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Cinema político domina a 76.ª Berlinale e consagra İlker Çatak com o Urso de Ouro

No sábado (21) foram anunciados os vencedores da 76.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, marcada por polémicas, debates e uma forte presença de filmes de teor político. No final, o principal prémio, o Urso de Ouro, foi para o realizador germano-turco İlker Çatak, distinguido pelo ousado “Yellow Letters”, retrato de um casal de dramaturgos e de uma actriz perseguidos pelo Estado na Turquia contemporânea pelo seu teatro de protesto.

İlker Çatak
İlker Çatak

O filme, rodado inteiramente na Alemanha, com cidades alemãs a representar as suas contrapartes turcas, chamou a atenção pela abordagem formal e pelo comentário directo sobre o autoritarismo.

Antes de anunciar o prémio, o presidente do júri, Wim Wenders, elogiou a obra por “falar muito claramente sobre a linguagem política do totalitarismo em oposição à linguagem empática do cinema”, descrevendo-a como “uma visão aterradora do futuro”.

As palavras de Wenders surgiram após polémicas no início do festival, quando declarações suas sobre o papel da política no cinema suscitaram críticas num contexto de debate sobre a posição do evento face ao apoio do governo alemão a Israel na guerra em curso na Palestina. Na cerimónia final, o realizador optou por uma posição mais ponderada, defendendo o cinema como linguagem empática e espaço de diálogo.

A vitória confirma a ascensão de Çatak, cujo filme anterior, The Teachers’ Lounge”, já se destacara na Berlinale de 2023 e alcançara uma nomeação ao Óscar de Melhor Filme Internacional.

O cineasta torna-se o primeiro alemão a vencer o Urso de Ouro em 22 anos, desde Fatih Akin ter sido premiado em 2004 por Head-On”. Ao receber o galardão, Çatak afirmou ter preparado um discurso político, mas preferiu dedicar o momento à equipa do filme, sublinhando que “o filme fala por si”.

Outros premiados

O Grande Prémio do Júri foi atribuído aSalvation”, do realizador turco Emin Alper, drama inspirado em conflitos fundiários na região curda da Turquia e apresentado como alegoria para tensões étnicas globais. No discurso, Alper recordou “os palestinianos em Gaza” e denunciou regimes autoritários, recebendo aplausos prolongados.

O Prémio do Júri distinguiu Queen at Sea”, do norte-americano Lance Hammer, drama familiar centrado num casal idoso londrino confrontado com a demência. O filme rendeu ainda o prémio de actor secundário aos veteranos Tom Courtenay e Anna Calder-Marshall.

A alemã Sandra Hüller venceu o prémio de Melhor Actriz pela sua interpretação em Rose”, drama histórico do austríaco Markus Schleinzer.

O britânico Grant Gee foi eleito Melhor Realizador por Everybody Digs Bill Evans”, cinebiografia do pianista de jazz Bill Evans. O prémio de Melhor Argumento coube à quebequense Geneviève Dulude-De Celles por Nina Roza”.

Um prémio especial distinguiu o documentárioYo (Love is a Rebellious Bird)”, de Anna Fitch e Banker White. Na secção Perspectivas, dedicada a primeiras obras, venceu o cineasta palestino-sírio Abdallah Alkhatib com Crónicas do Cerco”, que retrata a vida quotidiana sob ocupação.

Presença brasileira

O cinema brasileiro voltou a destacar-se na 76.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, com duas produções rodadas no Ceará distinguidas na programação oficial de um certame que, este ano, contou com expressiva participação nacional.

“Feito Pipa”, de Allan Deberton, recebeu o Urso de Cristal de Melhor Filme, principal prémio da secção Generation, dedicada a obras para o público jovem. “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, estreia em longa-metragem de Janaína Marques, conquistou o Tagesspiegel Readers Jury Award, atribuído no âmbito da secção Fórum.

Ao todo, o Brasil esteve representado por 12 títulos, entre produções nacionais, coproduções e projectos assinados por realizadores brasileiros.

Em “Feito Pipa”, acompanhamos Gugu, interpretado por Yuri Gomes, menino queer que vive com a avó numa pequena cidade do interior, personagem de Teca Pereira. O elenco conta ainda com Lázaro Ramos.

