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Cinemorfose – Rever é Resistir

O cinema já não é apenas o que se vê no grande ecrã. É também o que se perdeu, o que se recorda, o que se reinventa. Esta série de crónicas mergulha na metamorfose da experiência.
Os ciclos de reposição de grandes filmes provam que há ainda um público para o cinema como arte. Mas continuam limitados a espaços e públicos específicos, esquecendo a democratização real do acesso à herança cinematográfica.

Non ou a Vã Glória de Mandar (1990, de Manoel de Oliveira)
“Non ou a Vã Glória de Mandar” (1990) de Manoel de Oliveira)


Rever para Ver Melhor — O Cinema que Merece Voltar ao Grande Ecrã

De tempos a tempos, surgem sinais de resistência: ciclos dedicados a grandes mestres do cinema, reposições discretas de obras que marcaram épocas, retrospectivas que devolvem ao grande ecrã filmes que nunca deveriam ter saído dele. Há sessões de Psico em cópia restaurada, homenagens a Fellini, retrospectivas de Truffaut, ciclos com a filmografia de Manoel de Oliveira — e nesses momentos, o cinema volta a ser, por instantes, aquilo que sempre foi: uma arte feita para ser vivida no escuro, em silêncio, num ecrã que nos obriga a levantar os olhos e a mergulhar.

Essas sessões, porém, são raras. Acontecem em salas específicas, com públicos fiéis, muitas vezes em circuito alternativo, académico ou cineclubista. Há nelas um cuidado de curadoria, uma dimensão formativa, uma reverência pela história do cinema. Mas também há um limite: a escala. São iniciativas pontuais, para públicos já iniciados, em horários que nem sempre são acessíveis. O espectador comum, que vai ao centro comercial para ver um filme novo, dificilmente se cruza com A Janela Indiscreta, Apocalypse Now ou O Pátio das Cantigas em cópia digital restaurada.

“Apocalypse Now”(1979), de Francis Ford Coppola

Na tão falada “democratização do acesso ao cinema”, há uma omissão gritante: os grandes filmes do passado não estão disponíveis no circuito onde se forma a maioria dos hábitos cinematográficos. Os multiplexes, que concentram a maior fatia do público, vivem reféns da novidade — ou melhor, da novidade comercial sobretudo oriunda de Hollywood. O calendário de estreias é dominado por datas estratégicas, grandes campanhas de marketing e a lógica do lucro imediato. Os programadores não programam: distribuem. As salas não arriscam: replicam. E assim, a revisitação desaparece do horizonte.

É um desperdício cultural, mas também uma oportunidade perdida. Porque rever é ver melhor. Um filme que volta à sala ganha novos sentidos, novo público, nova vida. Um plano projectado num ecrã de oito ou dez metros nunca é o mesmo quando visto num telemóvel. Um clássico visto aos 20 anos diz-nos coisas diferentes aos 40. E uma obra de arte que atravessa gerações transforma-se em património vivo — desde que haja lugar para a revisitar.

“Metropolis” (1927), de Fritz Lang

Falta, pois, ambição. Falta coragem nos programadores dos grandes circuitos. Falta visão política e institucional que incentive, promova e financie a exibição regular de obras fundamentais. Não basta restaurar filmes: é preciso projectá-los. E não apenas em cinematecas ou festivais — mas no circuito onde estão os espectadores.

Rever os clássicos é garantir que o cinema tem história. E é garantir que essa história continua a ser contada — no lugar onde pertence: o grande ecrã.

Capítulo publicado:
1. O Tempo das Grandes Salas

Próximos capítulos:
3. Formação de Públicos
4. Cinema como Indústria de IPs

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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