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Análise BD: O Caderno Azul | Depois da Chuva

O Caderno Azul, seguido de Depois da Chuva, é mais uma aposta acertada da Devir para a coleção Angoulême, este que ganhou o prémio de Melhor Álbum em 1995.

Confesso que, quando comecei a ler a primeira história (O Caderno Azul), pensei para comigo: “Meu Deus, isto parece-me tão politicamente incorreto lido em 2025” (a história original é de 1994/5), porque vejamos: temos dois homens (Victor e Armand) que observam uma mulher (Louise) através da janela do seu apartamento quando o metro para. Logo na sequência inicial, um deles a vê nua e tem o desplante de lhe bater à porta de casa e, de uma forma demasiado intrusiva, tenta seduzi-la com muito pouca subtileza. A partir daqui a trama se vai desenrolando mesmo em obsessão, ciúme e tragédia.

O Caderno Azul / Depois da Chuva

Portanto, numa cultura woke como a que vivemos, confesso que tudo isto me causou estranheza, mas por outro lado não conseguia parar de ler. A narrativa, construída com uma estrutura engenhosa, repete acontecimentos sob novos pontos de vista, revelando que a realidade inicial era apenas uma ilusão. E quando o “Caderno Azul”, um diário de Victor, chega acidentalmente às mãos de Louise, este expõe segredos e distorce as perceções de toda a história.

Na segunda parte, Depois da Chuva, Juillard regressa a este universo com uma espécie de continuação bastante livre. Esta história é menos íntima e mais voltada para o mistério, algo que depois iria explorar melhor na série Blake e Mortimer, que começaria a desenhar alguns anos depois, segundo histórias escritas por Yves Sente.

A história começa com uma exposição fotográfica de Victor. Uma das fotografias desperta a curiosidade de Abel, um homem que reconhece nela um casal ligado ao seu próprio passado. O reencontro com essas memórias desencadeia uma nova investigação emocional, misturando thriller e introspecção. Ou seja, temos personagens herdadas da primeira história, mas cujo grande foco são novos protagonistas e um género narrativo diferenciado.

O Caderno Azul / Depois da Chuva

Em ambas as histórias, apercebemo-nos de que a grande força de Juillard reside na sua capacidade de manipular o tempo narrativo. Estas histórias não se limitam ao que é dito, mas ao que é omitido, criando uma leitura que exige atenção e recompensa quem consegue dedicar o seu tempo a uma leitura seguida, do início ao fim, sem pausas. Apesar das diferenças já referidas, em ambas temos uma estrutura fragmentada e o uso de objetos — o caderno e a fotografia — que funcionam como motores narrativos, baralhando o leitor e tornando o passado fluido.

O traço de Juillard situa-se entre o realismo e a linha clara, com uma composição precisa e uma paleta de cores melancólica que evoca cenários detalhados mas ao mesmo tempo poéticos.

Dito isto, e como já referi antes em alguns dos vídeos de leituras que faço há anos no nosso canal de YouTube (podem ver e ouvir-nos através deste link), este livro é mais uma vez a prova de que este formato não beneficia nada as obras nele apresentadas.

Dou os parabéns à Devir por trazer grandes obras da banda desenhada franco-belga para Portugal com um preço simpático, quer histórias inéditas, quer reedições de obras já há muito esgotadas, mas os 17 por 24 cm não são suficientes para que a arte respire e faça jus à qualidade que surge nestas páginas. Ainda para mais, nem sequer as páginas são plenamente exploradas, ficando muitos milímetros desaproveitados e enormes margens em branco que nada mais são do que desperdício. Mas não só a arte sofre: também a legendagem, cuja fonte fica exageradamente pequena que dificulta a leitura.

Independentemente disso, as edições são bonitas: o design é simples mas elegante, o papel e a encadernação são de alta qualidade e o preço é muito acessível para 140 páginas a cores.

O Caderno Azul

Em conclusão, temos duas obras que exploram o ciúme, a traição, a memória e a manipulação dos sentimentos. Percebemos que as relações humanas são raramente lineares e que até um simples objeto pode alterar o rumo de uma vida. É uma leitura desafiante, que nos agarra com a sua profundidade emocional e com uma arte elegante e detalhada que nos transporta para o meio da ação. Um álbum com alto índice de releitura e que confirma Juillard como um dos grandes nomes da BD europeia contemporânea.


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O Caderno Azul


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Hugo Jesus

Co-criador e administrador do Central Comics desde 2001. É também legendador e paginador de banda desenhada, e ocasionalmente argumentista.

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