Análise BD: Fragmentos de Terror, de Junji Ito
As publicações dos manga de terror de Junji Ito (n.1963) traduzidas para português continuam e os seus muitos admiradores não ficarão indiferentes a Fragmentos de Terror!
Trata-se da mais recente publicação da Presença de uma antologia de oito contos do reconhecido autor japonês cujas obras já seduziram inúmeros leitores por todo o mundo. Como não poderia deixar de ser, voltamos a reconhecer os elementos sobrenaturais ou bizarros dignos orientados pelo sentido de humor negro de Junji Ito, dado a criticar a sociedade japonesa ou a explorar conteúdos insólitos dignos de nos perturbar.
Curiosamente, esta foi a primeira antologia de contos de terror após um intervalo de oito anos, depois do lançamento de New Voices in the Dark, de 2006. Junji Ito esclarece, no posfácio de Fragmentos de Terror, que se havia dedicado a criar bandas desenhadas de gatos e focadas em temas sociais antes de regressar à temática que o tornou famoso durante esse tempo.
Mas este regresso não foi auspicioso, pois através do esboço do primeiro conto A Cama o próprio editor ficou preocupado e achou que Junji Ito havia perdido o jeito para o terror — É um conto extraordinariamente simples, mas um prenúncio da dedicação ao impacto das fobias que o autor pretendia explorar através de histórias distintas, dignas de fugir ou ferir de morte o habitual quotidiano. Tal como nos contos de Lovecraft, parece que só a loucura se oferece como uma fuga para lidar com o insuportável.
Todavia, Fragmentos de Terror explora sobretudo vários teores do excêntrico num mundo de personagens verdadeiramente incomuns que nos marcam pela sua presença e pelas atitudes absurdas, obsessivas ou insanas, fieis aos conceitos desconcertantes a que o autor já nos havia habituado. Assim o é, a título de exemplo, através dos contos O Mistério da Madeira, A Menina das Autópsias, O Pássaro Negro ou A Mulher que Sussurra.
O insólito parece ter sempre ligação com um outro mundo desconhecido e pouco natural, reconhecido através do campo da criptozoologia, dos fenómenos paranormais, de segredos ocultos senão até mesmo da bizarrice plena que contagia as personagens como as do conto Magami Nanakuse. Ainda assim, Junji Ito não quis fugir de questões ligadas ao mundo do crime e da bruxaria, onde o macabro atinge um tom apreciável para apreciadores do género, conforme reconhecemos sobretudo em Tomio da Gola Alta Vermelha.
A arte de Junji Ito nesta coletânea de contos também permanece fiel ao que já identificamos noutras edições: Os seus desenhos continuam a retratar um horror detalhado e perturbador, marcado por traços meticulosos, os contrastes entre a normalidade e o grotesco, expressões intensas e elementos visuais obsessivos como as deformações corporais ou outros padrões distorcidos, antinaturais ainda que por vezes «orgânicos.» A sua linha nunca deixa de ser limpa, mas meticulosa, extremamente trabalhada para nos transmitir algo impactante com um toque de realismo.
É notório reconhecer que há sempre algo de criatura em qualquer humano dito «normal» e que é obrigado a fugir às linhas do convencional em matéria de reação ou de aparência. A arte de Junji Ito em Fragmentos de Terror combina por isso a beleza com o pavor de uma forma hipnotizante e alarmante: Quantos não estão a um mero passo de se tornar vítima ou monstro? O horror não obedece à estreita cumplicidade existente entre ambos?
É sobretudo isso que o autor também nos tenta transmitir através dos traços de tensão que não nos enganam: O nível de pavor operado pela transformação do harmonioso em algo desajustado ou anti-natural pode sempre escalar! Não nos surpreendamos, por isso, que a capa do livro seja inspirada na pintura «O Grito» (1893) de Edvard Munch (1863 – 1944), cujo clima dramático acentuado por tons fortes e por formas distorcidas reforçam a sensação de instabilidade e angústia contribuem para expressar um sentimento profundo de ansiedade existencial — Algo frequente nos contos de Junji Ito.
Fragmentos de Terror conta com mais de 230 páginas a preto e branco, é de capa mole, de dimensões 211 x 152 x 16 mm e sucede à publicação de Sensor pelo mesmo autor através do Grupo Editorial Presença. A tradução é de André Pinto Teixeira, a revisão é de Catarina Florindo, enquanto o trabalho da capa é uma readaptação da publicação original por Catarina Sequeira Gaeiras e a composição de Ana Seromenho. A impressão e o acabamento foram efectuadas pela Multitipo – Artes Gráficas, Lda. A edição portuguesa foi publicada de acordo com a Asahi Shimbun Publications Inc., responsável pela publicação da obra original em japonês em 2014.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural






