próprios das pseudociências.

Isso inclui também as visões mais cínicas e severas do movimento New Age, que englobavam parte da literatura do polémico Jacques Bérgier (1912–1978), co-autor de O Despertar dos Mágicos (Le Matin des Magiciens, 1960) e de outras obras peculiares, dignas de alimentar e inspirar todos os adeptos de diferentes teorias da conspiração, incluindo os que creem em extraterrestres e em grupos de poder que controlam e influenciam secretamente o destino da Humanidade.

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Isso inclui um elevado grupo de especuladores (e sensacionalistas) que não poderiam ser indiferentes às descrições de deuses adormecidos, sombras sem nome que viajam além do tempo e do espaço, monstros estranhos e inconscientes, mutações em seres humanos, cenários alienígenas, cidades milenares, cerimónias horrendas, programas de bruxaria, nomes exóticos de seres e até a descrição de um grimório intrigante nos contos de Lovecraft que muitos consideram ser real: Trata-se do Necronomicon, escrito (segundo o seu criador) em Damasco por volta do ano 730 d.C. pelo mago louco Abdul Alhazred.

Inspirado possivelmente nos livros goéticos europeus como As Clavículas de Salomão (Clavícula Salomonis) e também no livro ficcional de O Rei de Amarelo, citado na obra decadentista homónima de Robert W. Chambers em 1895, o Necronomicon foi reescrito por atuais ocultistas com ritos, fórmulas mágicas e sigilos que visam ser funcionais.

Tanto quanto é possível estabelecer, há quem suponha que nas suas visões dos Antigos, Lovecraft tenha reinterpretado o que viu ou sobre o qual sonhara através de uma perspetiva alternativa e pessoal de alguns deuses da Antiguidade, incluindo os mais poderosos do Médio Oriente ou referidas noutras civilizações, ligados a catástrofes ou a forças altamente destrutivas, como a senhora Tiamat, o deus do mar Yam, o senhor da morte Mot, o poderoso Leviatã, ou Thyphon e Apophis, que não por acaso poderiam ter aparência de dragões, de enormes serpentes ou de seres algo mais monstruosos, híbridos e indistintos.

É peculiar que Lovecraft tenha residido na Nova Inglaterra e se relacione muito com a região, conhecida pelas suas tradições de bruxaria, da qual a história do Julgamento das Bruxas de Salem (1692) se evidencia entre outras. Mais que médium, vários ocultistas estão predispostos a apontar que o autor é mesmo descendente de bruxos ou de magos que habitaram a região.

Se detinham entre eles conhecimentos ou a partilha de grimórios secretos é outra questão, mas não seria também surpresa para tantos investigadores que os colonos europeus dos Estados Unidos preservassem um saber goético, digno de inspirar Lovecraft. Mas mais do que uma inspiração oculta, não podemos ignorar o quanto a mitologia do autor foi inspiradora dentro do mundo do entretenimento.

Um Fenómeno Cultural

Se H.P. Lovecraft não conheceu a fama enquanto foi vivo, pelo menos a sua obra literária acabou por ser reconhecida e apreciada por um elevado número de fãs que apreciavam a originalidade e o impacto de uma mitologia única associada a um universo de horror, ininteligível, sem demónios e monstros tradicionais, mas sim dominado por entidades cósmicas indiferentes à existência humana.

Pioneiro a vários níveis, Lovecraft inspirou diferentes gerações de autores que não estavam só ligados à literatura e à escrita de contos ficcionais de terror, como Stephen King (1947), Clive Barker (n.1952) e Neil Gaiman (1960); talvez um dos melhores exemplos seja o do surrealista suíço H.R. Giger (1940 – 2014) cuja arte, a nível de pintura, escultura e design gráfico muito impressiona — Não é por acaso que existe uma versão do Necronomicon de 1977 que contém alguns dos melhores exemplos da arte de ilustração de Giger!

Este livro chegou a ser entregue ao realizador Ridley Scott (n. 1937) que prontamente decidiu contratar o artista para desenhar os cenários, elementos alienígenas e a criatura do seu filme Alien, que faz naturalmente eco dos principais conceitos do Cosmicismo, com protagonistas altamente vulneráveis e impotentes ante um horror provindo de outro planeta, difícil que compreender.

Necronomicon

É por isso que não é exagero reafirmar que o universo frio e cínico de Lovecraft deu origem a um fenómeno de proporções amplas. Ligado ao Ocultismo, à cultura Pop, incluindo obras de terror e vários projetos de cinema, não podemos ignorar a importância de iniciativas várias que procuraram promover a sua obra original.

Talvez uma das mais importantes tenha sido a fundação da Necronomicon Press em 1976 por Marc A. Michaud, editora de terror e ficção de fantasia que se especializou em republicar contos de Lovecraft, análises académicas e estudos da sua obra, além de aceitar contos de outros autores fieis ao Círculo Lovecraftaniano que procuram explorar o seu universo, expandindo o seu rol de histórias ficcionais que envolvem evidentemente entidades como Cthulhu e outras mais, mas sem ignorar o potencial de grimórios baseados no Necronomicon de autores dedicados aos seus estudos de magia.

Não podemos ignorar a crescente influência da mitologia de Lovecraft em filmes e séries, mas também (evidentemente!) na Banda Desenhada (merecem ser destacadas as edições de Providence e Neonomicon da autoria de Alan Moore e Jacen Burrows, publicadas pela Avatar Press, a par de muitas outras como as Cthulhu Tales da Boom! Studios, as séries da editora SelfMadeHero.

E ainda uma longa lista que abarca outras séries dignas de ser conhecidas em Portugal, que já envolveu as próprias personagens da DC Comics como Batman em confronto com este universo de horror, sendo altamente referenciado The Doom That Come to Gotham, de 2000), nos Mangà (através da obra adaptativa de Gou Tanabe), nos Jogos de Tabuleiros (Arkham Horror,  Mansions of Madness, Call of Cthulhu: The Card Game, Mythos Tales, entre muitos outros), nos Videojogos (como o notável RPG Call of Cthulhu) e a nível da Música, contagiante através de bandas de metal, algumas do género Black, Doom e Progressive Metal, que não são alheias a referências como Cthulhu e outras entidades além do Necronomicon (Metallica, Morbid Angel, Nile, The Great Old Ones, Electric Wizard, Behemot, Yyrkoon, entre muitas mais.)

cthulhu tales

Muitos adoram o conceito de mistérios antigos, magia perigosa, conhecimento proibido e visões contrárias ao do Humanismo e do Cristianismo, cientes do poder do apelo ao do encontro com o Desconhecido, aquele elemento estranho do qual a nossa espécie, ainda que dada à exploração, sempre teve medo.

Para todos os efeitos, não foi só o Cosmicismo que parece que veio para ficar: É toda a visão que o Insólito apregoa toda uma nova fase cultural que alimenta a riqueza e o contributo de novos criadores que olham com outra perspetiva para o que há de exótico no campo do Terror. Longe de um apelo ao Bem contra o Mal, há necessária expectativa gerada por uma fórmula que resulta entre as novas gerações que olham com interesse para tudo o que foi imaginado ou sonhado por Lovecraft e os que lhe sucederam: Onde muitos vêm o Caos e o Abismo, outros reconhecem todo o potencial de um Universo de portas abertas para os demais Imaginautas.

Bruno Lourenço

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural

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