Análise BD: O Corcunda de Notre-Dame
Certos livros merecem mais do que estar apenas numa estante a mostrar a sua lombada. As adaptações de várias obras literárias feitas por Georges Bess, são desses casos. Leiam aqui a análise ao livro O Corcunda de Notre-Dame.
Experimentem pôr o livro em análise em cima duma mesa, como se estivesse esquecido, e vão ver todos (miúdos e graúdos) a espreitarem, a folhearem e a comentar o livro. Isto porque há livros que com o tempo, se vão modificando. Pode acontecer nas abordagens que são feitas, na tradução e até no título. É o caso de “Nossa Senhora de Paris” de Victor Hugo, que depois de muitas adaptações, nomeadamente literárias, ao teatro, à ópera, a banda desenhada, à televisão e principalmente ao cinema, passou a ser conhecida como “O Corcunda de Notre-Dame”.
“Nossa Senhora de Paris” foi publicada em 1831, e é uma obra intemporal, uma das melhores e mais conhecidas criações literárias do escritor francês Victor Hugo. Hugo foi um dos mais importantes vultos do romantismo histórico na literatura francesa e o romance foi inicialmente escrito para ajudar a recuperar a catedral de Paris, que se encontrava parcialmente abandonada e em risco de demolição. Não é por acaso que a mesma está sempre presente na história e é mesmo um dos seus principais intervenientes.



Nossa Senhora de Paris
Georges Bess aproveita a importância da Catedral, para dar uma dimensão monumental a esta obra, desenvolvendo o desenho da arquitetura da mesma, nos seus mais variados ângulos, e usando todos os elementos estruturais e artísticos disponíveis, mas também utilizando todas as variações de luz, que os corredores, átrios, passagens, e outros recantos lhe proporcionam.
Tal como já tínhamos visto nos outros títulos desta coleção o autor utiliza o preto e branco, para criar um clima soturno, demonstrando um grande domínio do claro/escuro. Esta sublime utilização gráfica, em conjunto com uma simplificação dos fundos e um grande detalhe nas personagens, serve para nos contar uma história que tem tanto de alegre e louco, como de triste e sombrio.
Bess parece querer fazer a transposição para o livro de uma peça de teatro com grandes cenários e focos bem definidos nas personagens em cena. Porém por vezes ficamos com a impressão de ter economizado o trabalho em algumas páginas, para depois fazer um autêntico rendilhado noutras, que representam de forma magistral o cenário tardo medieval de Paris.
Uma história gráficamente intensa
O autor continua nesta obra, a quebrar todas as regras da planificação em banda desenhada, com uma distribuição completamente aleatória do tamanho das vinhetas, fazendo os desenhos implodir ou explodir das mesmas, com páginas duplas ou mesmo com páginas rigorosamente bem delimitadas. É o caso de uma página com vinhetas muito bem definidas, mas completamente cheias a tinta negra, numa solução gráfica que é digna de uma aula de arte sequencial, pois apenas se destacam nela, os balões das falas, mas que em boa verdade, é talvez uma das páginas mais cruciais do enredo.



A intensidade gráfica de toda a história, acompanha muito bem o desenrolar do argumento e conclui a obra de forma intensa. No final do livro surgem várias belas ilustrações de alguns dos personagens do livro, que nos provocam a vontade de o voltar a reler, para podermos continuar a apreciar o bom trabalho do autor.
Como já foi dito, a dinâmica de leitura é boa, provocando uma leitura contínua, apesar de que algumas páginas de belo efeito gráfico merecerem uma mais demorada visualização.
Livro em capa dura com boa encadernação, título com verniz localizado e páginas em papel baço de boa qualidade e com boa impressão. Bom preço para o tipo de livro.
Tempo de leitura:
- O Corcunda de Notre-Dame – aproximadamente 1 hora e 40 minutos
Mais um volume da coleção Nona Literatura, naquela que me parece uma boa aposta de A Seita. Ao fim ao cabo voltamos aos primórdios das histórias em quadrinhos, associando desenhos de grande qualidade a adaptações de grandes clássicos da literatura, despertando o interesse de um público de várias idades, muitas vezes descobrindo obras intemporais. Que venham muitos mais volumes…

O CORCUNDA DE NOTRE-DAME
Victor Hugo e Georges Bess
Editora: A Seita
Livro em capa dura com 216 páginas a preto e branco nas dimensões de 23 x 29,5 cm
PVP: 26,00 €

Se não está a ler ou não tem um livro na mão… By Jove, algo se passa!!!

