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Cinemorfose – Formação de Públicos

O cinema já não é apenas o que se vê no grande ecrã. É também o que se perdeu, o que se recorda, o que se reinventa. Esta série de crónicas mergulha na metamorfose da experiência.
Durante décadas, escolas levaram crianças e jovens ao cinema — e formaram espectadores. Hoje, os festivais assumem esse papel, mas faltam os clássicos e a regularidade. Educar o olhar é também dar a ver o que permanece.

Branca de Neve e os Sete Anões
Branca de Neve e os Sete Anões


Educar o Olhar, Cultivar o Espanto

Muito se fala, nos meios culturais e educativos, da formação de públicos. Fala-se como se fosse um desígnio, uma prioridade, uma missão. Mas afinal… o que veem os mais novos? Onde assistem? E em que condições se forma, hoje, o gosto cinematográfico?

E.T. – O Extraterrestre

Durante décadas, o primeiro contacto de muitas crianças com o cinema fazia-se no lugar certo: a sala escura, o grande ecrã, o som envolvente, a experiência partilhada com colegas de turma e professores atentos. Entre as décadas de 1980, 1990 e o início deste século, o pré-escolar e o primeiro ciclo, os pequenos espectadores do Grande Porto descobriam em sala de cinema maravilhas como Branca de Neve e os Sete Anões, Dumbo, A Pequena Sereia, O Livro da Selva. Dobragens em português do Brasil, mais tarde substituídas pelas vozes portuguesas de O Rei Leão ou Tarzan, mas o essencial mantinha-se: o assombro. O olhar brilhante. As mãos agarradas às cadeiras rebatíveis, mal-adaptadas ao tamanho de corpos tão pequenos, mas já tão impressionados.

The Lion King
O Rei Leão

Essas sessões eram mais do que uma “ida ao cinema”. Eram rituais de iniciação. Educavam o olhar, despertavam a sensibilidade, introduziam os clássicos, o ritmo narrativo, a gramática da imagem. Eram também uma aula sem sala. Os mais velhos alunos tinham contacto no ouvido com línguas estrangeiras  (inglês, francês, alemão), em sessões com filmes como Parque Jurássico, O Último dos Moicanos, O Urso. E sempre a emoção de sair da escola para ver cinema… como se se entrasse noutra realidade.

Jurassic Park – Parque Jurássico

Com o tempo, esse modelo foi-se perdendo. A autonomia das escolas deu lugar à rigidez dos agrupamentos, a burocracia instalou-se, os orçamentos rarearam, e as sessões — outrora parte integrantes do calendário lectivo — ficaram confinadas em alguns casos ao último dia de cada período escolar, quase como prémio ou distração. A formação de públicos, nesse contexto, deixou de ser um processo contínuo e passou a ser um evento ocasional, decorativo.

Hoje, são sobretudo os festivais e ciclos de cinema que tentam ocupar esse vazio. Programas específicos para escolas, sessões em horários matinais, brochuras pedagógicas, debates após os filmes — tudo com louvável intenção e curadoria cuidada. Mas falta algo. Falta o espólio universal do cinema. Faltam os clássicos que atravessam gerações. Faltam os filmes que, sendo também comerciais, têm a capacidade de encantar, de reunir diferentes idades numa mesma sala, de se tornarem memórias fundadoras.

A verdade é que a formação de públicos não se faz apenas com cinema alternativo ou experimental — por muito mérito que tenham. Faz-se com repertório. Com continuidade. Com repetição e descoberta. Com filmes que nos ficam na cabeça e no coração. E faz-se, sobretudo, com regularidade: ao longo do ano, em articulação com o ensino, com professores interessados e programas preparados. Porque o gosto educa-se. E o gosto cinematográfico também.

Formar públicos é, no fundo, cultivar o espanto. Ensinar a ver. E garantir que as novas gerações conhecem o cinema como arte, e não apenas como passatempo digital. Não basta esperar que os pais dos grandes centros urbanos levem as crianças de vez em quando à sala. É preciso fazer do cinema parte do percurso — e da vida.

Capítulos publicados:
1. O Tempo das Grandes Salas
2. Rever é Resistir

Próximos capítulos:
4. Cinema como Indústria de IPs

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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