Em casa, Gugu encontra afecto e liberdade, enquanto fora enfrenta o preconceito e o bullying na escola e no futebol. O filme cruza temas como identidade de género, relações familiares, envelhecimento e luto.

Sobre a personagem, Allan Deberton afirmou que “Gugu é apenas uma criança a tentar perceber-se no mundo” e sugeriu também o conflito com um pai incapaz de aceitar o colorido do filho.

O júri da Generation, composto sobretudo por jovens espectadores, destacou que “as emoções de cada personagem nos tocaram profundamente” e que “questões importantes foram abordadas e merecem mais atenção”.

Na secção Fórum, “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” foi premiado por leitores do Der Tagesspiegel, que constituem um júri independente durante o festival. O filme segue Rosa, que revisita a relação com a mãe, Dalva, presa por matar um homem prestes a cometer feminicídio. Entre memória e imaginação, a narrativa constrói-se como um percurso de reconciliação e redescoberta.

Após o anúncio, Janaína Marques disse-se imensamente feliz por ver um filme tão íntimo encontrar eco no público berlinense, sublinhando que a obra fala de atravessar a memória para reinventar o presente e transformar a ausência em movimento, como quem lança um foguete capaz de unir mulheres separadas pelo tempo e pela dor.

Vencedores do Festival Internacional de Cinema de Berlim 2026

Prémio Principal

Urso de Ouro: Yellow Letters
Urso de Prata, Grande Prémio do Júri: Salvation
Urso de Prata, Prémio do Júri: Queen at Sea
Urso de Prata de Melhor Realização: Grant Gee por Everyone Digs Bill Evans
Urso de Prata de Melhor Actriz: Sandra Hüller por Rose
Urso de Prata de Melhor Actor Secundário: Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay por Queen at Sea
Urso de Prata de Melhor Argumento: Nina Roza, realização de Geneviève Dulude-de Celles
Urso de Prata de Melhor Contribuição Artística: Yo (Love Is a Rebellious Bird), realização de Anna Fitch

Berlinale Shorts

Urso de Ouro de Melhor Curta-Metragem: Someday a Child (Um Dia, uma Criança)
Urso de Prata, Prémio do Júri de Melhor Curta-Metragem: O Lugar da Mulher é em Todo Lugar

Berlinale Documentary Award

Melhor Documentário: Se os pombos virassem ouro

Generation Awards

Urso de Cristal de Melhor Filme na Generation Kplus: Feito Pipa
Menção Especial na Generation Kplus: Não sou um herói
Urso de Cristal de Melhor Curta-Metragem na Generation Kplus: Baleia 52 – Suíte para Homem, Menino e Baleia
Menção Especial na Generation Kplus: Sob a Onda do Pequeno Dragão
Urso de Cristal de Melhor Filme na Generation 14+: Chicas Tristes
Menção Especial na Generation 14+: Uma Família
Urso de Cristal de Melhor Curta-Metragem na Generation 14+: Memórias de uma Janela
Menção Especial na Generation 14+: Allá en el cielo (Ninguém Conhece o Mundo)
Grande Prémio do Júri Internacional de Melhor Filme na Generation Kplus: Feito Pipa (O Mundo do Gugu)
Menção Especial na Generation Kplus: Atlas do Universo
Prémio Especial do Júri Internacional de Melhor Curta-Metragem na Generation Kplus: Spî (Branco)
Menção Especial na Generation Kplus: Sob a Onda do Pequeno Dragão
Grande Prémio do Júri Internacional de Melhor Filme na Generation 14+: Chicas Tristes
Menção Especial na Generation 14+: Matapanki
Prémio Especial do Júri Internacional de Melhor Curta-Metragem na Generation 14+: O Fio
Menção Especial na Generation 14+: Memórias de uma Janela

Brasileiro, Tenório é jornalista, assessor de imprensa, correspondente freelancer, professor, poeta e ativista político. Nomeado seis vezes ao prémio Ibest e ao prémio Gandhi de Comunicação, iniciou sua carreira no jornalismo ainda durante a graduação em Geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), escrevendo colunas sobre cinema para sites, jornais, revistas e portais do Nordeste e Sudeste do Brasil.

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