Cinemorfose – Cinema como Indústria de IPs
O cinema já não é apenas o que se vê no grande ecrã. É também o que se perdeu, o que se recorda, o que se reinventa. Esta série de crónicas mergulha na metamorfose da experiência.
As grandes franquias transformaram o cinema em rampa de lançamento para marcas, produtos e universos paralelos. As salas ainda resistem, mas são dominadas pelo calendário das estreias globais, onde o filme é apenas a ponta do icebergue comercial.

O Império das IPs: Do Ecrã ao Mercado
Vivemos na era das IPs — Intellectual Properties. O termo, que antes dizia respeito a um bem legal, tornou-se hoje o coração pulsante de boa parte da indústria cinematográfica global. São os universos já criados, marcas reconhecíveis, personagens que garantem público, merchandising e lucro. Super-heróis, feiticeiros, carros falantes, brinquedos com alma e até parques temáticos — tudo é reciclável, expansível, transformável em séries. O cinema passou a funcionar em modo franchising.

E quais são as consequências?
A primeira é evidente: o esvaziamento criativo. O risco foi substituído pela fórmula. O desconhecido pelo familiar. Em vez de histórias novas, temos variações da mesma história. Em vez de filmes com identidade, temos capítulos de uma saga, peças de um universo maior. O público já não entra para descobrir — entra para reconhecer. O “spoiler” tornou-se pecado capital, não porque destrói a surpresa, mas porque estraga a rotina emocional que o espectador já espera cumprir.
A segunda consequência: o condicionamento das estreias. Com tantos recursos a alimentar as IPs — tanto em produção como em marketing —, o espaço para o cinema autoral, independente, estrangeiro ou simplesmente diferente torna-se escasso. As salas de cinema, que já resistem à “videolização”, são dominadas por estreias globais em múltiplos horários. Um filme português luta por um horário de fim de tarde, num ecrã menor, durante uma semana. E depois desaparece.

A terceira consequência: a transformação do público em consumidor de marca. Vai-se ao cinema como se vai ás compras: não tanto para ver um filme, mas para reencontrar uma franquia. Compra-se o bilhete como se compra um produto: com base na embalagem, no logótipo, na confiança de que “sabe ao mesmo”. A fidelidade deixa de ser com o cinema, passa a ser com a propriedade.

Mas o cinema das IPs não se limita ao ecrã. Ele é, cada vez mais, apenas o ponto de partida para uma cadeia de valor muito maior. O filme é a âncora — não o fim. A verdadeira rentabilidade está noutro lugar: nos videojogos que prolongam a acção, nos brinquedos que imitam os heróis, nas roupas que vestem as personagens, nos parques temáticos que recriam os mundos imaginados, nas séries que levam a saga para os pequenos ecrãs. Há uma economia inteira construída sobre o cinema, mas que já não precisa dele como obra artística. Precisa dele como catálogo de marcas.
A indústria aprendeu a pensar o cinema como conteúdo transmedia. A personagem criada para um filme já nasce pensada para poder viver numa série de animação, num jogo de telemóvel, num produto de supermercado. O argumento já inclui “ganchos” que podem dar origem a filmes derivados, prequelas, universos paralelos. E o espectador, longe de ser apenas espectador, transforma-se em utilizador, consumidor, fã, coleccionador.

A consequência disto? O cinema deixa de ser um destino. Passa a ser um portal. Um filme é apenas uma das muitas entradas possíveis para um mundo de exploração económica contínua. E quando isso acontece, a linguagem do cinema perde centralidade. A estética cede ao branding. O tempo narrativo é adaptado aos ciclos de hype. E o valor artístico é frequentemente subordinado ao valor de licenciamento.
Sim, as salas de cinema ainda resistem. Mas o que se exibe nelas, cada vez mais, é pensado não para o grande ecrã, mas para o grande mercado. A imagem, o som, o enquadramento, tudo pode parecer cinematográfico — mas por vezes já não é. É publicitário, é promocional, é plastificado.
A massificação das IPs pode ter alimentado uma nova idade de ouro comercial para o cinema — mas fê-lo à custa da sua singularidade. Quando tudo é pensado para ser replicável, vendável, derivável, o filme como obra única corre o risco de desaparecer. E com ele, o cinema como arte.
Capítulos publicados:
1. O Tempo das Grandes Salas
2. Rever é Resistir
3. Formação de Públicos
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

