Cinema: Crítica – The Surrender
O que acontece quando uma mãe e uma filha lidam com a morte e têm a ideia de o trazer de volta dos mortos? Eis que The Surrender tenta responder a essa questão.
Novos estreantes no cinema de terror é algo sempre entusiasmante, sobretudo com longas-metragens num género tão permissivo e aberto a novas ideias e abordagens, onde se podem correr riscos em prol da narrativa e criatividade imensurável. Com The Surrender, a cineasta Julia Max aborda temas pesados, com um filme intenso mas com algumas questões no ar.
Quando Barbara (Kate Burton) e Megan (Colby Minifie), uma mãe e filha, respectivamente, perdem Robert (Vaughn Armstrong), o patriarca da casa, estas acabam por enveredar por um caminho perigoso ao submeterem-se a um ritual de ressurreição, e trazer o seu amado de volta.
Abordar o luto é relativamente comum no género, mas pelos vistos não o suficiente para garantir o seu próprio sub-género, talvez porque esse sentimento é sempre considerado como uma consequência da sua premissa. Mas em The Surrender, este é o prato principal, com toda a restante narrativa a acontecer à volta de sentimentos fortes e profundos, com um ritual manifestado a desenrolar e tornar tudo num potencial pesadelo do qual ambas podem não acordar.
Acontece que Max opta por um caminho tenebroso, onde o sofrimento em causa cria momentos de reflexão, num misto de fé – ou falta dela – como também todo um mundo holístico e sobrenatural, tudo para trazer alguém que amam de volta da morte, não conseguindo se convencer da permanência do ciclo natural da vida.
Este caminho nem sempre acerta nos pontos, com um ritmo assombroso, ao vermos as duas mulheres entrarem em constante conflito. Ao desenrolar da história, apercebemo-nos que o ritual está desenhado para um factor choque máximo, e um resultado que nos leva a uma resposta surreal do pedido, acabando por se descair numa alegoria sobre aceitação, com uma identidade visual muito limitada.
A busca da verdade e libertação é ambos o ponto mais forte e mais fraco de The Surrender, pelo que é admirável a forma como retrata os sentimentos fortes, ao limiar do desespero; como o retrato inverso da personificação do ritual, que rapidamente se torna ambígua na sua interpretação e nas suas verdadeiras intenções; apesar dos seus elementos de body-horror fantásticos.
Assim, The Surrender é uma intrigante primeira longa-metragem por Julia Max, demonstrando bastante potencial como uma das próximas grandes cineastas do género, mas que aqui fica aquém das expectativas. Enquanto Minifie e Burton são excelentes nos seus papeis, os elementos sobrenaturais acabam por minar toda a carga emocional estabelecida, deixando-se levar para um significado demasiado aberto à interpretação para o seu próprio bem.
Nota Final: 5/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.




