Cinema: Crítica – Hall
Realizado por Francesco Giannini, Hall decorre no início do que parece ser uma pandemia. Pela rádio, ouvimos que a contagem dos óbitos já superou os 6000, sendo que os sintomas da doença são descritos como semelhantes aos de uma gripe. Tudo isto soa familiar? Sim, mas mera coincidência já que Giannini escreveu o argumento e filmou bem antes da pandemia da Covid-19 que assola atualmente o mundo. A natureza profética da história torna-se, a espaços, desconfortável, mas felizmente existem diferenças substanciais que permitem que nos distanciemos um pouco da realidade.
A meio de uma viagem em família, Val (Carolina Bartczak), Branden (Mark Gibson) e a filha de ambos Kelly (Bailey Thain), fazem uma paragem num hotel para passar a noite. Já no interior, cruzam-se com Naomi (Yumiko Shaku), uma mulher grávida hospedada no mesmo hotel. O que ninguém sabe é que o hotel está na mira de um homem sinistro, decidido a transformá-lo numa área de testes para um vírus mortífero. À medida que a doença se apodera dos hóspedes, a única salvação passa por conseguir chegar ao fundo do corredor.
Hall é um filme recheado de metáforas em que a fuga, de variadíssimas formas, ganha um papel central. A par da evidente urgência em escapar ao vírus, é-nos dada a conhecer a luta de duas mulheres pela sobrevivência. Logo ao início, é revelado que Naomi abandonou o pai do seu filho por este ser um homem com má índole. Do outro lado do corredor encontra-se Val, vítima de abusos por parte do marido. Ela almeja também uma vida melhor para a sua filha e vive na esperança de conseguir fugir do inferno em que vive. O vírus oferece a oportunidade perfeita, mas ter um corredor repleto de pessoas infetadas faz qualquer fuga parecer impossível. Todos estes elementos contribuem para conferir ao espectador uma tensão constante e crescente.
Giannini usa planos fechados e limita os locais da ação a praticamente dois quartos de hotel e a um corredor. Desta forma, o realizador consegue uma atmosfera intensa e sombria, da qual as personagens têm de fugir a todo o custo. Pode-se ainda dizer que se trata de uma forma metafórica de pôr em imagens a sensação de estarmos encurralados perante os problemas e de como ansiamos chegar ao fundo do túnel, aqui corredor, em que cremos estar a solução para os demónios que enfrentamos.
A decisão de contar a história em dois períodos temporais, antes da praga e depois da exposição ao vírus, confere um ritmo adequado ao desenrolar dos acontecimentos, sem grandes explicações sobre a criação do vírus, mas também sem se perder em cenas de ação rebuscadas ou em cenários fantasiosos e pós-apocalípticos.
Infelizmente, as interpretações deixam algo a desejar e, com exceção da amplitude dramática de Carolina Bartczak, os restantes atores variam entre o razoável e o medíocre, prejudicando um pouco o visionamento do filme. Contudo, tratando-se de um filme de terror com um baixo orçamento, este facto não será assim tão surpreendente. Aliás, para filme independente e sendo uma estreia de Giannini enquanto realizador, tudo o resto funciona razoavelmente bem e os valores de produção são bastante aceitáveis para um filme de série B.
Hall é uma história claustrofóbica e de isolamento físico e psicológico que, mesmo sem essa intenção, acaba por mostrar uma realidade com semelhanças ao mundo em que vivemos. Com alguns jump scares interessantes, Hall é um filme recomendado a fãs de terror que estejam cansados das fórmulas gastas dos blockbusters do género e que procurem uma alternativa fora do circuito comercial, mas não vai converter o cinéfilo casual.
Nota Final: 6/10
Apaixonado desde sempre pela Sétima Arte e com um entusiasmo pelo gaming, que virou profissão.

