Bond 26: afigura-se o próximo James Bond
Berlim voltou a ser palco de um dos rituais mais antigos da cultura popular contemporânea: perguntar a um ator britânico se vai ser o próximo 007. Desta vez, o protagonista foi Callum Turner, que no Festival de Cinema de Berlim foi confrontado de forma direta com os rumores que o colocam como sucessor de Daniel Craig no papel de James Bond.

A resposta foi tão contida quanto sugestiva. “É muito cedo para essa pergunta”, disse Turner, esboçando um sorriso malandro antes de se recompor e recusar qualquer comentário adicional. O momento, captado por jornalistas presentes na conferência de imprensa de Rosebush Pruning, teve direito a humor cúmplice do colega Tracy Letts, que brincou ser ele o próximo 007, arrancando gargalhadas na sala.
Mas por detrás da leveza do momento esconde-se uma indústria em ebulição. Cinco anos após a despedida de Craig em 007: Sem Tempo Para Morrer, o futuro de Bond deixou de ser apenas especulação: há peças do puzzle oficialmente colocadas.

A maior confirmação chegou com o anúncio de que Denis Villeneuve vai realizar o próximo filme da saga. O cineasta de Blade Runner 2049, O Primeiro Encontro e da saga Dune – Duna foi oficialmente anunciado pela Amazon MGM Studios como o homem que comandará o regresso do agente secreto ao grande ecrã.
Na mesma comunicação foi confirmado que Amy Pascal e David Heyman assumem a produção, com Tanya Lapointe como produtora executiva. O argumento ficará a cargo de Steven Knight, criador de Peaky Blinders.
A previsão aponta para início de produção após a conclusão de Dune: Messiah, com estreia prevista para 2027. Pela primeira vez em décadas, a era pós Broccoli ganha contornos claros na casa Amazon.
O que continua por anunciar é o mais importante: quem herdará o código 007.

Desde que Craig guardou o smoking, praticamente todos os atores britânicos ou anglo-saxónicos com menos de 45 anos foram associados ao papel. Entre os nomes mais falados estão Aaron Taylor-Johnson, durante meses apontado como favorito e alegadamente alvo de uma proposta formal em 2024, Henry Cavill, Theo James, Harris Dickinson, Tom Holland, Jacob Elordi e Damson Idris.
As casas de apostas têm alimentado o frenesim, alternando favoritos ao sabor de rumores, encontros discretos e até contratos publicitários com marcas associadas ao universo Bond. A mais recente vaga de apostas colocou Turner como um dos nomes mais fortes, com descidas abruptas nas possibilidades após o Festival de Berlim.

O fenómeno não é novo. Antes dele, Taylor-Johnson liderou durante meses. Cavill também teve o seu momento. Elordi surgiu como surpresa após alegados encontros com produtores. A máquina de especulação raramente descansa.

A defesa de Turner como Bond não se apoia apenas nas apostas. Aos 35 anos, o ator britânico construiu uma carreira sólida entre cinema independente e grandes produções. Em Monstros Fantásticos mostrou porte físico e presença clássica. Em Mestres do Ar revelou intensidade contida. Em The Capture conquistou nomeação para os BAFTA.
Turner tem algo que a tradição Bond exige: uma carapaça de aço. De Sean Connery a Craig, passando por Roger Moore, Timothy Dalton e Pierce Brosnan, todos partilharam essa frieza elegante, essa sensação de que o mundo pode ruir mas o agente mantém o controlo.
Mas Bond moderno exige também vulnerabilidade. Craig redefiniu a personagem ao permitir que o público visse as fissuras emocionais do espião, sobretudo em Casino Royale. Turner já demonstrou essa dimensão em projetos mais intimistas, onde o olhar endurecido dá lugar à fragilidade.
Fisicamente imponente, antigo jogador semiprofissional de futebol, Turner preenche ainda a exigência física que a fase mais realista da saga consolidou.

Desde que Ian Fleming criou o agente 007, sete atores oficiais assumiram o papel no cinema ao longo de mais de seis décadas. Connery inaugurou a lenda em 007 – Agente Secreto em 1962. George Lazenby teve uma passagem única, mas marcante. Moore trouxe leveza e ironia. Dalton apostou num registo mais sombrio. Brosnan modernizou a personagem nos anos 90. Craig mergulhou na brutalidade emocional do pós 11 de setembro.
Cada transição gerou polémica. Cada anúncio dividiu fãs. E cada novo Bond acabou por redefinir a personagem à sua imagem.
A escolha de Villeneuve sugere uma continuidade com a era Craig: realismo, peso dramático, espetáculo ancorado em personagens densas. Se assim for, a procura poderá recair sobre um ator capaz de combinar magnetismo clássico com introspeção moderna.
Turner encaixa nessa descrição. Mas até existir confirmação oficial, tudo permanece no domínio da especulação.

Uma coisa é certa: a pergunta continuará a ser feita em todas as oportunidades. E, como sempre acontece com James Bond, a resposta só será conhecida quando o próximo ator surgir no ecrã, ajustar o punho do smoking e pedir o seu martini.
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

