Cinemorfose – a metamorfose do cinema e dos seus públicos
O cinema já não é apenas o que se vê no grande ecrã. É também o que se perdeu, o que se recorda, o que se reinventa. Esta série de crónicas mergulha na metamorfose da experiência cinematográfica — desde as antigas salas de espectáculo até à formação de novos públicos. Entre a memória e a crítica, entre o espanto e a banalização, propõe-se uma reflexão sobre a identidade do cinema na era da dispersão. Porque o cinema muda. E nós mudamos com ele.

O Tempo das Grandes Salas
Uma viagem às antigas catedrais do cinema, onde ver um filme era um ritual, uma rotina e, muitas vezes, uma odisseia com bilhete na mão e lugar marcado no tempo.
Houve um tempo em que o cinema era um acontecimento. Um verdadeiro ritual colectivo, que começava muito antes da projecção. Em cidades como Lisboa ou Porto, bastava passar à porta de salas como o Monumental, o Condes, o Império, o Odéon, ou o glorioso Coliseu do Porto, para sentir que algo se preparava. Plateias com centenas, por vezes milhares de lugares. Bilheteiras com filas longas. Estreias marcadas para duas sessões diárias, com uma terceira ao fim de semana — e não era raro ver sessões esgotadas dias a fio. Havia filmes que permaneciam em cartaz durante meses. Havia tempo. E havia procura.
O cinema, como outras ofertas culturais, era escasso e, por isso, precioso. Ver um filme novo era muitas vezes uma espécie de corrida — com amigos, com vizinhos, com a cidade. Quando estreava um título aguardado, como E Tudo o Vento Levou, Ben-Hur, Música no Coração, gerava-se uma verdadeira onda popular. Os mais prevenidos compravam com antecedência. Os mais ousados arriscavam na bilheteira. E os mais desesperados recorriam à candonga — esse mercado paralelo de bilhetes vendidos à entrada, a preço inflacionado, pela escassez gerada pelo próprio sucesso.
Essas salas, hoje quase todas desaparecidas ou reconvertidas, não ofereciam apenas filmes. Eram espaços cénicos. Templos urbanos. Havia cortinas de veludo, intervalos com bar, lanterninhas que acompanhavam os atrasados até ao lugar. Havia, sobretudo, a ideia de que ver um filme era um gesto que merecia ser preparado, vivido, comentado. A projecção era única. O filme só passava ali. A fidelidade do espectador era conquistada no escuro — com planos que respiravam, com silêncios que se deixavam ouvir, com imagens que ficavam dias a ressoar na memória.
Hoje, o paradigma mudou. O cinema passou para os centros comerciais. Salas múltiplas, plateias menores, projecções em série. O mesmo filme pode ter cinco sessões diárias, entre a matiné e o último horário nocturno. Em vez de um único título em cartaz, há doze. E o tempo que um filme permanece em exibição mede-se, muitas vezes, por um único fim de semana. Se o público não aderir nos primeiros dias, o destino é o relegar para uma sala menor — ou a retirada. Entre a estreia de quinta-feira e a renovação da programação da semana seguinte, mede-se o pulso comercial de uma obra que pode ter levado anos a ser feita.
A lógica do consumo substituiu a lógica da permanência. O filme já não é um evento — é um produto entre outros. O espectador já não se compromete — decide em cima da hora, condicionado pela chuva, pelo tráfego ou pela crítica na internet. E a sala de cinema tornou-se mais um ponto de passagem no mapa do entretenimento urbano. Funcional, mas sem alma. Conveniente, mas sem memória.
Claro que houve avanços: a democratização do acesso, a diversidade de géneros e propostas, a qualidade técnica da projecção. Mas também se perdeu algo: a ideia de que o cinema exige disponibilidade, atenção, entrega. A experiência diluiu-se. Ficou mais leve, mas também mais frágil.
As grandes salas do passado não eram apenas maiores em dimensão — eram maiores em significado. Concentravam comunidades. Definiam momentos. Impunham um tempo próprio à arte de ver. Hoje, tudo é mais rápido, mais imediato, mais disperso. E o tempo dos filmes encolheu.
Não só na duração em cartaz, mas também no impacto que deixam.
Antigamente, o filme ficava.
Hoje, passa.
Próximos capítulos:
2. Rever é Resistir
3. Formação de Públicos
4. Cinema como Indústria de IPs
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

